Segura Firme 6

Nunca mais eu cheiro. Carlos deixava o atrevido passar, mas ele diminuía e queria sempre disputar um racha. Me salva, Jana, e eu não cheiro mais. Deixe de besteira, seu Fernando, ninguém vai morrer. Eu cheirei a tarde toda, Jana, com o Flávio. Segura aí, fica tranquilo. Havia um bar do lado esquerdo da estrada, de onde saía um ramal de terra que Carlos sabia que chegava na perimetral já bem perto do hospital, então ele deixou o rival passar e virou de forma abrupta. O outro motorista buzinou, seja celebrando vitória ou o que fosse, mas não se importou em dar meia-volta para prosseguir a perseguição. Cada desocupado, seu Fernando. Esse caminho aqui vai economizar tempo, vai dar tudo certo, reconfortava Jana ao amigo enquanto descobria como ligar a tração nas quatro. Foram por um trecho sem problema algum, mas depois de um cascalho grosso Carlos sentiu o carro puxando e parou para conferir: pneu furado. Puta merda, seu Fernando! Troca o pneu, Jana, eu estou um pouco melhor. O índio, forte, levou poucos minutos para pôr o estepe no lugar do dianteiro direito, mas quando estava terminando apareceu um carro vindo do lado da rodovia, e era a polícia. Desceram dois policiais, um tinha uma lanterna e o outro parecia empunhar um revólver.

O que está acontecendo aqui? Seu policial, meu amigo está tendo um ataque. Documento seu e do veículo. Abaixe os vidros. Ele pode falar? – disse o cana sobre Fernando, que se fazia de desacordado. Após Carlos sacudi-lo pedindo os documentos, que obviamente não trouxera, Fernando mudou de estratégia e começou a exagerar seu estado, simular falta de ar ou dizer que estava morrendo numa voz esgarçada. Ele vai morrer, policial, deixa a gente ir. Sua habilitação está vencida há dois meses, senhor Carlos. Cuide de renová-la. Eu não farei nada porque é uma emergência. Podem ir. Mas o colega dele não parecia satisfeito, e dirigiu-se a Fernando mesmo em meio a seu ataque: esse carro é seu, senhor? O moribundo fez que sim com a cabeça. E este senhor aqui é mesmo seu amigo? Fernando perdeu a calma: É, porra! Deixa a gente ir. Tudo bem, é só porque ligaram da portaria… Deixa isso de lado, atalhou o colega. Podem ir, vão logo.

Jaiwanã jogou o macaco e a chave de qualquer jeito e retomou o volante. Era um pedaço curto de estrada que faltava até o asfalto, e ele tentava manter alguma conversa com o doente para acompanhar sua condição. Fernando garantia que ia parar de cheirar, e que ia matar o porteiro, e Carlos repetia várias vezes que já estava muito perto. Parecia que o susto maior já havia passado, e a conversa foi ficando mais leve, um comentário sobre o pênalti perdido aqui, uma confissão de brochada ali, e nisso entraram pela perimetral, viraram aqui e ali, e em pouco tempo estavam no Santa Beatriz. Nunca mais, índio velho. E tem mais, minha esposa está certa, está na hora de ter filhos. Eu nunca quis ter filhos, eu nunca quis ir à Europa, eu nunca frequento os amigos dela, e tudo é pelo pó. Eu vou contar tudo a ela. Vou ter outra vida, Jana. Eu sempre disse pra ir devagar, seu Fernando. Nessa hora o paciente foi chamado, e recebeu lá mais uma repreensão moral do que medicamentos; não poupou o médico de sua promessa de redenção. Depois de liberado, assumiu o comando do utilitário-esporte ele mesmo, de samba-canção e descalço, enquanto Carlos, após um longo abraço apertado, entrou num táxi e voltou pra pensão. O índio teve uma ideia no caminho e resolveu trabalhar ao chegar, e de fato matou a charada do problema com o televisor da dona Guilhermina, no qual três gerações já assistiram novela. Depois dormiu finalmente. Fernando deixou o porteiro para outra hora, mas tentou eliminar os vestígios da noitada antes de desabar na cama. Em poucas horas a esposa voltará do interior e ele vai precisar se entender com sua “outra vida” e com seu “nunca mais”.

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