Meu Desespero Meu Alívio 4

Cássio olhou para trás, mas em meio a tanta gente não localizava os parceiros naquela aventura, ao menos para ele, insólita. De repente uma mão o tomou pelo punho, e quando pôde perceber já corria com seu grupo para o lado esquerdo do balcão do bar, uma grande chapa de acrílico curva no lado da frente e iluminada com uma luz leitosa. Chegaram a uma porta em que se lia “privativo”, Cláudio cochichou algo ao segurança, que a abriu. Estavam numa sala de decoração modernosa, com uma escrivaninha de um dos lados e uma espécie de chill out em miniatura do outro, cujos frequentadores pareceram assustados com a invasão. Pablo passou o petardo a Cássio, que o recusou, enquanto Cláudio se dirigiu a uma moça de colete, que podia mesmo ser aquela que Cássio viu recebendo os policiais do lado de fora, e Renata, que parecia não dar conta de nada, com um sorriso no rosto mirava o descanso de tela psicodélico do enorme monitor. Percebendo que Cássio estava pálido e tremendo, Pablo tentou tranquilizá-lo.

__ Respira, mano. Se controla. Aqui a gente está seguro. A polícia sempre leva o seu. Eles fazem toda essa cena por esporte. E você não tem nada, tem? Não era seu último aquele? Hein? Fala alguma coisa, homem!

A cabeça de Cássio girava a mil por hora, e ele não precisava de motivos concretos para se desesperar. Muito embora tivesse. Tinha assinado um termo circunstanciado ao ser pego com beque meses atrás e qualquer incidente podia significar cadeia, ou no mínimo um enorme aborrecimento e gastos com advogados. E ele não era genro e favorito do dono da empresa como Cláudio, podia ir parar na rua no pior momento para isso. Pensava na namorada que o deixou porque ele curtia substâncias: se tivesse parado com tudo e ficado com ela, não estava melhor agora? Se tivesse ficado em casa ouvindo jazz e tomando um vinho, não estava seguro? Sentia frio, sabia que era pleno verão, a boca estava seca e nunca conseguiu buscar aquela…

__ Água!

__ Isso, água, eu vou conseguir pra você.

Quando a moça de colete saiu pela porta, Cássio desabou numa poltrona desconfortável que estava ao lado de Cláudio, perguntado-se já até que ponto fazia sentido ficar com o grupo, e pôde ouvir o suposto amigo falando ao celular.

__ Sim… Eu sei… Eu sei que a rodoviária não está sob o secretário, foi por isso que eu furei… Como eu ia adivinhar que eles me encontrariam? (…) Tudo bem, é óbvio, mas eu tinha que pensar rápido, foi instinto… Eu sei, tio, mas não tinha como saber que o comando do posto mudou, que esse filha da puta ia atrás do secretário em pleno fim de semana… Certo, certo, eu sei que o batalhão não podia entregar o esquema, você já disse… Olha, só deixa meu pai de fora… Eu vou sim…

Nisso chega Pablo com a água prometida, que Cássio bebe de uma virada só. Ele ajeita-se na poltrona, lava o rosto com o que restou na garrafinha, olha em volta, para de mastigar os dentes, respira fundo e se levanta. Cláudio ainda está de costas, Pablo se juntara a Renata e passava-lhe o baseado, que seguia aceso. Erguendo-se feito mola, com passos firmes ele vai até a porta e puxa a maçaneta. Trancada. Há um painel eletrônico como fechadura. Ele força e força de novo, até que o segurança abre do lado de fora, e o olha inquisitorialmente. Ele faz um gesto com a mão como se abrisse passagem e retorna ao espaço anterior, agora apinhado de gente com aparência de preocupação. A música suave havia cessado, e o bate-estacas também, só se ouvia um burburinho. Como os banheiros eram ali ao lado, ele achou por bem aliviar a bexiga, antes de… antes de que, mesmo? Afinal, bastou se esgueirar alguns metros entre a multidão para entreouvir que a polícia não deixava ninguém sair. De qualquer modo, centrar a atenção no corpo foi bom para deixar de lado a mente, e seu esforço de autocontrole ia surtindo resultado. Pablo estava certo: contra ele mesmo a polícia não tinha nada. Quando saiu pela portinhola do sanitário masculino, quem sai pela portinhola vizinha senão a mulher-gato?

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