Nostalgia 1

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FABRÍCIO – Caramba, até que enfim! Como cê tá?

JOEL – Tranquilo, cara. Desculpa, meu voo atrasou um bocado.

DAVI – Nem me fala, eu esperei uma hora no aeroporto. Já tô quase bêbado.

FABRÍCIO – Faz uns anos que eu não te vejo. Nem e-mail você responde!

JOEL – Vocês já estiveram com o noivo?

FABRÍCIO – Ah, o Firula? A gente encontrou ele ontem.

FABRÍCIO – Ex-Firula.

DAVI – Ele não gosta mais de ser chamado de Firula.

DAVI – Ele muda de assunto quando a gente fala naqueles tempos.

JOEL – Pois eu acho que a gente deve respeitar. Foi bacana dele nos convidar, e acho que só assim mesmo pra gente se rever.

FABRÍCIO – E esses copos vazios? Garçom, faz favor! Justo num momento perfeito pra brindar?

DAVI – Eu vejo que você também não perdeu tempo por aqui.

JOEL – E eu estava tomando vinho no avião.

DAVI – Quero ver chegarem inteiros no casamento.

FABRÍCIO – Ah, agora sim. Valeu, meu cumpadi. Eu gostaria de erguer um brinde… à eterna, inigualável, insuperável e inesquecível República Kátia Fire, celebrando seu jubileu de cânhamo e o casamento do ex-Flanela.

TODOS – Viva! Aê! Viva!

JOEL – É bom demais estar com vocês, caras. Aquela época tinha um encantamento.

DAVI – Com ácido e cogumelo todo o tempo, tinha por certo.

FABRÍCIO – Todo o tempo, não, mas o bequinho era todo o tempo.

JOEL – Pra mim ainda é o tempo todo, talvez mais. Hoje eu não sinto culpa.

DAVI – Eu acho que se eu fumo duas vezes por ano agora, é muito.

JOEL – Até uma gotinha, de vez em quando, vai.

FABRÍCIO – Ácido? Nossa, há quantos anos que eu não tomo. Acho que a última foi aquela com você, que a gente se perdeu na matinha?

JOEL – Putz! Puta perrengue. E quando a gente chegou, comeu o bolo do Flanela sem saber que era de maconha e ficou três vezes mais louco.

FABRÍCIO – E você tem um canal bom lá no Rio?

JOEL – Tenho uma conexão internacional, coisa fina. Eu até trouxe um pouco, na verdade.

DAVI – No avião? Você é louco?

JOEL – Qual é o problema? O detector é de metal. Vem no bolso, de boa, um tubinho.

DAVI – E como tá lá no jornal?

JOEL – A gente tá falando de dorgas e você vem falar em trabalho? Sai fora.

FABRÍCIO – Isso mesmo. E mais uma aqui, camarada! Poxa, eu fumo só às vezes, mas eu tô fora de qualquer circuito, não tenho um canal, aí preciso ficar pegando paranguinha na República, isso é foda.

DAVI – Porra, canal é tudo. Lembra em quanta roubada a gente já não se meteu atrás de um beque?

JOEL – Putz, aquela vez que eu tava com meio metro na mochila e o policial sentou bem ao meu lado no ônibus. Eu fiquei pálido e ele se ofereceu pra ajudar ainda.

DAVI – A gente teve de descer e pegar o próximo. Mas a pior foi entrar no São Raimundo de madrugada.

FABRÍCIO – Foi aquele dia que as meninas da sociais apareceram e todo mundo estava seco. Até metralhadora apontaram pra gente.

JOEL – A cada boteco chamavam a gente de playboy, achei que a gente ia ser depenado.

FABRÍCIO – E quando a gente voltou elas já tinham ido embora.

DAVI – E quando batia a seca?

FABRÍCIO e JOEL – Putz!

DAVI – A gente ia bater no Velho Fu, que vendia aquele beque podre, cheio de terra.

FABRÍCIO – Ele era completamente louco. Uma vez ele bateu com um pau no Cesinha, do nada.

DAVI – E o tio da marmita, hein? Cinquenta coxinhas! Enquanto ele não rodou foi lindo. 

JOEL – Uma época tava foda, ninguém conseguia nada por meses, e a gente descolou um contato na praia, que não sei quem conhecia. Combinamos tudo e pegamos a estrada, a Débora e eu, dirigimos horas só para chegar até lá e não conseguir falar com o sujeito.

FABRÍCIO – E você, Davi, naquela viagem pro sul, perguntando pro vendedor de banana quem vendia uma parada? Aquela é clássica.

JOEL – O Davi era um fissurinha na época, agora encontrou Jesus.

DAVI – Vai à merda. Eu estou casado e engravatado, minha vida mudou.

JOEL – E aquela na Bahia, que o carinha deixou o artesanato dele de garantia e nunca voltou.

FABRÍCIO – Foi na mesma trip que você comprou ácido falso.

DAVI – Nem fala. Sei que por um semestre toda mina que eu pegava ganhava uma tornozeleira de hippie.

JOEL – Bom mesmo era a época do Julião, lembra?

DAVI – Nossa, o cabuloso. Aquele cara era maluco. Um dia eu fui na casa dele e tinha três metrão, desse tamanho, tinha o selinho da Feiticeira ainda.

FABRÍCIO – Ele devia ter costas quentes, pai militar, alguma coisa. Vocês vão almoçar? Eu estava esperando vocês para pedir.

DAVI – Lembra do Túlio? Da moradia? Meus primeiros doces eu pegava ali.

JOEL – Ele foi em cana.

DAVI – Eu sei. O esquema dele era escancarado. O Lombriga era mais discreto.

JOEL – Isso foi nos primórdios.

DAVI – Sente saudade daquela época, Fabrício?

FABRÍCIO – Sinto bastante, foi uma fase boa. Mas a vida segue, muda. Como não mudaria? Quem aguentaria aquilo para sempre?

JOEL – Por mim, a gente podia fumar um agora.

DAVI – A gente nem almoçou! Você escolheu?

JOEL – Depois do almoço, eu digo.

FABRÍCIO – Eu topo, e conheço o lugar perfeito aqui perto. Camarada!

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