Quarto Olho 4

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Ruana saboreou o café e celebrou mentalmente o primeiro sucesso. Mesmo não podendo ver o palco dali, dava pra entender que a banda o estava deixando em definitivo. A última música foi um clássico do século XX, alguma coisa Valença o compositor. A ambiciosa morena nem ligava tanto de perder uma parte importante da apresentação, pois a RV seria lançada em breve. E ela mesma estaria na experiência virtual de um monte de gente. A invasora sabia de antemão de onde os músicos sairiam do palco e por onde entrariam nos camarins, e ela não teria como deixar de vê-los. Aproximou a carteira do chip para pagar o café e entrou no banheiro ao lado. Enquanto o público usava repugnantes banheiros químicos, aquele da produção era não só limpo como luxuoso, e essa era a expectativa de Ruana: encontrou um par de toalhas limpas, aplicou na barriga a segunda dose de neuromax, e voltou ao pátio no exato momento em que Carla Z e Déa Dia desciam a pequena escada que as trazia para um merecido descanso, ou muitos excessos segundo diziam as histórias, após duas horas de boa música. A jovem heroína aproximou-se, oferecendo as toalhas. Seu nervosismo era enorme, mas não transparecia, o neuromax fazia cada passo dela o movimento dum mecanismo bem ajustado. Déa estendeu a mão e pegou uma toalha, então Carla pareceu constrangida a fazer o mesmo. Este era o grande momento da breve vida de Ruana, e ela precisava conduzir tudo com calma até seu objetivo.

Parabéns pelo show, foi fantástico, arriscou. As duas agradeceram sem se deter. Ela seguia à distância enquanto as musicistas se encaminhavam para os camarins. Neste momento, Toni, Lelo e Grudi estavam descendo do palco e na outra direção Ruana viu o que temia: pareciam procurá-la. Num movimento ágil, ela se antepôs a Carla e Déa, e abriu a portinhola do espaço reservado à banda para que o casal entrasse. As duas ficaram entre achar aquilo excessivo e atribuir o entusiasmo à juventude da admiradora. No entanto, o crachá que ela se esforçava em manter virado estava na posição correta, e Déa percebeu. Este crachá é de um homem! Calma, eu explico, e nisso quase empurrou as artistas para dentro e fechou a portinhola atrás de si ao entrar ela também. Eu sou super fã de vocês, eu dei um jeito de chegar aqui porque eu quero ser roadie. Eu trabalho sério. Eu toco bateria. Um dia eu vou ter minha banda. Mas agora eu quero trabalhar com vocês. Viajar com vocês. Vocês precisam me dar uma chance.

Aquele ambiente não sendo monitorado por câmeras, a aventura de Ruana podia prosseguir, sob a proteção, ao menos provisória, das líderes da Quarto Olho. Carla pediu calma: senta aí, e Déa tirou um baseado pronto  duma caixinha e acendeu. Nós já temos todo o pessoal arranjado, você sabe. Uma baforada de fumaça seguiu a frase de Déa. Mas vamos conversar, atalhou Carla, você tem um bocado de ousadia. Se você for uma pessoa legal, quem sabe, completou Déa, oferecendo o baseado a Ruana. Foi quando entraram pela portinhola os integrantes masculinos da banda, que trocaram abraços com as duas e deram também uns tapas. Ruana foi apresentada e já se sentia vitoriosa em sua empreitada, à medida que a bebida chegava e o camarim se transformava numa festa. Tomou a liberdade de perguntar a Déa por que mudaram de nome, e se ela já tinha tomado um quartinho no olho. A tecladista confessou que foi o empresário quem decidiu, que gostaria de ser Quartinho até hoje, e que já tomou no olho várias vezes. A conversa caminhou de tal forma que Déa abriu uma bolsinha que produziu no fim um quartinho para quem quisesse pôr no olho, o que nem todos toparam, mas Ruana fez com convicção, sentindo o pedaço de papel arranhando a superfície da conjuntiva com um sorriso no rosto. Depois de um tempo, via a coluna de mármore vibrar, o verde da planta falsa cintilar, e sentiu vontade de abraçar cada um dos músicos. Carla fez um brinde à nova integrante do staff, e ali se completava a missão bem sucedida da jovem.

De repente entra pela portinhola uma senhora negra, numa blusa de tricô, e numa saia longa, figura improvável para estar ali, nos bastidores de um show de rock. Ela mudou a bolsa vermelha de um ombro para o outro e rumou direto aonde se achava Ruana, a quem segurou pela altura dos cotovelos, quase a erguendo do chão. Ruana, você tem o vestibular hoje, Ruana. Filha, larga esse RV, filha. Hoje é o vestibular. Todos os componentes da Quarto Olho começaram a evanescer e por fim sumiram. O ambiente se tornou um branco completo, em que Ruana se achava sozinha. Retirada a máscara viso-auditiva, a jovem se encontrava em seu quarto um tanto bagunçado, com um livro de química sobre a bancada e o uniforme da lanchonete pendurado na porta do armário. Sua mãe de fato a exortava a largar a realidade virtual. Naquele dia ela ainda devia fazer o vestibular e cumprir o turno noturno vendendo hambúrgueres. Esperava que Lisa, a menina de quem ela gostava, fosse estar lá ao menos. Antes de sair, pôs os fones nas duas orelhas e manuseou a tela da carteira até achar o álbum de estreia do Quarto Olho. Na próxima volta deles ao Brasil, ela sabia que teria a grana para ver os ídolos.

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