Acaba Mundo CLXXVII

Hoje são dezoito de dezembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Não sei por que diabo eu não havia ido à British Library da outra vez que vim a Londres. Tempo atrás eu até tentei uma oportunidade de pesquisar lá pelo governo, mas minha irmã trabalha no ministério e isso me eliminava. Enfim, isso é irrelevante. Pois hoje eu lá fui e pus os olhos em mais coisas fantásticas do que posso relatar. Uma Bíblia de Gutemberg, a Magna Carta, a Enigma, máquina de códigos alemã que Turing e sua equipe venceram… e uma vitrine sobre Shakespeare com um exemplar de Lucrece e… rufem tambores… o primeiro First Folio da minha vida! Por falar em Shakespeare, saí de lá e fui ao Barbican Theatre, que é parte de um impressionante complexo cultural, assistir a uma montagem da Royal Shakespeare Company de The Merry Wives of Windsor. Seguindo a tradição de cagar para a tradição, figurino e cenários mesclavam a “middling sort” da Windsor elizabetana com uma classe média kitsch contemporânea. A tensão, epecialmente no final que envolve uma mascarada sobre espíritos e fadas, pode ser meio desconcertante. O espetáculo joga uma camada de pastelão por cima da farsa, o que é de se perguntar se é demais, aí vai de cada um. O galã Fenton tropeçando toda hora, por exemplo, não estragará o personagem? Anne, a noiva por ele, e pelos favoritos de pai e mãe, cobiçada, que geralmente é angelical, como uma periguete vulgar, também não desestabiliza demais o texto? Bem, Falstaff era interpretado por alguém com o physique du rôle adequado, inegavelmente, e um ótimo ator. Destaque fica para a Mistress Ford e seu rabo espetacular (espero que não fosse falso). Algumas mudanças foram introduzidas para atualizar a peça, como um “wheelie bin” (conteiner de lixo) por cesto de roupa, ou golfe por caça, e algumas inserções eram feitas sem constrangimento, como “quel disastre ce Brexit” vindo do francês Doctor Caius. No mais é uma produção interessante mas não extraordinária. Estou ficando exigente. Nas primeiras vezes que vi montagens deles tudo era deslumbramento. Amanhã tem mais.

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