Meu Desespero Meu Alívio 2

O tempo de fumar a ponta foi o tempo da fila, e a conversa sobre trabalho, embora um pouco fora de lugar ali, ajudou a Cássio e Cláudio passar o tempo, enquanto Renata e Pablo eram só beijos. Quando chegaram ao portão, foram recebidos por uma moça de traje e cabelos prateados, e óculos verdes em formato de estrela, que escaneou o ingresso de cada um e os deixou entrar. Olhando para trás, era possível ver o enorme estacionamento onde se escondia aquele automóvel que evadiu o bloqueio policial.

O evento ocorria em três tendas, e aquela pela qual entravam era a principal. Havia um palco em cada lado, e a mistura das músicas ali no centro onde estavam foi algo que incomodou a Cássio, mas ele soube ficar calado. Bem na entrada havia três alienígenas fazendo mágica.

__ Tá entrando, chuchu!

__ Qual tá entrando, benzoca?

__ A bala. Você acredita em mágica, amor?

__ Claro que acredito, estão fazendo na minha frente!

__ Não seu bobo, isso é truque, eu digo mágica.

__ Eu devo dizer que acredito na magia do amor, é isso?

__ Você não acha que uma substância alterar a mente não é mágica?

__ Nossa, amor, toda razão. E já está funcionando.

__ Vocês – Cássio quis entrar na conversa, e precisou se aproximar – vocês já viram alumínio se misturando com mercúrio? Pra mim é mágica.

Os dois pareceram interessados e ele sacou o celular para mostrar o vídeo, enquanto Cláudio já abordava uma moça vestida de dominatrix ali perto. Não tendo sucesso, voltou para o grupo e pediu para assistir também, não sem antes perguntar como ia o colega.

__ Estou sentindo alguma coisa,  como um formigamento mental.

Logo após, aproximaram-se de um dos palcos, e aí era possível ouvir a música com mais nitidez. Cássio se sacudia de algum jeito, mas não deixava de julgar. Havia timbres interessantes, alguns motivos que se repetiam e iam se acelerando até se resolverem numa espécie de recomeço, sem que houvesse no fim nenhuma separação em canções distintas, mas o ritmo era sempre aquele de bate-estaca, que parecia afetar bem mais aos companheiros do que a ele. Mas ele olhava em volta, via as moças bonitas, a decoração, até mesmo a estrutura da tenda parecia incrível. A onda crescia nele, e de fato já era impossível ficar parado, e ele ia se soltando. De repente, Cláudio o tira de seu torpor.

__ Bateu, mano? Massa! Olha, vamos comprar água, é muito importante não esquecer de tomar água.

Caminharam então os quatro para a segunda tenda, em que vendiam bebida e funcionava o tal do chill-out, que nada mais era que uma enorme área com sofás e almofadas, onde tocava música suave, quase música de elevador, mesmo que as pulsações da tenda principal ainda fossem audíveis. Cássio arriscou:

__ Essa mistura de sons diferentes não incomoda vocês?

__ Se entrega, Cássio. Achei que já estava entrando na onda.

__ A onda está entrando em mim. Na verdade, minha cabeça começa a latejar, e minhas mãos estão suando.

__ Pois é isso mesmo. Agora relaxa. Aqui, vamos acender outrinho pra fila.

E alguns minutos após já estavam com as fichas de água, retiraram cada um sua garrafinha e rumaram para a terceira tenda, onde supostamente tocava um estilo mais extremo. Como sua namorada foi ao banheiro, Pablo se ofereceu a explicar ao novato todas as modalidades de música eletrônica, mas Cássio achou curioso que fosse apenas uma questão de andamento. De qualquer sorte, chegaram, e era uma música frenética, boa para o auge do efeito, que estava mesmo se impondo.

Cássio se sentia mais à vontade, e achava o efeito no geral positivo. Qualquer ansiedade parecia ser dele mesmo, não da substância. E de repente o aspecto dela que lhe rendia a alcunha de “droga do amor” foi surgindo, e todas aquelas pessoas pareciam fantásticas, aquela “rave” uma celebração anímica da vida; o colega recebeu um fervoroso aperto de mão que se transformou em abraço, e o casal não quis ficar de fora. Cláudio estava feliz por ver o amigo se entregar enfim, e retomou a rotina de abordar as moças, bem mais jovens que ele. Pablo e Renata se esfregavam com cada vez mais vigor, até que de repente sumiram de vez. Assim, após dançar de olhos fechados por vários minutos, num verdadeiro êxtase, Cássio os abriu e percebeu que estava sozinho.

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