Meu Desespero Meu Alívio 1

O carro alcançou a estrada pelo acostamento, era um modelo popular, não muito novo, que entrou na pista, sem dar seta, no momento em que o baseado era aceso. A viagem até a fazenda onde ocorria o festival era curta, mas suficiente para os quatro passageiros começarem os trabalhos. Cláudio, que dirigia, era amigo de infância de Pablo, que ia atrás com sua namorada Renata, todos três frequentadores de festas de música eletrônica e apreciadores do MDMA, enquanto Cássio, que ocupava o banco do passageiro, era um colega do motorista numa firma de publicidade, que gostava de outros estilos de música e estava indo apenas para experimentar a substância.

__ Você vai ver, é a única música que você vai querer ouvir depois de tomar – era Cláudio, pondo a mão esquerda para trás para receber a bomba – e qualquer coisa tem o chill out, você descansa. Você vai ver, é muito louco.

__ Você já falou tanto disso. Sabe que não sou de droga química.

__ É só amor – Renata abriu um sorriso e foi acariciada por Pablo, que provocou:

__ Quando eu te conheci, você não estava chapado de ácido? – e todos riram.

__ A música é geométrica, prosseguiu Cláudio. Você se deixa ir, se permite sentir. No corpo. É um barato louco – e buzinava para um caminhão velho para que saísse da frente.

__ Galera, tem uma polícia aí na frente – foi a primeira intervenção de Cássio. Mas ninguém deu bola.

A estrada passava por motéis, borracharias e pequenas fábricas, e o sol da tarde banhava tudo de muita luz. Todos haviam almoçado perto da casa de Pablo, dirigiam fumando o digestivo, e o plano era ficar no festival até a manhã seguinte. Na bolsa de Renata havia um sortimento de ácido e ecstasy digno de especialistas, e provavelmente todos traziam maconha consigo. A trilha sonora no automóvel já era uma prévia do evento, e Cássio ia tentando se aclimatar, desligar os julgamentos.

__ Puta que pariu! Polícia! – era o motorista.

__ Eu avisei – era o passageiro.

__ Só fica calmo. Não vai dar nada – arriscou Pablo. Não dá pista.

Cláudio diminuiu a velocidade, contornou os cones e parecia disposto a parar ante o sinal do policial rodoviário, mas de repente mudou de ideia, ou estava já preparado para tentar um lance arriscado.

__ Se segura todo mundo!

E esteve perto de atropelar o agente ao acelerar feito louco. Cássio levou a mão à testa, Renata deu um uivo de excitação, ao qual Pablo secundou, e quando alguém pôde pensar já haviam passado pelo posto. No retrovisor se via o guarda entrando na viatura.

__ Eu sei o que estou fazendo! – disse Cláudio, alcançando o controle de volume para tornar o bate-estacas mais alto e onipresente.

Após uma curva para a esquerda, Cláudio jogou o veículo numa vala lateral, que a transpôs como se fosse um jipe fora-de-estrada. Ele sabia que a cerca era um bambuzal novo, que cedeu ao carro em marcha baixa, e ergueu-se novamente, de modo que quando estavam já na via interna da fazenda de cana, após toda a turbulência, seria impossível do lado de fora perceber por onde eles entraram. Cássio se perguntava em que espécie de fria havia entrado, mas todos os outros estavam exultantes, esmurrando o teto do veículo e soltando gritos, animados. Na terceira rua Cláudio virou à esquerda com uma velocidade absurda, e duas rodas deixaram o chão de terra vermelha. Algumas risadas após estavam já no estacionamento do festival. Cláudio precisou tranquilizar Cássio, enquanto Pablo e Renata só interrompiam as risadas para se beijar, enquanto se afastavam do carro em direção à primeira tenda, em que se cobravam os ingressos, e todos estariam a salvo no meio da multidão.

__ Eu disse que tinha polícia.

__ A gente sabe que tem polícia, mas eles nunca ficam na pista. Fica tranquilo. Se entrega, mano!

E Cássio tentava mesmo entregar suas cadeiras ao ritmo que vinha da tenda principal, decidindo que o melhor a fazer era mesmo baixar as defesas. Como o baseado, pela metade, havia ficado com ele, pôs-lhe fogo e olhou em volta, fitando as várias gatinhas que chegavam ao evento, inclusive em grupos, as quais não repararam nele nem um pouco. 

__ Isso, irmãozinho, fuma essa bomba que já está na hora de lamber seu papel.

Nisso Renata sacou o arsenal da bolsa, e enquanto os veteranos puseram na boca tanto o ácido quanto o MDMA, “pelo equilíbrio,” explicavam, o novato colocou sob a língua o papelete da substância nova para ele, que quase gostaria de estar em casa já, tomando um vinho velho conhecido e perdendo tempo no computador uma vez mais.

__ Bem, o carro é seu, o problema é seu. Só quero ver a volta.

Desta vez foi Pablo que se adiantou e repreendeu o viajante adventício.

__ Meu, relaxa, você veio curtir o amor, se entrega, a noite vai ser longa e ninguém veio aqui pra curtir a bad trip dos outros.

Nesse momento, Cássio se perguntava se, solteiro, conseguiria algum amor de um papel embebido numa determinada substância. E se, sendo um estorvo para os companheiros, como já estava claro que era, teria sido mesmo uma boa ideia experimentar aquela droga. Mas tinha sido ideia dele, e o melhor era abrir um sorriso, e talvez soltar um gritinho enquanto esperava a fila andar e o efeito se fazer sentir.

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