Segura Firme 3

Oi meu amor! Não, claro que não. Desentendimento é coisa que acontece. Depois a gente conversa com calma. A gente se ama, ora. Tudo tem seu tempo. As coisas não estão fáceis na loja, eu já… claro, claro que entendo. Quando você voltar a gente conversa direito. Sua mãe está bem? Claro que estou em casa. No fixo? Eu desliguei da rede, lembra? Não para de tocar com propaganda. Eu te contei isso. Ninguém usa mais fixo. É impossível, eu arranquei o cabo da parede. Aqui, estou ao lado do aparelho, não dá linha. Não estou mentindo. Acalme-se, Patrícia. Tá bem, eu vou desligar agora, beijo. Beijo. Beijo, tchau. Ao lado da geladeirinha havia um ímã representando um motociclista, trazendo dois números de telefone, e sem deixar que o aparelho apagasse ‘seu’ Fernando discou na tela com dedos ágeis, mas aguardou em vão que atendessem, mesmo resultado para o segundo número. Conteve-se para não arremessar o telefone contra a parede, e foi repentinamente salvo do mau humor por um gol muito bonito, de voleio, contra o Flamengo. Serviu a última dose com as últimas pedras de gelo, e nesse instante o telefone tocou. Após um breve introito, encomendou um saco pequeno de gelo e uma garrafa ‘do black’.

Era o penúltimo ponto da linha, desciam senhorinhas com sacolas de compras, que certamente haviam trabalhado muitas horas em ‘casa de família’ antes de buscar no supermercado a janta que os seus aguardavam, e ainda precisavam preparar, jovens em uniforme que estudavam só após exercer algum ofício subalterno, e outras modalidades de gente honrada e sofrida que ainda precisavam ver caras feias e comentários depreciativos quando revelavam o endereço. Carlos também desceu, encerrando a conversa com o cobrador, que ouvia o jogo pelo rádio e garantia que o Flamengo ainda virava. Após atravessar a pracinha descuidada em que meninos e marmanjos jogavam bola juntos, ele entrou pelo labirinto de ruas estreitas com suas construções improvisadas e não poucos botequins onde trabalhadores exerciam seu único lazer. Chegou à base da escada e cumprimentou alguns rostos conhecidos, subiu com um vigor que poucos na sua idade teriam, e chegou à banquinha, que consistia de uma mesinha onde havia duas sacolas de papel, e um coroa de gorro instalado numa cadeira dobrável de bar, de tempos idos, flanqueado de dois adolescentes em pé, um com revólver em punho e outro descansando as mãos sobre uma metranca que lhe pendia do pescoço. Um terceiro se aproximou de Carlos para revistá-lo, mas foi desautorizado pelo chefe. Deixa o Índio, o Índio é de boa. Mais branco, Índio? Cinco peixes, Catatau. Rapaz, tá boa a coisa, Índio velho. Bateu alguma carteira? Carlos nunca comentou sobre o patrono, e as gracinhas de Catatau nunca passaram disso, que lhe importaria a origem da grana que lhe caísse nas mãos – ou passasse pelas māos de um mero funcionário, antes. Você sabe guardar segredo, Índio? Mas claro. Eu tenho uma coisa especial pra você, mas olha, essa é pra ir com calma. Chapolim, faz cinco ampola da classe A e traz aqui – e o moço do revólver subiu ainda mais pela viela e desapareceu na primeira esquina. Essa é só da diretoria, Índio. Eu quero que esses playboys que te usam de mula fiquem conhecendo, por isso só dessa vez vai ser pelo mesmo preço. Mas os pica-fumo daqui nem precisam saber, tá entendendo? Certeza, Catatau, você já me conhece. Conheço mesmo, por isso tô fazendo isso. Durante a espera, gritos vieram de mais de uma janela: era o empate do Flamengo.

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