Segura Firme 1

Ññññzzzzzz ah! Caralho, é boa! Caralho! Onde você conseguiu? Lá? Só peguei porcaria lá. Enquanto catava o restinho com o dedo e esfregava nos dentes, o empresário do varejo de autopeças passava com a outra mão a nota de cinquenta enrolada num tubinho ao filho de índios expulsos de sua terra por grileiros, que vivia pelos arrabaldes da capital do estado se agarrando a qualquer bico que aparecesse. Era uma relação simbiótica, um tinha dinheiro, o outro tinha trânsito em qualquer boca, e nada a perder se algo desse errado com os homens da lei, que já o conheciam, e não tinham nem o que extorquir nem motivo para manter o pobre demônio atrás das barras. Fernando, ao contrário, mantinha o hábito escondido até da esposa, e quando começava a exagerar inventava viagens de negócios que eram na verdade temporadas em clínicas. De modo que quando encontrou Jaiwanã ficou feliz por se libertar da função de entrar na favela com seu carrão e rodar por aí com o flagrante depois.

Carlos, que era o verdadeiro nome de Jaiwanã, apelido ganhado em alusão a um célebre indígena que se tornara vereador e fora assassinado, puxou o pratinho onde estava sua parte e o cartão de crédito do parceiro e reconstruiu a carreira meticulosamente, de modo a não perder nem um grãozinho, mesmo que a maior parte fosse pó de mármore, outro tanto efedrina e só um pouco de fato cocaína. Desenrolou e tornou a enrolar com cuidado a nota, sorriso de dentes amarelados no rosto, inclinou-se e percorreu o caminho traçado: Ññññzzzzzz ñzzzz ñzzzz, fungava talvez com medo de perder alguma coisa. Taporra seu Fernando, é boa mesmo. Você ia lá na época do Bero, ele batizava ainda mais a brizola, deram um jeito nele por isso, dizia enquanto garimpava os resquícios para esfregar na gengiva, batia a nota na esperança de soltar mais alguns e por fim desenrolava e esticava os cinquenta reais, que dobrou e meteu no bolso da jaqueta puída – parte do trato.

Não guarda não, Jana – era o apelido do apelido – dá mais uma, e despejou no prato todo o resto de pó que estava no tubo plástico, parecido com um desses remédios para ressaca que não funcionam. Eita, seu Fernando! Eu briguei com minha esposa, Jana, ela foi pra casa da mãe. A noite vai ser longa. É que eu tenho um serviço pra entregar, seu Fernando, senão até… E o que é dessa vez? É uma televisão, tá atrasado, eu não posso. Carlos na verdade tinha receio, uma vez que o parceiro, quase um patrão, estava acelerando, e ficava errático quando cheirava muito. Te asseguro que não vai conseguir dormir, até meia noite está em casa e conserta essa porra de televisão de madrugada. Tá recusando brizola, Jana? Carlos não respondeu, só repetiu o processo para cheirar mais uma, e fez uma gorda de propósito. Fernando seguiu seu exemplo e esmurrou a mesa. Cadela! Levantou-se e buscou o controle da tevê em cima da geladeirinha, ligou e procurou o canal de noticiário. Esmurrou a geladeirinha e começou a xingar os políticos de forma difusa. Tem que matar! Passou da hora de mandar pro paredão! Abriu a porta e tirou a bandeja de gelo, torceu-a de um lado e do outro e a pôs de lado sobre a mesa. Abriu o armário e sacou de lá dois copos, metendo os dedos no interior deles sem cerimônia, e com a outra mão empunhou uma garrafa. Uisquinho, Jana?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s