Bom Ano Novo

cubensis

Reuniões de família costumam ser chatas. Mas daquela vez uma prima apareceu com um namorado gente boa, a gente conversou sobre música e não tardou a surgir a ideia de fumar um. Então fomos nós até o pasto batendo papo e elegemos uma árvore para ser nossa base. Mas na hora de acender, quem tinha fogo? Que imprevidência. Teríamos que caminhar até a casa e de volta, mas um incidente mudou tudo. Vimos um cogumelo bem no nosso caminho. Ele não estava vistoso, devia ser de ontem ou até de antes, mas era inconfundível com sua campana amarela e topo amarronzado. O acordo tácito já estava firmado, e a decisão de procurar mais foi verbalizada por mera formalidade.

Era véspera de ano novo, período chuvoso do ano, por isso temporada de cogumelos, mas aquele era um dia de sol, quente mas não demasiado, então foi um prazer percorrer o pasto buscando os fungos mágicos, que não se fizeram se difíceis. Eu achei três na mesma bosta de vaca, com um grande sorriso no rosto. A colheita foi abrigada em minha camiseta e começamos a caminhada de volta. Conversávamos sobre como preparar o chá, o que devia ser feito às escondidas obviamente. A melhor solução era pedir uma panela emprestada ao caseiro e, isso era o mais bacana, fazer um fogo de gravetos.

Despedimo-nos dando qualquer desculpa, e saímos lá pelas três da tarde rumo à psicodelia. Ele estava de carro, e fomos aonde sabíamos haver um lugar tranquilo à beira de um riacho. A região era de transição entre mata atlântica e cerrado, uma espécie de cerrado mais verde e mais denso, bonito naquela época, então estava cumprido um requisito básico de uma boa viagem: um lugar agradável, “locus amoenus” se quiser. A primeira tarefa era obviamente achar gravetos, o que fizemos terminando de fumar o baseado que vinha aceso no carro, aquele que não teve como ser aceso no pasto mas começou toda a história. Quando já era suficiente, voltamos ao riacho e catamos umas pedras, que protegeriam o fogo e sustentariam a panela. Em pouco tempo o fogão estava pronto, e o papel higiênico que levamos com este fim ajudou a fazer o fogo pegar. Esfregávamos as mãos de ansiedade, trocamos um cumprimento e passamos a preparar mais um ou dois baseados enquanto a coordenação ajudava. Ele disse que tinha uma técnica para que o chá rendesse mais, e eu acompanhava. Consistia de por só um pouco de água de cada vez e repetir o processo até que não saísse nada. No fim, tínhamos de fato uma boa quantidade de chá de cogumelo na concentração máxima.

Então lá pelas quatro horas a gente tomou. O sabor era quase agradável, não provocou nenhuma náusea. Eu tomei o bastante, ele tomou o bastante e sobrou mais um tanto, que pusemos numa garrafa de água mineral. Dali adiante a gente passou a passear em volta, pelo riacho, pela vegetação, trocando ideia e esperando os primeiros sinais da onda, quando acenderíamos um dos três beques que haviam sido preparados. Eis que lá vem a sensação febril, a percepção alterada do corpo, a impressão de que vai derreter, é a onda com tudo. Acendemos e ficamos sentados com os pés na água, trocando risadinhas bobas. Bem nessa hora ele encanou que alguém estava mexendo no carro. Puta onda errada, fomos até lá e não havia ninguém. Mas a gente se lembrou das mexericas, que tinham ficado no carro, e voltamos com elas. A intensidade estava aumentando, eu sentia frio, o que não fazia sentido, mas mesmo assim a viagem era ótima, e eu olhava a paisagem em volta com espécies vegetais que eu nunca achara tão interessantes banhadas por uma luz cristalina enquanto massas brancas passeavam no céu de verão. Ele me tira do meu estupor com a ponta acesa, eu nem preciso de maconha no momento, mas fumo. É aí que me lembro das mexericas. Elas são difíceis de descascar, mas só o aroma já entrava na onda como uma informação sensorial amplificada, portas da percepção e tudo. Palavras não chegariam perto da explosão de sabor que foi por na boca um gomo, seu suco se espalhava por toda a língua e até as gengivas tinham papilas gustativas naquele momento mágico. O doce, o azedo, o doce azedo, tanto me entusiasmavam que acabei me lambuzando todo de mexerica. Limpei o rosto com água do riacho, e passei a construir uma barragem de pedras para passar o tempo, enquanto a cabeça ia a mil sobre os acontecimentos da vida, mas numa perspectiva não de crise e questionamento, mas de aceitação e totalidade.

De repente o sol estava descendo. De alaranjado a vermelho a ocre ia o céu no ocidente. Nós dois sentados, observávamos tanto o espetáculo do sol poente quanto o espetáculo das aranhas tecendo sua teia. Aquela espécie tecia teias coletivas, entre duas árvores, cada uma assumia seu posto e inseto que não ficasse esperto caía na teia. Elas iam lá, comiam e voltavam a seu posto. O que decidia de quem era o inseto é um mistério, mas admirar a atividade dos aracnídeos nos absorveu por vários minutos e já escurecia quando decidimos ir embora. Sendo verão, com horário de verão, devia ser perto de oito horas já. Que fazemos com este resto? Bebemos, é claro. E entramos no automóvel para voltar ao rancho onde ocorria a reunião de família.

Bem, o rancho era passando a ponte, e a divisa de estados, mas o que eu me lembro é de atravessar a ponte vendo os fogos de artifícios. Eu sabia que não era meia noite, mas no que prestamos atenção, de repente estávamos dirigindo na estrada em direção ao próximo município, e isso não podia ser. Chegamos à conclusão de estávamos errados, e ele fez o retorno na rodovia louco de cogu. Porque a onda agora estava no auge, e tomar o resto foi certamente má ideia, mas não dava pra desfazer. Entramos na cidade, mas sabemos o caminho do rancho? E mais, deveríamos aparecer assim lá? Não sabíamos o caminho, mas queríamos chegar, e depois de rodar infrutiferamente paramos. Decidi comer, achei que ajudava a passar, um quibe, uma coxinha, essas coisas, tomei cerveja, e a viagem forte, pegando. Eu me lembrei que alguns dos convidados estavam hospedados na cidade, então esse era o melhor palpite. Saímos perguntando pela rua onde ficava o Palace Hotel.

Eu abordei a tia. Palace Hotel. Antes que ela terminasse de falar eu já esquecera o início porque todo seu discurso entrou num turbilhão de ideias e visões e eu não entendi nada do que ela disse. Pensando bem, talvez seja melhor. Mas temos que voltar, já devem ser umas dez e todos estão preocupados. Entramos no carro, dessa vez o erro pareceu óbvio, em em minutos estávamos no rancho, eu me fazendo de sonso dizendo quem nem sentira o tempo passar ou algo parecido. Fui ao banheiro e me olhei no espelho: minhas pupilas estavam maiores que a íris. Minha mãe chorosa pedia que eu nunca mais fizesse aquilo. Tomar a segunda dose foi insensato, mas foi uma boa viagem de cogumelo. E um bom ano novo, eu acho.

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