Fogos de Artifício 2

gravetos

Entraram no carro de Ramon e o rádio começou a tocar uma música animada. Era um rock psicodélico com órgão Hammond, num andamento rápido. Igor não conhecia: “O que é?”. Era o Mestre Jonas do Sá, Rodrix e Guarabira, que automaticamente virou o hino da viagem. “Eu conheço um lugar legal onde ninguém vai”, disse o passageiro, e o motorista rumou até lá sob suas indicações, parando apenas para comprar água, cigarro, isqueiro, e ainda algumas frutas para mais tarde. O rancho onde a família se reunia estava à margem da represa que separava dois estados. O local escolhido ficava do outro lado da divisa, um pouco afastado de um poço de banho bem popular, perto da rodovia. Pararam o carro e se estabeleceram à beira dum pequeno curso d’água. Era uma tarde muito limpa, e o calor não era tanto. A primeira missão era fazer um beque, ou na verdade vários, porque a coordenação motora ia faltar no percurso. Conversavam sobre trips anteriores enquanto trabalhavam, e fecharam assim quatro finos. Era a hora de buscar gravetos, e os havia por toda parte. Combustível providenciado, Ramon achou umas pedras, que dispostas em duas pilhas funcionaram como fogão. “Eu conheço uma técnica de preparar que deixa o chá preto de tão forte”, anunciava Ramon enquanto os gravetos crepitavam e os cogumelos soltavam sua substância escura. Consistia em pôr apenas um pouco de água de cada vez, repetindo pacientemente o processo. Parecia funcionar, porque obtiveram chá em grande quantidade e alta concentração. Tão logo tivesse esfriado, tomaram cada um meio copo plástico, que não era o recipiente ideal, mas foi o que se pôde providenciar na venda. Sobrou ainda um bocado, que deixaram de lado numa garrafinha. “Dentro da baleia a vida é tão mais fácil…”  Àquela altura já estavam descalços e fumaram andando pela água e comentando sobre a vegetação, que ainda não tinha um brilho sobrenatural, mas estava viçosa. Ramon disse que ia ao carro buscar o violão, e Igor ficou deitado sobre o cascalho ouvindo o leve ruído da água correndo e pensando em coisas da vida. Uma viagem de cogu era sempre uma oportunidade de amarrar as pontas soltas e acomodar melhor os conteúdos psíquicos acumulados. Ele recapitulava os relacionamentos que teve ou gostaria de ter tido, refletia sobre opções que tinha feito ou deveria ter feito ou gostaria de ter feito. Resolveu levantar e voltar para a base, lá encontrando Ramon de volta com o instrumento. Os dois se sentaram e três músicas depois já estavam se sentindo febris, com uma percepção alterada do corpo e do espaço. Em meio a risadinhas, o violão voltou pro estojo e eles decretaram que era a hora do segundo baseado, aquele que daria um impulso definitivo à loucura cogumélica que estava começando a se instaurar.

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