Fogos de Artifício 4

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O céu começava a escurecer. Como de costume, durante a virada de ano estava em vigor o horário de verão, e o solstício tendo sido há poucos dias, isso significava que havia luz do sol até depois de sete horas, e o relógio dizia mesmo sete e quinze. “A gente tem que voltar”, disse Igor levantando-se, “você tá bem?”. A resposta de Ramon foi deitar sobre o mato: “espera só um pouco”. A onda estava se dissipando, um achava que era melhor voltar para não deixar a família preocupada, e o outro topou ir, meio a contragosto. Mas havia mais um beque pronto, e fazia sentido gastar mais um tempo por ali admirando as aranhas. Conversaram sobre Tássia, e Igor não se decidia se contava de quando quis ficar com ela na pré-adolescência, achou melhor não. Conversaram sobre o irmão dela, que não pôde ir ao encontro de família, e Igor acabou fazendo um inventário de todos os primos para passar o tempo. Bem, era hora de partir. Mas havia uma garrafa plástica com um tanto de chá que havia sobrado. Sem pensar muito, Igor tomou uma metade e passou a outra ao parceiro. A panela e o que restou das frutas foi recolhido, e ao carro rumaram os dois, sendo recebidos novamente pelo Mestre Jonas. Tomaram a estrada no sentido de volta, e Igor quis se certificar de que Ramon estava bem para dirigir, mesmo que a resposta não fosse muito convincente. Comendo uma maçã, ele observava os movimentos do carro em cada curva, e ia ficando mais tranquilo. De repente viram fogos de artifício no céu, enquanto cruzavam a ponte que delimitava os estados. Bem à frente, Igor se deu conta de que só podiam estar errados. Estavam na estrada, já longe de qualquer povoamento, enquanto a cidade em que ficava o rancho era obviamente logo após a ponte. “Não tá errado?”; foi preciso fazer o retorno em plena rodovia, e a segunda dose já começava a fazer efeito, sendo que Igor só torcia pelo melhor; rezaria se religioso fosse. Acharam a entrada da cidade, comentando como a onda estava batendo forte. Ramon tentava achar o caminho para o rancho, mas não conseguia, e os dois zanzavam pela pequena cidade. Passaram por um carro de polícia, trancados de medo, e acharam que era melhor estacionar. Desceram em plena praça sem saber muito o que fazer. Como perguntar pelo rancho, sem endereço ou qualquer referência? Bem, havia um grupo de parentes que estavam alojados em um hotel da cidade. “Palace Hotel”, “Como?”, “Palace Hotel, a gente pergunta pelo hotel e pede ajuda a alguém”. Deram de frente com duas mulheres, uma idosa e a outra jovem: “Por favor”. Igor fez o melhor para formular a pergunta, mas quando a senhora começou a responder, sua cabeça entrou num turbilhão psicodélico de imagens cambiantes, e ao fim de sua fala nenhum dos dois certamente já se lembrava do começo, então o melhor foi agradecer e fingir que havia sido de ajuda. Foi Ramon quem reconheceu primeiro: “A gente não devia ter tomado o restinho”. Havia um bar por perto, e ocorreu a Igor, até porque não tinha outro plano de ação em vista, sentar e comer alguma coisa: “Talvez comer vai fazer passar a onda”. Pediram uma cerveja, Ramon não quis comer, mas o outro caiu com volúpia sobre um quibe, na esperança de que acionar o estômago ia aliviar a viagem que ia lá no alto. Obviamente não ajudou muito, e os dois seguiam perdidos. Então andaram à pé na rua que beirava o rio até que Ramon viu a entrada que havia perdido, e voltaram ao carro entusiasmados. De fato, era ali que era preciso virar, mas ficava meio escondido à noite, mesmo. Eles preferiram desligar o som nesta etapa, e bastaram uns dois minutos para atingir a meta, tão dificultosa quanto parecia. Ramon foi diretamente atrás de sua namorada, mas Igor teve de se entender com os pais, que andavam preocupadíssimos: sua mãe estava em lágrimas. Ele se olhou no espelho e as pupilas estavam quase do tamanho das íris. Passava de dez horas e faltava pouco para a contagem regressiva para mais um ano.

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