Autorama 1

Tem que manter a posição no flanco. Disso depende o futuro do socialismo. Mas se eu chegar neste ponto eu não consigo atravessar… Nossa, quanta luz. Que boca seca. Você não precisa pôr esse ventilador no máximo. Você não precisava é abrir a segunda garrafa ontem. Ou fumar igual fuma; pobre ventilador. Quê! Quase duas? Eu tenho uma missão hoje. Uma puta missão. Que sonho doido. Olha, você suja a pia inteira de pasta, que vergonha, Leonardo. Essa esponja também já está de jogar fora. O futuro do socialismo depende de mim. Tá fodido o socialismo. E já não tava mesmo? Então foda-se. Ninguém veio aqui pra salvar o mundo. Eu já salvei o mundo umas quantas vezes na minha mania, mesmo. Eu acho que eu nunca fui socialista, só revoltadinho mesmo, e eu mereço o escárnio de todos que me trataram com condescendência por isso. Meu pai, um professor da elétrica, quem mais, mais um pouco me chamavam subversivo. Coitado do meu pai, eu pego demais no pé dele, e ele faz tudo por mim. Inclusive me sustentar a esta altura do campeonato. Não me acelera não, porra. Vai, come uma fruta pelo menos, faz um misto, não vai dar pra almoçar hoje. Ergue a cabeça. As coisas estão andando depois daquilo tudo, você está no doutorado numa prestigiosa universidade, seu Hamlet vai sair… Mas eu tive que pagar. Mas vai sair, porra. Dá frio na barriga. Isso é bom, quer dizer que você está vivo. Parece que eu não me remontei de todo ainda depois daquela. Cheguei a achar que tinha dado defeito, que não prestava mais para nada, que tinha me tornado impróprio pra consumo humano. Você está impróprio pra consumo humano, há quanto tempo não beija uma mulher? Não me acelera. Bem, isso não é novo, sempre que você fica deprimido acha que ficou pelo caminho. Não aguento mais falsas largadas na minha vida, eu já devia estar estabelecido de alguma forma. Sim, mas você tem essa doença, e merda acontece, e faz o que der pra fazer e foda-se. Seu problema nem é a doença. Seu problema é a incapacidade de perceber o mundo e agir de acordo; sua mania de fantasiar como as coisas deveriam ser e ficar chorando o doce que te tiraram. Como dizem, é melhor ser feliz do que estar certo. O Daniel garante que é o contrário, por imperativo lógico; num ponto de honra talvez, é melhor defender os princípios básicos da decência humana contra uma horda de fascistas e perder do que vencer ao lado deles, é verdade. Mas caçar picuinha com a ordem estabelecida das coisas por qualquer convicção boba é masoquismo. É como aquele episódio no Fórum da Barra Funda, quando o segurança quase te prendeu por ler sentado na mureta. Um monte de gente sentava sem ler sem ser incomodada; deviam ser advogados ou promotores, você era um bosta dum motorista, ou então eles deviam pôr uma placa: “proibido ter prazer neste recinto”. E você ainda foi mendigar solidariedade de um zé qualquer, com cara paranaense-polaco-comedor-de-pinhão e ele te deu outro esporro: “não pode sentar na mureta!” Pois aí estamos, amadurecer é não sentar na mureta. Espero que eu esteja aprendendo. Eu pelo menos não armei um barraco com a orientadora porque ela espera outra coisa de mim do que eu propus no projeto, que eu fale sobre Derrida e Lacan quando tudo que eu queria era empreender uma tradução comentada de uma obra de Shakespeare. Bom, não armou barraco, mas não resolveu sua situação a contento. Essa forma sempre gruda o pão, caralho. Você acabou de acordar, relaxa. Não deixa a ansiosidade te guiar através do dia. Ainda deve ter algum iogurte. Foco. Renovar a habilitação. Depois você persegue os louros da realização profissional ou salva o socialismo, se quiser. Eu não devia estar almoçando misto a esta altura da vida. E o que é que você acha que merece, uma mulher pra cuidar de você, macho branco mal acostumado? Não fala isso não, eu sempre tinha empregada para limpar tudo e hoje eu mesmo mantenho a casa suja. Lembra quando seus pais foram vieram morar com você e contrataram uma segunda empregada? Porra, eu me sentia mal com aquilo, e andava deprimido, ainda, e a moça, qual era o nome, caramba, tinha consciência de classe, eu lembro que eu estava deitado à toa sentindo pena de mim mesmo quando ela disse à Madalena “a gente trabalhando e eles no bem bom”. E é isso mesmo. Ainda mais porque na época eu era um péssimo aluno de engenharia. Quanto é que dava um táxi daqui até lá? Dava mais de cem. Do outro lado da cidade. A maior cidade pequena do mundo. Três ônibus, e eu já saio tarde, mas sem café não dá. As “latras” da dona Lídia. Essas latas devem ter a minha idade, ou quase. Elas deveriam me lembrar a mãe, não minha vó, mas era ela que falava “latra”, e “musga” para música também, e não comia peixe. Uma vez eu queria tomar dela um bombom (em Porto Velho se chamava bala de bombom) e disse que era de peixe. Isso deve ter sido na época do Cojubim, lá onde escapamos por sorte de pegar malária, lá onde eu tive um namorico de criança com a Bia, lá onde eu aprendi a escrever antes da escola, brincando. A chaleira vazando até hoje, ainda vai se queimar. Por que eu penso tão pouco em minha mãe? Eu penso com carinho, mas penso pouco. Me sinto meio culpado. Culpado de que, milorde? Canibalismo. Ela dava dois tapinhas e dizia filhão filhão, como quem diria depois “tu não te emenda?”. Ou, como ela gostava de dizer, “só tem tamanho e safadeza”. Imagina ela viva hoje vendo o desastre que me tornei. Lucrécia, a heroína da minha tradução, era exemplo de castidade, mas não chegava ao chinelo: minha mãe nunca fez sexo com outro homem que não meu pai e introjetava o machismo tanto ou mais que a matrona romana. Ela disse uma vez que engolia sapos do meu pai porque assim devia ser, e que eu tratasse de fazer o mesmo. Nunca gostei de engolir sapo. Mas ela era uma guerreira, e conquistava todo mundo por onde passava, tipo o oposto de mim, que viro persona non grata em toda parte. Caralho, você nem sabe mais quanto fuma comprando de pacote. Tá adiando cuidar da saúde. E nem vale a cartada de que ainda não se recuperou. Dois anos. Nem senta no computador, tá atrasado. Eu preciso entrar e ver o horário certinho. Tá, mas só isso. Checar notificações no máximo. Checape, Leonardo. Quarenta anos, crise da meia idade. Seis horas, ótimo. Ninguém gosta das minhas piadas, pérolas aos porcos. Bem, não vai se expor a notícia não. Você já ficou até de madrugada no computador. E passou a maior parte de um ano, qual, dois anos perdendo tempo na internet achando que estava engajado, alucinando que o DOPS ia bater na sua porta a qualquer momento pra te torturar e extrair não sei o quê. Você passou perto de uma nova mania ali. Noventa por cento do que você vê no fim é a gincana da moçadinha. É tóxico. Desliga. Faz a barba, escova os dentes de novo e te veste, duas e quinze. Confere os documentos de novo. Aqui, taxa, residência, RG, CPF, foto. E essa bateria aí? Tá precisando afinar, e a preguiça? Praticar os rudimentos, então, nem pensar. Colecionando promessas não cumpridas. Eu gosto desse barbeador baratinho, ele faz uma série de pequenos cortes que ardem quando você enxágua, eu me sinto o McCauley Culkin em Esqueceram de Mim. É algo como tudo tem seu preço, uma lição de vida. E faz melhor que os sofisticados. É horrível voltar pra casa e ver que saiu com tufos espalhados pelo rosto como uma savana. Eu preciso de mais luz neste banheiro. Tá vendo como você se julga? Até a barba mal feita. Você é implacável consigo mesmo. Você nasceu com um hiperego no lugar do superego. Suas camisetas estão pegando na barriga, Leonardo, cria vergonha na cara. Essa aqui, do Monty Python; tá quente pra preto, mas é larga. Ótimo. Boina? Sem boina. Eu ainda tenho saudade do meu chapéu, aquele que ficou na Rua Aurora, que fita. Agora uma hidratação reforçada para a jornada, um café no descartável, para fumar no ponto, super ecológico, e içar velas rumo a Ítaca. E de volta a Troia, nesse caso. Olha, esqueceu o portãozinho destrancado de novo. Você é um destrambelhado, Leonardo. Não sou não, sou uma das pessoas mais trambelhadas que eu conheço. Duas e meia.

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