Quarto Olho 1

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O show de rock de uma banda consagrada estava sendo gravado para lançamento em RV, então mil câmeras e sensores haviam sido espalhados pelo ginásio. Não que isso fosse muito diverso da vida nas ruas naquele fim de século. Mas ali, além de toda parafernália instalada no recinto para registrar o evento, também os frequentadores precisavam usar dispositivos magnéticos na cabeça, nas duas mãos e nos dois pés. Dessa forma, todos os usuários da RV do show, em qualquer parte do mundo, e bem depois do fim da banda e da morte de seus integrantes, poderiam com a ajuda da máscara viso-auditiva e dos sensores corporais vivenciar a experiência tal qual ela aconteceu . Mais do que isso, o RV-espectador podia também interagir com os presentes, convidar amigos on-line ou salvos em ROM, pedir músicas, e até mesmo, para quem saiba usar códigos piratas, deixar toda a plateia nua, ou a banda, ou usar todas as drogas que existem e outras que nunca existiram.

Os cinco integrantes da banda Quarto Olho, duas mulheres e três homens, estavam no auge da fama, e vinham sendo comparados aos lendários Mutantes por serem reconhecidos nas fontes históricas do rock, dos dois lados do Atlântico Norte, e receber elogios de gente grande no meio. Sua música era um misto de pós-psicodélico com afro-latinidades, um grande caldeirão em que se expressavam bons instrumentistas em contagiantes composições. Carla Z  era percussionista, ela e sua esposa tecladista Déa Dia eram as líderes, ainda que todos os membros compusessem, como o guitarrista Lelo Exu e o baixista Grudi, ou Toni Terra, o piloto dos efeitos digitais, sendo que os três também dobravam na percussão. O visual deles refletia as influências ecléticas e incluía de dread locks a saltos agulha, de tie-dye a turbantes, de meias-arrastão a camisas de flanela, de trajes de malandro a batas africanas. No fundo do palco havia um painel multicolorido em que se misturavam elementos como capoeiristas e naves espaciais.

A banda entrou no palco, levando a plateia a gritar como louca. No meio a ela, espremida num oceano de corpos, estava Ruana. A jovem, de calça e top tão pretos quanto os cabelos amarrados, com a barriga de pele escura cravada de um piercing, tinha combinado de encontrar uma amiga lá, mas não tinha tido resposta às mensagens. Sua expectativa era enorme, a banda pouco vinha ao Brasil agora, e o dinheiro do ingresso foi duro de ganhar, como intermitente na lanchonete fast-food. Ela estava terminando seus estudos, ou antes não teria condição de prossegui-los no caríssimo ensino superior, e dado o leque de ocupações precárias que a esperava, decidiu que trabalharia como rodie para o Quarto Olho. Naquele dia ela ia tentar entrar nos bastidores, de qualquer maneira, para lutar por isso.

Um acorde seco e distorcido da guitarra de Lelo inaugurou a apresentação acompanhado das congas de Carla Z, com Grudi e Toni tocando caxixi e ganzá. A introdução parecia ser improvisada, e terminou numa nota de suspense, na qual se ouvia o alarido do público, para desabar numa levada forte e sincopada. Ruana sentiu a vibração do telefone, era uma mensagem de Lisa. Déa começou a cantar uma antiga canção de pescadores, Carla tocava cajón, e Toni mandava no abê. Lisa dizia que estava perto do house mix, e para lá foi Ruana, mesmo lamentando que ao deixar a beira do palco não mais conseguiria voltar. Foi preciso abrir caminho pela multidão densa até chegar à torre da qual se controlava o som e, após procurar pouco, Ruana encontrou a colega da lanchonete com cabelos azuis, que trocava beijos lascivos com um rapaz andrógino.

Lisa sentiu um puxão pela jaqueta e nem poderia dizer se veio antes o abraço ou a pergunta: “E aí, trouxe?” Puxou dois tubos plásticos do bolso interno e os exibiu na mão direita, enquanto as duas iniciaram uma espécie de dança ritual, o que só era possível porque ali a turba já rareava. Cada tubo preto, similares às canetas esferográficas que se viam nos museus, tinha um botão vermelho de um lado e um estreitamento seguido de uma pequena abertura do outro, cotinha uma agulha ejetável com uma dose de neuromax. Esse era o nome popular da droga que ampliava a atenção e intensificava todas as capacidades cognitivas durantes suas duas a três horas de efeito. Perfeito para uma missão como a de Ruana. Ela se aplicou na lateral da lateral da barriga, e recolheu a agulha pelo mesmo mecanismo antes de descartar o tubo na lixeira. O segundo tubo ela guardou no bolso para um reforço mais tarde, caso fosse necessário.

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