Aqui Jaz a Piada

joke

Aqui está a lápide. Acredita agora? A piada morreu. As redes sociais mudaram tudo, o humor é produzido aos montes, compartilhado aos milhões de clicks, e tem uma vida efêmera. E, sobretudo, meme não é piada. Anedota, sabe? Lembra? Uma pequena narrativa com um desfecho que libera toda a tensão da expectativa numa explosão de riso, ou punchline em inglês? A gente contava uns pros outros, tinha gente que contava bem e tinha gente que estragava a piada, e toda turma tinha seu piadista oficial. E como era gostoso juntar um grupo de amigos e passar horas simplesmente trocando anedotas, esforçando-se para lembrar uma boa. E fazíamos  gestos, entonações engraçadas, imitações… olhávamos uns pros outros, o piadista tinha o prazer de ver o prazer que produziu; qual é a graça de um meme bidimensional com mil curtidas perto disso, me diz? A neurociência deve ser capaz de provar isso facilmente.

É claro que a piada sempre teve um lado mau, e um novo quadro de percepções tem toda razão ao rejeitar boa parte das piadas que contávamos, como se não fossem nada de mais, quando na verdade eram ofensivas às mulheres, a minoras ou nacionalidades inteiras. Mas isso não pode explicar o sumiço das inofensivas; aquelas piadas que se baseavam numa lógica absurda, aquelas que eram puro nonsense, aquelas piadas que exploravam um jogo de palavras, aquelas piadas sexuais bobas que foram a educação sexual de tanta gente, aquelas piadas que fazem graça da presunção do homem da cidade e celebram o matuto, ou qualquer inferior social que vai à forra, eram de todo tipo.

A piada era um verdadeiro cimento social. O leitor vai dizer que isso segue ocorrendo na internet, o que é e não é verdade; mas a velocidade da circulação hoje é espantosa, e essa velocidade dificilmente permite permanência a qualquer coisa, e isso nem é exclusivo da piada. Mas talvez o caso em questão seja bem ilustrativo de que, com todas a possibilidades que a comunicação cibernética trouxe, vale a pena parar e perceber se as formas de socialização não estão se esgarçando rumo ao estado em que somos apenas nós de uma matriz na virtualidade, e nossos corpos meros escravos dessa outra existência.

Esta não tem sido uma crônica muito engraçada, sendo uma crônica sobre piadas, então vou tentar finalizar dizendo que nem tudo está perdido. Recentemente estive em um sítio, e lá estava uma pequena revista com piadas. Abri a esmo, li a primeira, que era algo assim: Dois jacarés conversando. Sabe do Zé? Tá cheio da nota. Ganhou na loteria? Não fizeram uma carteira dele. Gostei da piada, mas eu mesmo nunca cheguei a contá-la depois.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s