Acaba Mundo LXXXIX

viridis

Hoje são vinte e seis de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Quero falar de mim, hoje, e não do mundo. Ou do meu mundo. Ou do mundo através dos meus olhos. Não ser lido me dá a liberdade de expor minhas vísceras. Quero dizer que sempre tive uma tendência ao ceticismo no que se refere a religião, e sempre me interessou conhecer um pouco de diferentes visões da realidade em outras culturas, de propostas filosóficas diversas, e das explicações da Física. Posso dizer que me identifico com o animismo, e/ou com o panteísmo, ou seja, a ideia de que o universo é um todo “vivo”. O somatório de todas formas de energia (matéria ou diversa) juntamente à lógica que os rege é o único Deus em que posso acreditar: a estrutura completa da realidade física, não uma consciência. Mas por um bom período eu me envolvi bastante ativamente com uma religião, ao frequentar cerimônias do Santo Daime. Tive experiências fantásticas, que transcendem mesmo a linguagem, mas ainda assim podiam se concretizar em percepções agudas. Vivi uma espécie de alegria que o metaleiro que eu havia sido achava frescura, e não demorou inclusive até que o misticismo dos colegas (não da doutrina) me invadisse e me fizesse aderir a pensamentos mágicos que nunca foram meu prato predileto. Já quanto à religião em si, no seu sincretismo entre xamanismo e cristianismo, se no início eu tendia a ver os conteúdos como simbolismo (Virgem Maria como a Natureza, ou o Espírito Santo como o princípio anímico), chegou o momento em que me entreguei de todo, e via mesmo a tradição judaico-cristã como de fato eleita para o universalismo, e não uma imposição política, patriarcal e violenta, que vem desde o Império Romano, através do colonialismo até hoje. Deu-se então que depois que me mudei de cidade preferi não buscar algum lugar para participar dos trabalhos, mas não deixo de ver as madrugadas bailando com maracá na mão, e sob a égide do caboclo Raimundo Irineu Serra, com muito carinho. Participaria novamente, se puder ter confiança quanto ao ritual, uma vez que minha experiência diz que os mais simples são os mais belos (especialmente as igrejas adeptas da vertente original, chamada Alto Santo, anterior à popularização e à sincretização no Centro-Sul); aqueles organizados pelos Nova Era podiam ser desagradáveis de tão confusos. Quanto a misturar moralismo à receita, também não me agrada, por isso já me abstive de usar na União do Vegetal, que além disso usa música popular no rito. Para além do Daime, cujo princípio ativo é a dimetil-triptamina, também tive outro tanto de experiências com minha amiga dietilamida de ácido lisérgico, e ainda com a senhora psilocibina, presente nos simpáticos fungos Psilocybe cubensis, e foram trabalhos quase tão xamânicos de autodescoberta. Acrescente-se a isso ainda minha condição de bipolar, que me leva a pirações estratoféricas sobre a fábrica da realidade em dias de mania e mais adiante me mergulha no mais profundo materialismo pragmático. Acho que posso definir minha religião como uma inquietude intelectual, em oposição à aceitação acrítica. É um exercício que se justifica em si mesmo, o método é a meta, sempre em movimento. Panta rhei, ou seja, tudo flui, disse Heráclito. Não há alma individual, a alma é cósmica, e a vida após a morte é a vida que segue no planeta (que nosso egoísmo de imagens de Deus está comprometendo). Acaba não, mundo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s