Mais Uma Copa

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A ideia foi contestada por muito tempo, mas chegou o dia em que anunciaram oficialmente que a Copa do Mundo de 2118 seria disputada em Marte. Há muito já se praticava o que outrora costumavam chamar esporte bretão no planeta vermelho, e quem já havia tido a experiência garantia que a gravidade artificial era só uma questão de costume, como a grama sintética. Uma expansão da rede hoteleira na colônia terráquea foi necessária, decerto, e as companhias aeroespaciais nunca faturaram tanto.

A delegação do Brasil do Norte partiu de Alcântara, dois meses antes do torneio, para aclimatação, e esperançosa com o dodecacampeonato. Obviamente os brasileiros do sul contestavam essa conta, pois seis desses títulos foram conquistados antes da secessão. Na mesma nave voava ainda a delegação da Nação Andina, indicada como forte candidata ao primeiro título após a unificação, agarrando-se ainda que estava aos títulos conquistados por Argentina, Uruguai e Colômbia. Os Estados Unidos nunca tiveram tradição no esporte, tampouco o Canadá, quando ainda era independente, mas como era a dinastia Musk quem estava financiando em grande parte a aventura, a seleção da América participava como uma espécie de anfitriã, e partiu do Cabo Canaveral pela mesma época. A China, que se tornara uma potência também no futebol e já tinha dois títulos, levava em seus foguetes as seleções do Magreb e da África Ocidental. Em Samara os propulsores lançaram ao espaço as delegações de Eslávia e Europa, apesar das tensões diplomáticas entre os dois países. Assim seria a copa marciana, com oito equipes jogando entre si em dois grupos, seguindo a fase de mata-mata começando já nas semi-finais.

A abertura foi entre Brasil do Norte e Eslávia e o estádio estava lotado com dez mil pessoas, sendo ao menos um terço composto pelos brasileiros mais endinheirados, como sempre. Na Terra, protestava-se contra os gastos no evento, ainda mais com a deterioração das condições de vida que trouxera a exploração de petróleo na Amazônia, mas o espetáculo continua e o Brasil do Norte marca após cobrança de escanteio, aos vinte minutos. As televisões mostravam o jogador flutuando apenas um pouco a mais do que flutuaria na terra, em várias repetições. O primeiro gol da copa de Marte era do Brasil do Norte. No Brasil do Sul o sentimento era de despeito, ainda mais por nunca terem vencido após a separação. As jogadas de contra-ataque pareciam correr em câmera lenta, e numa delas a Eslávia empatou no fim do primeiro tempo. No Brasil do Norte se bebia cerveja de laboratório, e a publicidade promovia uma gama de produtos. Com mais dois gols no segundo tempo, um de falta e outro, bonito, tabelado, o Brasil do Norte garantiu uma boa estreia.

No segundo jogo, o Brasil do Norte meteu uma goleada na África Ocidental, tinha o artilheiro da competição, e começou a entusiasmar até alguns brasileiros do sul, que se rendiam à tradicional amarelinha. Chegou a vez da China, que estava atravessada desde que nos venceu uma final, e era ainda o país mais poderoso do mundo, que todos querem derrotar. Eles saíram na frente e o estádio veio abaixo, mas o Brasil do Norte lutou, e numa invertida linda o lateral mandou a bola certeira para o centro-avante arrematar de voleio. No início do segundo tempo, pênalti para o Brasil, fora do lance, muita reclamação, convertido. No fim da partida a China num contra-ataque rápido voltou a empatar, e assim terminou a partida. Era uma bela classificação para a segunda fase em primeiro do grupo, e o adversário na semi-final seria a vizinha Nação Andina, que também teve uma boa campanha, ficando atrás da Europa apenas nos critérios de desempate.

Um país inteiro parou, ou antes dois, no dia da partida, como se estivessem em outro planeta. E de fato estavam, transportados nos foguetes da esperança até a estrutura de aço onde se disputavam as partidas com atmosfera e gravidade artificial. A zaga da Nação Andina resistiu ao ataque brasileiro até o fim do primeiro tempo, bate-rebate confuso e lá aparece o volante para conferir para a rede. O time do Brasil do Norte foi surpreendido no começo do segundo com dois gols rápidos, de escanteio e de falta. A euforia aqui na Terra passou a apreensão. Depois de muitos minutos de pressão infrutífera, uma bola parada alçada no segundo poste foi cabeceada com precisão pelo alto lateral direito. Estava empatado, e buscando o terceiro quase o time brasileiro toma de contra-ataque. As duas ou três boas chances não foram aproveitadas, e lá vamos nós às cobranças de penalidades (na copa de Marte não haveria prorrogações para preservar os jogadores). O Brasil do Norte perdeu a primeira cobrança, tão alta que teria entrado em órbita, não fosse pelo teto, e o zagueiro fazia gestos para se eximir de culpa e transferi-la às condições artificiais. Mas todas as demais cobranças foram convertidas, enquanto os andinos perderam duas, e o Brasil do Norte se classificou assim para a grande final, na qual enfrentaria a Europa.

Os brasileiros do sul já não escondiam que torciam pelos compatriotas do norte, e mundo afora a camisa amarela, objeto de disputa nos acordos de paz, sempre teve muita simpatia. E em Marte não era diferente. A seleção da Europa, assim como o país, ainda não tinha superado a unificação. Diferentes escolas de diferentes regiões se conflitavam, e era difícil escalar o time sem desagradar às ex-nacionalidades, sendo o mesmo o caso da Nação Andina. Naquela copa, no entanto, o time da Europa surpreendia e estava batendo um bolão, tanto mais porque seu jogo de lançamentos era favorecido pela gravidade ligeiramente menor que a terráquea. Começou o jogo. O Brasil domina a posse de bola e tenta pelos flancos sem sucesso por quinze minutos, e em seguida é a vez de a Europa pressionar. Uma bola mal passada dá um contra-ataque ao Brasil, e o centro-avante fuzila a rede para delírio de milhões de torcedores. A resposta da Europa é fulminante, e dois minutos depois, numa desatenção da zaga, um grandalhão teutônico cabeceia certeiro. O jogo é tenso até o intervalo, e após todos os anúncios dos patrocinadores, recomeça tenso no segundo tempo. De repente o zagueiro brasileiro faz um pênalti completamente desnecessário, e uma multidão fica apreensiva em nosso planeta azul enquanto corre para bater o ex-português que converte com elegância. O Brasil do Norte tem trinta minutos para reverter o placar, e passou a pressionar, obrigar o goleiro a belas defesas, até que empatou, numa antecipação bonita no cruzamento rasteiro. A festa reverberou no estádio, na colônia terráquea e no mundo cá embaixo, mas era ainda um empate, e a Europa reagiu ao gol partindo pro ataque. Foi agora a vez do goleiro brasileiro fazer grandes defesas, levando aparentemente a decisão para a cobrança de penais. Mas o goleiro catalão cometeu um erro na saída de bola, entregando um tremendo presente ao Brasil do Norte, a poucos minutos do encerramento do tempo regulamentar, e estava selado o destino da Copa de Marte. Voltando vitoriosa do planeta vizinho, a seleção conseguiu o feito de reunificar o país. Para a Europa, no entanto, a derrota precipitou sua fragmentação.

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