Quarto Olho 2

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Ruana olhou em volta, e o ginásio lotado vibrava. Cada detalhe, desde a estrutura de concreto e aço até o menor adereço de cada espectador, saltava-lhe aos olhos com nitidez maior. Saiu do estupor e deu um selinho em Lisa, que olhava o telefone todo o tempo. O rapaz andrógino, que balançava o corpo sem muita convicção, se ofereceu para pagar uma cerveja, e os três foram abrindo caminho entre o público enquanto no palco um berimbau conversava com uma guitarra em wah-wah numa passagem instrumental.

Já perto do lado oposto ao palco, onde se podia transitar sem embaraço, Lisa apresentou Rogério à amiga e se apressou em informá-lo: “Ela vai tentar entrar no backstage”. Ele fez uma cara zombeteira e Ruana foi seca e taxativa, implicitamente o repreendendo: “Eu vou trabalhar com eles.” E Lisa quis desfazer a tensão partido para o escracho: “Aposto que você comia qualquer um da banda”. Ruana riu, desarmando-se, “Comia mesmo”. Já estavam na fila das máquinas de cerveja, Rogério olhava mensagens no telefone e Lisa mergulhava a cabeça no belo colo de Ruana, que lhe fazia cafuné. “Você vai ver, Lisa, eu vou viajar o mundo com eles, depois eu vou ter minha própria banda para viajar o mundo”, profetizava a jovem sonhadora. “Olha só, Cafuné!”, observou ela; tratava-se do nome da música, um tema lírico em que Déa se destacava com os sintetizadores acompanhada apenas de paus-de-chuva. As duas nunca haviam se beijado antes, mas aquilo parecia fadado a acontecer. Aquela parecia a ocasião perfeita.

Rogério conseguiu as cervejas e os três brindaram. Aproximaram-se o mais que puderam do palco sem falar palavra e pararam num lugar que permitia dançar. A música agora era uma espécie de salsa eletrônica, cantada pela Z, como era chamada pelos fãs. A iluminação lançava feixes de luz sobre os músicos, e quando eles atingiam a névoa de fumaça de glicerina padrões de cores cambiantes se formavam. Ruana sentia de forma intensificada cada movimento de seu corpo, enquanto requebrava o quadril com os joelhos ligeiramente dobrados e sacudia os braços seguindo o ritmo. Em sua cabeça, ficava antecipando as dificuldades que encontraria em sua missão: o plano fora traçado, mas em cada etapa tantas coisas poderiam dar errado que uma dose de neuromax era plenamente justificada, mesmo sabendo que o dia seguinte seria terrível. De repente, um robô-câmera passou por onde eles estavam dançando, ou ao menos ela estava, enquanto os outros dois já haviam voltado aos telefones. Por alguns minutos, computadores no mundo inteiro exibiram a imagem de Ruana sacolejando, o que já era de certa forma a volta ao mundo com que ela sonhava.

Rogério já conhecera um rapaz e eles se beijavam, então as duas amigas resolveram se afastar da multidão e fumar um. Para isso, escolheram uma mureta perto de uma das saídas, onde se sentaram e trocaram beijos e carícias antes de preparar o baseado. Era uma ganja de genética superior, e as flores estavam cobertas de cristais. Lisa tinha acesso porque seu irmão plantava, e era sobre ele que ela comentava. “Ele disse que foi ao show deles quando ainda se chamavam Terceiro Olho”. “Não fala besteira, eles nunca se chamaram Terceiro Olho”. Lisa olhou surpresa enquanto acendia o beque. “No começo eles se chamavam Quartinho no Olho”. “Eu sempre achei que era algo místico.”. “Nada disso. Tem gente que toma ácido pelo olho, por isso Quartinho no Olho”. “E você, já fez?”, interessava-se Lisa “Fiz o que?”. “Pôr ácido no olho!”. “Ah, só uma vez, mas é muito intenso, não recomendo para iniciantes”. “Mas eu não sou iniciante, eu já tomei na língua”. A música no momento era apropriada à conversa, enfatizando o lado psicodélico do grupo, e a guitarra do Exu. “Me dá essa língua aqui”, foi a resposta de Ruana. Lisa se deitou no colo da amiga, que consultou o relógio holográfico: o show terminaria em mais meia hora, e o corre dela começaria.

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