Excess to line two

metro

Um cara levantou para descer, eu aproveitei e me sentei. A voz anunciava a baldeação de linhas em inglês, mas a pronúncia transformava “acesso” em “excesso”, e aquilo sempre me incomodou desde a primeira vez que eu me dei conta. Não quis ler porque faltavam poucas estações, e me pus a olhar em volta. Meu assento era de costas para o movimento da composição, com alguém ao meu lado e um assento azul à frente, transversal, a mesma configuração se repetindo à esquerda do corredor, e tudo isso espelhado do outro lado da área das portas. Bem à minha frente, uma mãe com um bebê, eu me demorei observando, a pele branca de ambos, o ar de gerente de loja modesta dela, sapatos talvez, até que o telefone dela tocou. Fazendo malabarismos com a criança e o aparelho, ela parecia dar instruções a uma empregada doméstica, chegando mesmo a se irritar. Imaginava eu a moça desesperada: depende do emprego, quem sabe ela mesma tem um bebê, agora com a avó ou a tia, o namorado lhe pede dinheiro, ela desliga o telefone e vê que o arroz está queimando. À minha esquerda, havia uma adolescente oriental de meia arrastão, suspensórios e chapéu-coco, ela mascava chicletes, ouvia algum pop nos fones, e manuseava também seu telefone, mas comunicando-se pela escrita; eu podia ver a tela, mas não ler o conteúdo. Amiga ou namorado? Namorada ou amigo? Pelas cores distribuídas pela tela, parecia ser uma conversa a três, pelo menos. A melhor amiga e o amigo homossexual estavam certamente no cursinho, para onde ela rumava atrasada, os três gostavam das mil tranqueiras tão inúteis quanto coloridas vendidas na Liberdade, embora uma fosse de extração italiana e outro um típico mestiço brasileiro tentando sua ascensão através de uma bolsa de estudos. Embora minha vizinha estivesse indecisa entre biologia e arquitetura, esperavam-na uma futura advogada e um futuro engenheiro, tudo correndo bem. Do outro lado do trem deixaram o assento azul vago, no banco havia um casal. Era difícil ver muito, mas eram negros, ela com a pele mais clara e cabelo alisado na chapinha, ele de camiseta de torcida e chinelos, e os dois se debruçavam por sua vez sobre um celular. Só podiam estar vendo fotos; fotos da lua de mel? fotos da sobrinha bebê de um deles? fotos de uma partida de futebol? fotos do ensaio da escola de samba? Era uma viagem ao Boqueirão; não era lua de mel pois não eram casados, era aquela viagem memorável do começo do namoro, que não ia muito longe, pois ainda estavam embevecidos. No chalé, tiraram fotos íntimas que devem explicar aquelas risadinhas, na praia ela foi clicada tomando coco sobre a canga e ele deve aparecer mostrando o polegar para fora de um Escort. Dependurado nas barras do trem, na área das portas, havia um rapaz de cabelo longo e roupa preta, lendo um livro eletrônico; que irá pelas páginas que lê? são páginas? uma página é algo concreto ou abstrato? Pouco importa, o rapaz lê Tolkien, terceira vez, e mal pode esperar para jogar RPG no sábado. Nos bancos à minha frente, havia uma turma de gays, três sentados e um em pé no corredor; enquanto um se aninhava no peito do outro, todos prestavam atenção à conversa daquele sentado só, e faziam comentários. Não pude entender do que se tratava, mas faziam farra com um amigo ausente, é certo, e em determinado momento tiraram uma selfie coletiva para enviar. O interlocutor deve ser o namorado do rapaz que concerta toda hora a franja; ele trabalha como modelo viajando, enquanto aqui os quatro trabalham juntos em uma produtora cultural, e pelo menos um é ator amador. Neste momento aquela selfie podia estar sendo vista em Roma ou Tóquio, num quarto de hotel, no banco traseiro de um táxi, transportando uma cena banal do metrô, ainda assim capaz de enternecer alguém com saudades. Já do outro lado, para o qual é quase natural olhar, sem os bons motivos que eu tive, havia duas moças muito bonitas; uma tinha o cabelo cacheado preso numa fita e colo à mostra, a outra era ruiva de óculos e me parecia uma fisionomia vagamente familiar. Ambas tinham a cara metida nos aparelhinhos; a primeira, que parecia essas figuras de movimento estudantil, pelo movimento constante do dedo parecia jogar, e nem eu saberia especular sobre jogos, nem ela deu por mim em momento algum. Já a dos óculos, vestida como se fosse trabalhar no fórum, não só parecia engajada em uma animada conversa que a fazia gargalhar, como percebeu que eu a olhava, e percebeu de novo e de novo. Não é com namorado que ela conversa, embora ela tenha, um namorado que é um babaca completo; ou será que sou eu que desejo isso e o sujeito é todo atencioso? Ou então ela não tem, está rindo com a amiga do ex que ainda a venera; não, muito cruel, é uma risada benfazeja como a prima favorita expondo suas aventuras sexuais em detalhes, ou a mãe narrando a quinta tentativa de obter a carteira de motorista, ou mesmo o irmão detalhando a última bebedeira. Difícil, esta. O trem chegava à minha estação, e minhas imaginações foram interrompidas; eu me levantei e a ruiva se levantou também, e houve um instante congelado, carregado de eletricidade, uma dilatação do tempo que Einstein se esqueceu de explicar, em que eu podia, ou não, agir e puxar assunto; “acho que te conheço” estava fora de questão. Foi ela quem disse que me conhecia, e eu relaxei instantaneamente. Você não foi professor da Lia? Nossa, fui meu mesmo, você… Irmã dela, Laura… Ah, é mesmo, ela tá bem na escola? Mais ou menos, deu uma risadinha. A composição parou e as portas se abriram; o tempo urgia, e no caminho até a escada rolante, roçando nas pessoas que tentavam entrar, eu tentava minha sorte. Me liga de novo, eu estou sem o cartão, mas… ela não pode perder o ano. Ela riu de novo. Ela é professora hoje. Tanto tempo? Tanto tempo. Professora, que bonito. Me dá seu telefone, mesmo assim.

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