Meu Desespero Meu Alívio 5

Ela abriu o mesmo sorriso caloroso de mais cedo. Ele enxugava as mãos na roupa, e nem saberia dizer se sorriu de volta, nervoso, mas de certa forma aliviado por não estar sozinho no meio da confusão. Respirou fundo e aí sim sorriu, mas ficou com medo de que o sorriso saísse falso, num esgar ridículo. Disse o que veio à mente, explicando-se.

— Eu não estou muito bem, desculpa.

— O que você tomou, rapaz?

— MDMA. Primeira vez.

— Não gostou?

— Estava até bom quando eu vi você.

— Eu percebi. Tava alucinado. Você não é de rave, dá pra saber.

— Não, vim experimentar.

Cássio já tinha relaxado, ajeitou a camisa e passou a mão pelo cabelo. Eles haviam caminhado um trecho pela área menos apinhada de gente e se estabelecido junto a uma pilastra envolta em tecido branco, que arroxeava como a tiara que ela àquela altura já não usava.

— O que aconteceu com as antenas?

— Nossa, só vi agora – disse passando a mão pelos cabelos castanhos presos e sorrindo novamente.

— Como é seu nome?

— Vera, o seu?

— Cássio – nisso ele estende a mão direita e ela oferece a dela para ser beijada.

— Enchanté.

— Uau, um gentleman.

— Até agora eu só pensava em você como mulher-gato.

— É bem por aí – soltou uma risadinha – quer dizer que ficou pensando?

— Claro que sim, estou feliz em te encontrar.

— Tá melhor?

— Bem melhor, sim. Mas queria estar em casa – diria ‘com você’ ou era demais? Era demais – estou exausto.

— Pois é, que merda é essa agora? A polícia nunca acabou com a festa assim. Alguma coisa terá acontecido.

— Pois eu sei o que aconteceu.

— Sério? E o que foi?

— Meu amigo, meu colega, estourou a blitz da polícia rodoviária.

— Não acredito!

— É ele que estão procurando. Por falar nisso, olha lá ele.

Cláudio saía cabisbaixo e com as mãos para trás da porta do escritório, escoltado por um PM, pelo corredor que a multidão havia aberto.

— Ah, eu sei quem é ele. Não é a primeira confusão que ele se mete. Mas dessa vez ele se superou.

— Trabalha comigo. Já tinha comprado ácido com ele, mas não somos mesmo íntimos. O problema é que não sei como volto para casa.

Neste momento, a maior parte das pessoas estourava rumo à saída, que havia sido liberada, mas algumas ligaram música numa caixinha portátil e retomavam a dança celebrando o fim do impasse.

— Volta comigo, Cássio. – e seu sorriso agora tinha uma conotação a mais, talvez pelas sobrancelhas arqueadas.

— Com prazer, Vera. – e sorriu, agora franco e despreocupado.

— Só acho que minha amiga quer ir até de manhã cedo.

— Aquela que te carregou pra longe?

— Ela, a gente combina de não pegar ninguém em rave. Sempre complica tudo.

— E você não quer abrir uma exceção?

— Bem, eu já me perdi dela mesmo.

Ele se aproximou e ela ajustou a postura de modo que sua estatura, maior que a dele, não atrapalhasse o beijo, que se desenvolveu com naturalidade e até moderada volúpia desde o início. Ele laçou sua cintura e ela tinha os braços por sobre seus ombros. Foi quando a música recomeçou na tenda principal. Vera se devencilhou e tomou-lhe pela mão, e sem chance de oposição arrastou-o até até a fonte das batidas. Sacou da pequena bolsa de couro preto um estojinho plástico, de lá um comprimido, que foi à boca, e o envolveu em mais um longo beijo, não sem antes dizer no ouvido de Cássio: confia em mim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s