Quarto Olho 3

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Ruana e Lisa dançavam e se beijavam, de volta ao local em que haviam se encontrado. Com o efeito do neuromax em seu ápice, a morena sentia cada nota, cada movimento, cada carícia com mais nitidez e mais intensidade. No palco, Lelo Exu pilotava uma viola caipira, e Toni com seu laptop homenageava os pioneiros do Kraftwerk, enquanto Carla tocava caxixis abraçada a Déa, que comandava uma escaleta, enquanto Grudi dava a fundação com um baixo vertical. Ela sabia que faltava pouco para o fim, então bastou acabar aquela música para ela puxar Lisa pelo braço e rumar para a lateral esquerda do palco. Se ela conseguisse a credencial, e ela conseguiria a credencial, por ali ela poderia chegar ao backstage, e com alguma sorte conseguir conversar com um dos integrantes, e ela teria sorte, de preferência com Carla ou Déa, ela teria muita sorte. E seu desempenho seria o melhor possível com a droga que usara. No entanto, quando passasse o efeito, dores terríveis atacariam, as quais só outra dose poderia adiar. E só um dia inteiro poderia aliviar.

Lá estava o segurança, alto e forte, guardando a entrada da área restrita. Ele se mantinha imóvel, mas era impossível a ele ficar indiferente a duas mulheres bonitas se beijando na sua frente. De combinação prévia, as amigas, ficantes hoje, lançavam olhares ao funcionário. Como ele não arriscava um emprego estável, acabou sorrindo de volta e arriscando uma piscadela. O Quarto Olho nesse momento fazia seu tradicional número em que todos tocam percussão, num grande ponto de macumba, e não demorou até que o enorme negro balançasse seus quadris mais do que o profissionalismo recomendaria. Elas se aproximaram numa dança lasciva e o cercaram, cada uma de um lado. Ruana se aproveitou de estar do lado de trás, tirou rapidamente do bolso um lenço e um vidro de clorofórmio e aplicou com vontade o lenço umedecido ao rosto do gigante, que foi contido em sua reação por Lisa, ninguém em volta ligando nada para o que acontecia. As câmeras, no entanto, filmavam tudo que ocorria no recinto, e tanto estavam ali pela gravação da RV quanto estariam de qualquer forma pelo velho protocolo de segurança, dizem que começou com um evento que chamam de 11 de setembro. É uma data do calendário antigo, do início do milênio. Na prática, isso significa que Ruana podia ser reconhecida e punida em pouco tempo, mas ela era obstinada e sabia que acharia sempre a melhor saída para cada situação. O segurança desabou. Ruana tirou-lhe a credencial e buscou se afastar rapidamente. Lisa começou a pedir socorro; o homem caído, sem a credencial, podia ser muito bem seu namorado, e enquanto o pobre trabalhador não recobrou a consciência, foi essa a farsa que ela sustentou. Quando ele estava cercado de curiosos, ela desapareceu entre o público para não ser mais vista, nem por ele nem por Ruana, talvez não até o próximo turno noturno vendendo hambúrgueres.

Era o momento em que a banda saía do palco para voltar sob uma ovação fervorosa, convenção que não saía de circulação. Ruana buscou uma entrada para a área restrita bem longe da confusão que ela mesma criou. Passou pelo controle com tranquilidade, afinal calça e top pretos era o uniforme das mulheres da equipe, de forma que ela não chamava atenção para si, e ninguém conferiu o crachá. Com o coração acelerado, mas sem demonstrar sinal algum de nervosismo, ela percorria o corredor delimitado por divisórias de zinco com um meio sorriso no rosto. O número final do Quarto Olho era bem roqueiro e animado, no qual uma zabumba fazia a base para uma distorção suja de guitarra, e sintetizadores lançavam suas frases por sobre os slaps do baixo. O público pulava, a iluminação ajudava a induzir a catarse, e dizem até que anfetaminas eram lançadas no ar. Quarto Olho de volta ao Brasil era um acontecimento muito aguardado, e aquela era uma das quatro apresentações no país, um momento histórico que estava se acabando. O encerramento foi uma grande barulheira afro-digital de vanguarda, e Ruana se deliciava com o momento e com a expectativa ao escutar a despedida dos músicos enquanto se aproximava do quartel general da produção. Havia um café e algumas mesinhas, pediu um espresso e sentou-se a observar tudo acontecer ao redor.

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