Segura Firme 2

Jaiwanã enfim relaxou e decidiu curtir a noitada. Tinha mesmo trabalho, mas sua cliente não pressionava muito, sabendo que escolhera mesmo a mão de obra mais barata. Então brindou com um sorriso quase convicto e saboreou a bebida importada que do contrário nunca poderia beber. Desde quando você é técnico de eletrônica, Jana? Ah, quando eu morei lá no Silvares tinha um curso por correspondência, do falecido esposo da dona da pensão, eu fui lendo, consertei um rádio e fui indo, comprando umas ferramentas usadas… a gente se vira seu Fernando. Outro dia era marcenaria, não era? Lá na oficina do Brunão? Era, seu Fernando, eu faço o mais simples. Encanador, eletricista… Pedreiro também. Você é um herói, senhor Jaiwanã. Olha por aí, as pessoas só sabem fazer uma coisa, ou nenhuma. Você merece uma placa. Eu prefiro um emprego decente, seu Fernando. Uma placa de platina nesse nariz, índio safado, e chacoalhou o gelo no copo gargalhando. Não era o primeiro abuso racial naquela relação que, pensando bem, não podia ser descrita como simbiótica senão num nível muito superficial. Mas Carlos, tendo tomado gosto pela branquinha – e habituado a tais ofensas veladas em jocosidade por toda parte – não só soltou um riso abafado como pegou uma tampa de refrigerante que estava sobre a mesa, destacou o lacre e passou com ele entre as narinas, entrando na brincadeira, suscitando longa gargalhada no outro. Carlos era mais velho, e se fosse de linhagem europeia já teria o cabelo branco, estava naquela vida de cafungar há décadas, o que certamente o atrapalhava na conquista de alguma estabilidade financeira, de modo que ele também não podia deixar de aproveitar a proximidade com o empresário, que começou de modo fortuito quando a copeira da loja o indicou para limpar a caixa de gordura e a conversa de tão boa foi parar no bar mais próximo e daí é fácil imaginar como prossegue.

Hoje é dia de futebol, seu Fernando. Ninguém estava prestando atenção à televisão mesmo, que exibia uma entrevista. Quem joga hoje? Flamengo de novo, só passa Flamengo. Tem mais uma perninha de grilo pra cada, Jana. Olha isso aqui, e tirou da carteira uma nota de cem, novinha. Prepara aí. Jaiwanã esfregou as mãos, sabendo que a nota seria dele, e esticou com cuidado duas linhas bem finas, enrolou a nota devagar e tratou de aspirar a sua, fungando como sempre. Fernando enquanto isso gritava com os jogadores que nem eram do seu time, por errar um passe ou perder um gol, e entre um xingamento e outro sobrava algum para a esposa, vadia, puta ou ao menos desgraçada. Ele então cheirou a sua em pé, como estava, e tentou beber o resto do uísque, já aguado, de uma vez, e se engasgou. Vários palavrões depois ele parou de tossir e recobrou o fôlego. Casar? Que besteira casar, Jana! Parasita é o que ela é, vadia. Calma, seu Fernando. Volta lá, Jana. Carlos já sabia que isso ia acontecer, mas não esperava ouvir ‘toma quinhentos’. Ele vestiu de volta a jaqueta que havia posto no encosto da cadeira de tubos de aço. Era melhor não perder tempo se queria ter ônibus pra voltar – taxi nem entrava na quebrada. Algo dizia ao índio pacato que devia ficar com o dinheiro e sumir, buscar outro lugar, outra cidade até, para morar. Mas enganar os outros não era de seu feitio, então aguardou no ponto, sob uma chuvinha gelada, o quatro-sete-nove que o levaria ao bairro Estancieiros.

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