Segura Firme 4

Carlos entrou na loja pelo portão lateral e encontrou Fernando na mesa da copa, olhando o computador. Ele deu um salto de alegria e um meio-abraço constrangido no amigo. E quando este produziu do bolso da jaqueta os cinco tubinhos ele se entregou à euforia e esfregou as mãos. Tudo nos conformes, Jana? Uisquinho? Não? Fazia as perguntas enquanto puxava uma cadeira para se sentar e, ato contínuo, despejar o conteúdo do primeiro tubinho no pratinho de porcelana. Porra de brizola pedrada, Jana. Porra, onde você foi? Busca lá no banheiro a gilete, vai. Tá diferente essa aqui. Fernando seguia se queixando, ora da brizola ora da vida, enquanto esmagava cada pedrinha com a lâmina, e nem deixou Carlos falar. Quando a sintonia fina do pó estava pronta, ele esticou uma lagarta e enrolou mais uma nota de cem. Deu com o tubinho na ponta mais perto perto de si e percorreu com diligência o longo caminho nevado: Ñññññzzzzzzz. Aí não se conteve e mandou a segunda, que era de Jaiwanã, na outra narina. Faz uma aí, Jana. Caralho, que coisa ruim, Jana, disse ele se contorcendo. Essa é da classe A, é pra ir com calma, eu estou tentando dizer. Busca água, Jana. Cara, que susto. Bateu um frio, uma taquicardia. Não é melhor ir pra casa? Como é essa história de classe A? Ele disse que era pra você conhecer. Ele sabe quem eu sou? Claro que não, seu Fernando. Enquanto se explicava, Carlos preparava seu tirinho, calmamente desfazendo as pedrinhas, e tão logo ele tivesse cheirado e fungado Fernando afastou o pratinho e puxou para a vista de ambos o computador. Olha aqui, Jana, escolhe uma, tá vendo? tem loura, morena, preta, índia eu não vi nenhuma, escolhe uma, que hoje eu tô bonzinho. Carlos não podia dizer que não ia bem uma trepada, e cresceu os olhos numa morena de tetas falsas que Fernando fez surgir na tela. A essa altura ele já chutara seus receios para escanteio, e resolveu aceitar uísque. Só um gole, Jana, já estamos de saída. Ligou para a morena, depois para a loira capa-de-revista que escolhera, passou o endereço de casa, disse que pagava o táxi obviamente, e se sentiu livre para tirar algumas dúvidas. Enquanto ele falava, Jaiwanã apontou o pratinho e ergueu dois dedos, passando a cuidadosamente preparar dois tiros e logo em seguida cafungar sua parte. Terminada a ligação, Fernando se interessou logo em seguida pelo assunto, virou o resto de uísque sem se engasgar, e sentenciou: essa é boa mesmo, Jana velho. Só mais uminha, pra gente sair. Tirou um tubo do bolso e lançou uma parte do conteúdo ao pratinho, aí sentou-se e pôs-se a triturar as pedrinhas com a gilete, enquanto enumerava as proezas sexuais que contava realizar. Quando estava com o tubinho no nariz, entretanto, o locutor anunciou um pênalti para o Flamengo, já no fim da partida, e seu instintivo “puta que pariu” foi tão intenso que esparramou sua carreira para todo lado. Ele só deu uma risada e voltou a desintegrar mais pó. Essa foi boa, Jana. Que me importa o Coritiba? É o Juventude, seu Fernando. E eu tava torcendo pro time errado, porra? Ainda me perde a porra do pênalti! Ele então meteu o nariz e passou a nota ao amigo, que a meteu no mesmo bolso de jaqueta. Confere os cadeados pra mim, Jana… enquanto eu tiro o carro.

Fernando morava num condomínio na saída da cidade, de modo que seu utilitário-esporte ainda precisou percorrer um bom trecho da Perimetral e outro de rodovia, passando pela polícia num momento de tensão, antes de abordar a portaria do complexo residencial de alto padrão. Fernando desceu do carro, foi amável com o porteiro, deslizou uma nota até sua mão e sussurrou-lhe algumas instruções. De volta ao volante, recomendou a Carlos que fechasse o vidro escuro da janela e rodou ainda mais um tanto até chegar a sua casa. Do lado esquerdo havia um sobrado simpático, e do direito havia a garagem onde paravam, uma piscina e uma edícula. Entraram e passaram à sala, onde Fernando providenciou mais uma vez uísque e exibiu com orgulho o aparelho que toca cinco discos, que ele carregou com os cinco de uma coletânea romântica. Não demorou a que o interfone tocasse anunciando o primeiro táxi. Era Tânia, a morena que Carlos escolhera. Ela aceitou vinho, mas só um pouquinho, e já ia se fazendo à vontade quando chegou o outro táxi com Jennifer, a loira capa-de-revista que Fernando encomendara. A primeira era um pouco mais cheinha do que nas fotos, e a segunda além de menos bonita era um tanto antipática, sentenciando logo: se é grupal eu não faço. Fernando esclareceu que não era nada daquilo, que ela iria com ele para o quarto, e a sua amiga – as duas não se conheciam – iria com o Jana pro quartinho de fora. A morena achou divertido o nome, “de mulher” segundo ela, e os dois já emendaram daí uma conversa, enquanto que entre Fernando e Jennifer as coisas não iam tão fáceis. Ele soube ler seu mau humor, seu tipo físico descarnado, seus olhos azulados, e mandou logo: é farinha o que você quer, não é? A reação da moça traiu sua resposta, apesar do silêncio. Te peguei, loirinha. Eu vou dar uma na sua barriga. Carlos e Tânia encontraram um colchão sem lençóis, Fernando e Jennifer se lançaram sobre o leito nababesco feito pela doméstica naquela manhã.

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