Autorama 2

Boa tarde. Esta é a hora em que o sol bate bem no banco do ponto. Podia ser pior, podia estar chovendo. Eu devia ter trazido um livro. Talvez não. É difícil ler no busão. Meu ritmo de leitura está uma merda. Quando eu tinha um emprego em tempo integral eu lia muito mais, e durante o expediente, o que é melhor. Boa parte do trabalho no Hamlet foi lá. Eu não podia ficar lá para sempre mesmo, o fascistização do MP já mordia meus calcanhares; só a transição podia ter sido mais suave. Acho que não nasci para ter uma trajetória suave. Eu me mudei pra São Paulo transferido e mirando doutorado na USP, em poucos meses ambos tinham evaporado, e a ideia da escola de teatro se revelou desastrosa. Claro, eu estava galgando os degraus da mania, e qualquer ideia que fosse seria desastrosa. Eu só penso em mim mesmo hoje, preciso conversar com alguém urgentemente. Pensar que um dia eu já fui gregário, nos anos de Unicamp. Estes são os anos de Unicamp. Mas tudo mudou, eu mudei, a universidade mudou, a sociedade mudou, e até a Muda mudou, ou seja, ficou muda, e o que sobrou foi uma dúzia de cassetes e boas lembranças. E eu os toco ainda, às vezes, um dos últimos lares dotados de vinil e cassete. Se bem que cassete tão ressuscitando de novo, e eu aprovo, é um bom formato. Eu sou conservador em várias coisas, na verdade, não só nos suportes de áudio, mas com minhas drogas acima de tudo: café é preto e amargo, maconha é no papel com piteira, vinho é tinto e seco, e cigarro é de tabaco mesmo, cigarro mecânico. E, obviamente, em tempos em que querem destruir o que foi construído de bom, cabe a qualquer pessoa sensata ser conservadora. Revolucionária é a extrema-direita. Eu estou me preparando para uma profissão que nem vai mais existir. Como é, ao menos. Bem, minha profissão é tradutor, na academia eu busco as credenciais. Se bem que, se for pensar eu estou bancando a vítima, dizendo que meu trabalho é sabotado, não é levado a sério. Por que seria? Nem você se leva a sério. Você fuma maconha enquanto trabalha, e bebe. Você se acha intitulado a tudo, isso é privilégio branco. Igual o amor da sua vida que você espera que vai tocar sua campainha num cavalo branco até hoje, ou a saída pra sua vida que você esperava se materializar por mágica enquanto se arrastava no curso errado. Você tem que cavar o lugar no clube dos professores doutores, do contrário pra eles te ajudar é prejudicar a corporação. Você é muito sem malícia às vezes, você foi procurar o sujeito premiado por uma tradução com a sua própria. Pior foi depois ler o trabalho dele e sair alardeando que tava uma bosta, e ficar você queimado. Foi o texto dele que me jogou na mania em definitivo. Aliás, nessa última mania você se queimou com o mundo, disparou muita insanidade nas redes sociais, foi atrás da Thaís e fez toda aquela cena em público. Sempre a mesma conversa que volta, de megalomania, o salvador, o escolhido, e volta o Prometeu, e profecias judaico-cristãs, você que é tão ateu, e pseudociência tudo misturado. Meu erro foi ir pra casa do meu pai, em Brasília, que mandou me sequestrar. Enfim, basta. Vai bombardear o velho de novo. De um jeito ou de outro você ia ser sequestrado, como estava. Quem sabe se eu puxasse qualquer conversa com essa senhora, só pra parar de ficar dando voltas em torno de mim mesmo? Algo como “tá calor” está ótimo. Melhor não. Lembra quando você saía dizendo “abaixo a ditadura” a qualquer estranho? Pois quem é o louco, afinal. Bem, melhor me afastar da velha pra fumar. Aproveita e joga o copinho sujo naquela caçamba. Esses copos eu comprei pra plantar maconha, nunca deu certo. Eu vou fazer uma visita ao Bródi ou ao Maciel, preciso conversar sobre qualquer outra coisa que não eu mesmo. Aí você vai contar pra eles as mesmas coisas que estão te perturbando. Mas conversar exorciza. Ele tá atrasado hoje. Nem esperava que a velha falasse. É, né? foi o máximo que me saiu, mas eu aproveitei para emendar uma prosa miúda. Eu nem sei, tem horário certo? Dez pras três, eu pego todo dia. Nossa, já são três e dez. Essa é a hora que o sol bate bem no banco. Foi o que eu percebi. Talvez eu pudesse ter ido de táxi até o Terminal Barão, ao menos. Cinema, eu devia ir ao cinema, nada muito cabeçudo, faz tempo que eu não veja uma boa comédia. Mas tinha de ser uma bem indicada. Indicada por quem? Você devia pôr um anúncio: sou solitário e gostaria de fazer amigos. Não se faz mais isso, hoje deve existir um aplicativo de smartphone. Ou então por que você não aproveita que não consegue escapar do solipsismo e escreve suas memórias? Ah, tá, Memórias de um Fracassado. Ou então O Segredo de um Fracassado, esse é bom. Você pode levar pro lado da doença mental, tem muito apelo hoje em dia, todo um pathos com a esquerda. Será? O que eu mais vejo na internet é campeão contra os preconceitos exercendo preconceito psiquiátrico numa boa. E você vai ligar pra um bando de desmiolado que nem conhece? Só porque atribuem o mau-caratismo, o fascismo e fanatismo dos membros deste antigoverno à doença mental? Preconceito é ser reduzido a algo menos que humano, trancafiado e abusado, preconceito é descobrir que fazem piada de você nas suas costas. Mas, se for pensar, tem um bocado de histórias mesmo. Só de Boston tem um livro inteiro. Quantas crises você já teve? Nove oito, a primeira, foi parar em Marília; dois mil e seis já em Brasília, Mansão Vida 1; dois mil e sete pirou nas gringas, foi parar no Mary Beth, depois voltou pra Mansão Vida 2 e Aparecida de Goiânia 1, esse ano foi foda; dois mil e nove, duas semaninhas de Aparecida de Goiânia 2; pula pra dois mil e dezessete naquele manicômio do Lago Norte. Bem, lá vem o ônibus. Ninguém vai ter pena de mim, eles vão ler que eu sou um alcoólatra e um maconheiro e vão dizer “tá vendo, bem feito, ninguém mandou, devia se cuidar melhor”; ou vão me detonar por ser homem branco hétero e privilegiado. Ainda mais nessa epidemia de dedos apontados, vão me cancelar. Você tem que ser famoso primeiro pra ser cancelado. Bem lembrado.

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