Acaba Mundo CCLXXXIV

Hoje são trinta de junho de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. No Sri Lanka, após quarenta anos sem executar ninguém, o governo abre processo seletivo para verdugo, convocando “homens de elevado senso moral”. O crime? De costumes: as demoníacas dorgas. Isso me lembra Medida por Medida, em que Pompey faz piada sobre tornar-se, de cafetão ilegal, um verdugo legal. As autoridades estadunidenses e italianas também têm elevado senso moral, e criminalizam ativistas que amparam migrantes: Scott Warren foi processado no Arizona por oferecer comida e roupa, e a alemã Carola Rackete foi presa por Salvini e responderá por crime de guerra por aportar com quarenta e dois migrantes forçados e supostamente arremeter contra embarcação policial (num gesto “magnânimo”, a França se ofereceu para abrigar dez deles). O líder espiritual Dalai Lama, ele mesmo um refugiado, após brincar que uma eventual sucessora precisaria ser atraente ou ninguém daria atenção a ela, reafirmou o direito da Europa à xenofobia. Celebrado acriticamente, o acordo UE-Mercosul, ou Merkelsul, tem tudo para foder o que restou de nossa indústria, foder os medicamentos genéricos, e abrir um acesso ao mercado europeu para produtos primários que não será efetivo devido às exigências ambientais, sanitárias e trabalhistas. Nem é tanto por consciência da parte deles, é que terra grilada e trabalho escravo é competição desleal mesmo. Trump visita zona desmilitarizada na fronteira das Coreias e todo mundo acha lindo, arauto da paz, quando seu país interveio na península e provocou todo o problema. Aqui na Terra tão jogando futebol, e o feminino tem recebido mais atenção que o dos marmanjos, quem diria? Marta é a maior artilheira das copas, e Megan Rapinoe, da seleção americana, desafia Trump e causa um furor. Já na Terra de Vera Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil (Pero Gândavo), desenrola-se a ópera trágico-bufa-cyberpunk, e já faz um tempo que a política não tem mais fim de semana. Bozokid E, reles deputado, é um dos inúmeros candidatos a tiranetes da nação, e veta pelo twitter juíza indicada ao TSE, líder de lista tríplice, porque ela condenara as agressões de Bozo a Maria do Rosário. No Goiás, médico afirma matar petistas, “cancloma” ao genocídio e celebra Hitler. Vereadora do Partido Escola sem Partido é presa por liderar quadrilha que fraudou cento e setenta milhões da previdência; se ela devolver, nem precisa mais de reforma. Falando em reforma, o Posto Ipiranga, lobista de seguradoras, e de si mesmo, já foi escanteado e o relator Marcelo Ramos, que tem sofrido ameaças de morte, já diz abertamente que Guedes quer ficar rico e que não lhe tem respeito algum. O cadáver ambulante que se tornou nosso superministro da justiça, da segurança e da limpeza étnica garantiu a inautenticidade de uma conversa da qual não participa, e recorreu de novo ao Antagonizante do Mainardi, que apontou uma imprecisão na reportagem. Para piorar as coisas para ele, um procurador falou em anonimato ao Correio Braziliense e confirmou sua participação na sessão de tesourar o Moro, e seu teor. Logo em seguida saiu matéria da Lhofa desnudando a extorsão estatal contra Léo Pinheiro, mantido preso até delatar o suficiente, ou seja, ferrar o Lula com um depoimento desamparado de provas mas afeito às convicções acusatórias. A esquerda não fez um movimento de rua desde a LavaRato, mas o gado nazibozomorista faz hoje. Bozo reclama de “aparelhamento da legislação” (traduzindo, dos entraves a governar por decreto) e proíbe o charuto cubano. Acaba mundo.

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