Meu Desespero Meu Alívio 3

Eufórico como estava, Cássio apenas fechou os olhos novamente e recomeçou a dançar de modo ainda mais frenético, com movimentos que ele mesmo nunca imaginara e nem aqueles ao redor estavam acostumados, de modo que quando dava encontrões a torto e a direito a maior parte não se incomodava, e ainda o estimulava, e em pouco tempo estava formada uma roda em torno dele. Quando parou, por pura exaustão, uma morena linda de olhos agateados dançava bem na sua frente, num traje colante que realçava suas curvas, como a mulher-gato, e com uma tiara de pom-pom branco que brilhava na luz negra. Ele lançou suas mão na cintura dela, quando ela se virou, que continuou se mexendo e pareceu não aceitar o convite, mas se virou de volta e olhou-o profundamente, antes que uma amiga passasse e a levasse dali sem maior explicação. Água, ele se lembrou, e rumou para a tenda anterior sem se preocupar nada com os amigos perdidos.

Quando conseguiu a água, preferiu ficar por ali mesmo. Foi uma boa experiência, mas estava cansado. A bem da verdade, sentia um peso. Tentava não pensar muito, mas a euforia tinha passado, e agora nada daquilo fazia sentido, as pessoas em volta pareciam ameaças e ele queria estar com seus amigos de novo, para conversar sobre qualquer coisa que não fosse dar voltas às própria cabeça, lembrar-se de que era um peixe fora d’água, e sentir-se incômodo como estava se sentindo. Tentou o mesmo ponto onde estavam antes, nem sinal de ninguém, e aquela música já o incomodava. Voltou à entrada.

__ Posso sair lá fora?

__ Como?

__ Eu preciso sair lá fora.

__ Cadê seu ingresso?

Ele o mostrou e saiu, sentindo-se aliviado, ainda que as batidas prosseguissem às suas costas. Acendeu um cigarro e admirou o fim do pôr do sol, e então viu, um dois, três, sete carros de polícia entrando pelo estacionamento. Ele mesmo nada podia fazer, e ainda ouviu alguém por perto dizer que estava tudo certo com o secretário, então ele seguia encanado com o que mesmo, com nada. Só com o fim da onda que chegava já como uma ressaca. Ele viu quando o carro do Cláudio foi cercado, e achou uma boa ideia achar o amigo. Mas toda trajetória foi um teste, e ele estava mesmo disposto a reclamar que a droga depois de um tempo era uma tortura. Encontrou os três no chill-out, às gargalhadas.

__ A polícia está cercando seu carro, Cláudio. Acho que eles vêm pra acabar com a festa.

__ Você é paranoico, Cássio. Não estraga nossa onda. Tá tudo certo com a polícia. Quem disse isso?

__ Eu vi, eu saí lá fora.

__ Liga pro seu tio, Caco – atalhou Renata, saboreando um coquetel de frutas.

__ Calma – opinou Pablo – espera pra ver que história é essa. Faz várias horas que a gente furou o bloqueio, será que iam aparecer agora?

Quando resolveram enfim sair e conferir o que acontecia, já uma pequena multidão se aglomerava na saída de modo que o controle havia sido abandonado. Havia dois carros da polícia bloqueando um carro estacionado mais ou menos onde eles haviam estacionado, era difícil dizer, e na entrada do evento três policiais conversavam com um casal identificado com o colete da produção. A coisa era séria.

__ Bobagem, gente. Está tudo arranjado com o secretário de segurança. Meu tio é o chefe de gabinete dele e eu estou por dentro de tudo. Eles vão fazer esse carnaval e vão embora. Não é a primeira vez. Só entra e deixa o tempo ruim passar. Quer saber? Renata, me dá mais uma bala.

__ Boa ideia, Caco, eu também vou tomar.

__ Eu também.

__ Eu queria estar em casa – murmurou Cássio, e pensou mesmo em caminhar até a estrada e pedir carona, mas entrou com os outros.

Tinha a escolha de tomar também outro comprimido daqueles e voltar ao topo da onda, mas era muito arriscado para uma primeira vez. Só precisava se manter calmo e não se perder do grupo, manter alguma conversa. Mas como conversar com a música alta e com os amigos tentando curtir sua viagem interna?

Rumaram para o palco à direita, e realmente cada um se entregou à dança, no caso dele eram os sacolejos sem jeito de novo. Percebeu que mastigava os próprios dentes, e prestar atenção nisso para se recriminar era uma nova fonte de ansiedade. Sentia que estava fingindo divertir-se, pensava em puxar conversa, mas não havia ensejo. A iluminação batia-lhe nas vistas, o som parecia estar ainda mais alto e opressivo, e cada vez que se lembrava de que aquilo ia até amanhã cedo pensava na ideia de pedir carona, e então na possibilidade de ser abordado pela polícia. Pensou que ainda tinha maconha, mas não sabia se ia ajudar ou piorar ainda mais as coisas. Se perguntasse ao amigo a resposta seria óbvia, mas no fim criou coragem e perguntou, e o audaz motorista de mais cedo aceitou aquilo como sugestão, então mais uma vez procuraram o chill-out e se instalaram num dos sofás. Cássio passou seu resto de fumo ao Pablo, que juntou outro tanto e fez uma bomba. Ao menos ali conversavam qualquer coisa miúda, e era mais fácil se enganar dizendo que estava tudo bem. Levantou-se para pegar outra água, e foi quando viu um tumulto se formando de gente vindo correndo da tenda principal. E seu coração voltou a disparar.

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