Fogos de Artifício 3

 

Psilocybe_cubensis3

Cada um se sentou em uma pedra perto da água e fumaram quase em silêncio. O sol começava a descer sobre o morro do outro lado da estrada, mas o calor ainda era intenso. “E aí, bateu?”, “Nervoso”. “Rrrrrr”, “Vamo andar”. Havia uma trilha, mal marcada, em meio ao mato baixo, de uma terra pedregosa, que levava para baixo, certamente até o poço da terceira ponte, ali perto. Ramon queria andar, então Igor o seguiu, e os dois sentiam as pedras sob os pés conforme desciam. Era possível ouvir vozes, de criança, inclusive, e conforme descia Igor se sentia cada vez menos à vontade. Para ele era má ideia ver mais gente. Ramon estava expansivo: “Tá boa a água?”. Foi quando Igor viu a filha adolescente da família, deitada sobre uma pedra de biquíni. Era uma jovem linda e parecia cada vez mais interessada no intruso, que puxava conversa naturalmente, enquanto o pai já se mostrava incomodado. Igor, que se deteve um pouco atrás, pedia que voltassem, mas era ignorado. Até que o pai da moça chamou a esposa, que teve que deixar o banho para escutá-lo e, depois de uma breve discussão, forçar a moça a se vestir com uma desculpa esfarrapada. Para Ramon tudo estava tranquilo, e ele retomou o caminho de volta rindo. “Se esse cara tem uma arma, a gente tava fodido”; “Cara, que morena”; “Mas você tem uma morena linda te esperando!”, e assim subiram de volta até onde estavam pela trilha. Surgiu a ideia de tocar violão, e Ramon sacou-o do estojo, enquanto Igor improvisou uma percussão com as castanhas de uma árvore ali por perto, e os dois percorreram alguns clássicos do rock, de Led Zeppelin a Raul Seixas, inevitavelmente chegando ao Mestre Jonas, “dentro da baleia…”, que Ramon aprendia a tocar, num ponto alto da tarde psilocibística. Ramon pôs o instrumento de lado, nem conseguiu de fato guardá-lo, e se deitou sobre o chão, tentando dizer algo que não ficou claro. Igor fez o mesmo e ficou observando o progresso das nuvens conta um céu que já escurecia, viajando. Foi quando o alarme do carro disparou. Havia um mato alto entre os dois e o carro, e não era possível ver se era só um falso alarme, e no fim aquele barulho ia ficar incomodando. Então Ramon pediu a Igor que fosse desligar o alarme, porque parecia que a onda estava forte para ele naquele momento, e ele precisava entrar numa onda introspectiva. Igor percorreu os tantos passos até onde estava o carro com o controle na mão, e a cabeça por toda parte, seja na paisagem em redor, seja nas coisas da vida, e não detectou perigo nenhum ao se aproximar do automóvel. Abriu a porta do passageiro, só para conferir se todas as janelas estavam fechadas, e deparou-se com a sacola de frutas. Fechou o carro novamente e voltou vasculhando o saco e tentando escolher a fruta que comeria. Escolheu uma mexerica, e à medida que ia jogando a casca de lado, ia enfiando a cara nos gomos suculentos, de modo que quando encontrou o companheiro já precisava lavar o rosto na água, antes de oferecer as frutas ao companheiro. Ramon tomou uma maçã e os dois se sentaram, à beira d’água, conversando. E não tardou para que Igor observasse: “Olha aquelas aranhas ali, como elas formam uma teia coletiva”. De fato, entre duas árvores, as aranhas haviam tecido uma teia em que uma meia dúzia delas se dispunham em um desenho impressionante, contra o sol poente; às vezes umas delas saía de seu posto para comer um inseto e voltava. Os dois só admiravam o espetáculo, até que a Igor ocorreu olhar o relógio.

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