Narigadas

Todas minhas fotos tiradas no tempo do filme estão numa caixa de sapato, enquanto as digitais se perderam pelo caminho. Pois eu me peguei passando as vistas pelos instantâneos ontem, enquanto bebia um vinho. A primeira namorada, é claro; a praia com amigos da faculdade durante a greve; o curso de inglês na Califórnia; elas vinham em álbuns de envelopinhos plásticos, e enquanto eu passava um destes, percebi que estava mais pesado. Olhei o álbum por cima, era um que continha fotos muito antigas, da escola, e era possível perceber que havia uma foto a mais entre as que eram exibidas, eu tocando bateria na festa da turma e eu desmaiado de bêbado na festa da turma: havia uma foto “proibida”? Puxei-a com as unhas com certa antecipação, e o mistério se desfez: figurávamos eu e o Délio fazendo caretas, eu com o cabelo grande armado, ele sem camisa e baseado na boca, ambos numa barraca de praia, o que mal se via, pois era noite. A foto deixou meus olhos vermelhos – digo, não apenas as escleróticas, injetadas de sangue – de modo que eu parecia uma assombração. Foi aquele dia em que a gente foi parar em Nova Almeida. O dia em que a gente experimentou colírio.

Não o colírio, o velho Moura, que embranquecia as escleróticas sempre tão sanguíneas para facilitar o trato social, não. Colírio ciclopédico, que só muito tempo mais tarde, quando me informaria um pouco, eu saberia que contém alcaloides de tropano, coisa fortíssima. Ciclopédico no nariz, já virou até música, mas eu naquele dia não fazia uma puta ideia do que se tratava. Sei que saí da minha aula de sábado e usei um orelhão para ligar para a casa do Délio; eu morria de medo que o pai atendesse, que não gostava da minha cara. Minha meta era só fumar um baseado, coisa de fim de semana, então. Ele só disse que corresse até lá, e que tinha novidades. Era um dia de inverno, a temperatura amena o bastante para que a viagem de ônibus até o centro da cidade costeira fosse assaz agradável, e após apear e subir um pouco eu tocava o interfone. Délio desceu. Tirou do bolso um pequeno frasco e começou a explicar o que sabia a respeito do ciclopédico; fungava-se pelo nariz e ficava-se chapado, era tudo que sabia. Explicou ainda que uma tal farmácia não exigia receita e que seus colegas da vizinhança recomendaram muito, o que para mim era um critério suficiente para provar substâncias como quem se arroja a uma piscina sem saber se tem água. Eu confessei que não tinha almoçado, ele insistiu que subisse, eu era super sem jeito, mas fui. Por cima do frango a gente combinou de ir à pedra do macaco, e mais por gestos que por palavras combinou de dar a narigada só mais tarde.

No caminho do ponto havia um café expresso, e eu parei para tomar um. Me lembro disso agora porque o Délio comentava muito meus hábitos, dada uma certa disparidade de classe. O coletivo nos levou a outro bairro, donde se acessava a pedra do macaco; era um destino já velho conhecido, e apesar de sempre ficar devendo ao Délio, naquele tempo pernas e pulmões ajudavam muito mais a galgar as trilhas e escalar a rocha até as cavernas que pareciam os olhos do macaco. Após um descanso, Délio fez um monstro de baseado, como costumava, ao menos na fartura, e eu me pus a comer das frutas que a gente trouxera. A conversa foi por aqui e ali e pode bem ter passado pelo metal progressivo, que parecia uma ótima ideia à época. A gente começou a se encontrar a partir de uma banda de rock que nunca chegou a existir, na verdade. Aí ele começou a contar as histórias dos seus vizinhos com o colírio, de que ouviam orquestras, viajavam a outro plano, recebiam a visita de espectros, e eu fiquei ansioso por uma experiência intensa, e não preocupado. A mocidade. A descida foi com o sol caindo e o café na loja de conveniência mereceu novo comentário. O combinado foi que cada um iria a sua casa tomar banho para depois cair na lama. Rua da Lama, é como chamavam.

Assim foi feito. Eu cheguei antes e me instalei no lugar combinado; pedi uma cerveja, o Délio nem bebia. Ele chegou e tirou do bolso um daqueles, o cara era bom mesmo; eu pedi que escondesse, sempre fui grilado. Ele levou um indicador ao nariz e perguntou se eu estava pronto; eu estava, ou pensava que estava, mas a primeira questão era onde resolver aquela peça de artilharia que Délio exibia com tanta desenvoltura em público. E isso não foi difícil solucionar, havia umas formações rochosas interessantes não muito distante dali, e lá fomos. Enquanto a gente fumava veio gente se aproximando, e foi meio tenso, mas se revelou que era mais maconheiro, e Délio os conhecia, ainda por cima. Foram eles que contaram sobre a festa em Nova Almeida. Délio ofereceu do colírio a eles, que passaram. Aí aproveitou e me chamou para tomar logo. Pois que seja. Vi o amigo fungar duas vezes de cada lado e fazer cara ruim, aí funguei eu duas de cada lado, é amargo, e devo ter feito cara ruim igualmente. Tinha uma ponta pra acender e dali em diante era pura expectativa; finda a ponta voltamos à Lama. Passou-se alguma atividade corriqueira de encontrar gente e trocar algumas palavras, em algum momento a gente estava numa mesa já nem sei mais como e tinha uma morena de cabelo curto linda, tatuada no pescoço, imagina, naquela época; eu sempre fui tímido.

Não havia passado meia hora da fungada mas a gente já reclamava: não deu nada. De repente alguém tinha um violão, e nós nos juntamos a uma turma que se instalou nas mesmas pedras onde estávamos mais cedo; foram vários clássicos de heavy metal e hard rock até que bem tocados, e uns tantos minutos de impaciência dos ciclopédicos. Da próxima vez eu vou dizer que minha cultura é ciclopédica. Não pode ser, não mudou nada. Eu vou dar mais duas. Eu também. Fungamos os dois, pouco depois os amigos do Délio insistiriam sobre Nova Almeida e lá iríamos ao ponto, dispostos a uma tripla jornada até os arrabaldes da galáxia. Todos mantiveram relativo silêncio nos ônibus, nos terminais, e eu mesmo já quase dormitava quando chegamos a Nova Almeida. Nada? Não sei, alguma coisa, e você? Acho que também. Pois bastou o trecho entre a descida do ônibus e a festa para que batesse tudo de uma vez.

Meus braços pesavam. Meu corpo pesava. Tudo pesava. Nem imagino como ia minha silhueta desenhada pela iluminação pública no calçadão. Délio, sem pilha pra festa. Também. Fomos a um trecho tranquilo de praia. Meu irmão, que porra é essa? Cada um se deitou na areia, e eu de minha parte me sentia feito de chumbo, e não havia nada de agradável na onda. Fumar faria bem ou mal? Fumamos. Se bem ou mal fez, ao menos decidimos cair na festa e foda-se. Era uma aglomeração de gente em trajes despojados, de classe média alta basicamente, e foi ao menos uma distração ver as mulheres bonitas. Eu apostei comigo mesmo que conseguiria uma cerveja, e consegui uma cerveja; mas ela desceu estranho, como se houvesse óleo em minha garganta. Comentei com Délio. Nunca mais, disse ele, que não suspeita de Poe. Que troço ruim. Mas, bravos guerreiros que éramos, prosseguimos adiante, com banda de reggae e tudo, até que topamos um grupo com quem começamos a conversar. E havia essa morena, de olho verde, mas seu cabelo era de um preto tão falso que ficava meio ridículo; pois conversando eu descobri que ela estudava na mesma escola, e eu sempre a achei linda, o que ela é, tintura e tudo. Dali a pouco o céu foi providente e todos os demais saíram, certifiquei-me de que Délio estava bem, e parlamentei mais um tanto com Fernanda, antes de arriscar um beijo, que funcionou.

Eu a envolvi com os braços, e sorvia seus lábios macios, sentia seu perfume. Todo mal estar do colírio havia desaparecido, e era como se nós flutuássemos no meio do nada. Então eu senti uma pancada na canela, e depois outra, e toda aquela cena evanesceu. Era o Décio me chutando e me tirando do torpor ou sono em que me encontrava, dizendo que me procurou por toda parte, que diabo eu tinha que me esconder na cabana dos salva-vidas, que era melhor voltar para casa. Será que eu encontrei mesmo a Fernanda aquele dia? Eu nem comentei nada, dormi no ônibus e fui recebido ao raiar do dia por pais preocupadíssimos. Quem tirou a foto e como ela chegou a mim eu já nem me lembro.

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