Pátria de Lixeiras

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Eu havia comprado uns discos, e sentei em algum lugar para tomar um café, ler um pouco. O café dava para uma praça grande, mas estava ainda assim perto da avenida, onde havia um recesso com duas caçambas de lixo. Cito isso porque no espaço de pedir um expresso duplo e ler uma página do Machado duas pessoas já haviam revirado o lixo, e eu mesmo já estava a imaginar como Machado descreveria a cena. Ou Lima Barreto, Machado ia talvez passar panos quentes. Sei que a dado momento eu já mal olhava o livro em minhas mãos, acompanhando a faina dos catadores. Eles abriam a tampa e sacavam de lá garrafas plásticas ou papelão de embalagem; cada um que passava gastava mais tempo e enfiava o corpo mais fundo nos recipientes. Percebi que havia umas caixas no chão, que todos eles abriam e seguiam adiante, o que me deixou um tanto curioso.

Eu via uma garçonete me servindo café, certamente tirava disso o sustento, olhava uma sacola de discos que não haviam custado barato, e não podia deixar de me sentir um pouco mal. Mas eu mesmo que podia fazer, voto de pobreza? E fui adiante. De repente, veio pelo lado da praça uma senhora, tão pequena e recurvada sobre si que mal se podia acreditar que empurrasse sua carroça de lixo, ou antes recicláveis. Ela era seguida de um cão, que disparou adiante e parou a latir perto das caçambas, e do monturo que extravasava suas capacidades, como que alardeando uma descoberta. Àquela altura o Machado já não tinha a melhor chance. Ela afagou o cão como que agradecendo pelo auxílio, ergueu a tampa da caçamba e quase mergulhou a minguada totalidade de seu corpo lá dentro. A busca não pareceu frutífera em nenhuma das duas, já que aqueles que passaram mais cedo pareciam ter levado tudo que se pudesse aproveitar. O ajudante canino tinha o focinho nas caixas agora, e a senhorinha parecia confiar em seu tino, ou talvez o raciocínio dos dois já andasse em uníssono, e ela se pôs a abrir cada uma das caixas.

O que me intrigava é que não devia haver lixo biológico nas caixas, então que diabo havia que não servia também aos catadores? A senhorinha me ajudou, retirou de repente uma longa fileira de bandeirolas auriverdes que certamente enfeitaram a última copa do mundo, e assim o grande fiasco em casa ante a Alemanha, estando provavelmente na manhã seguinte encaixotadas. E ela tirava os conteúdos e os analisava com alguma curiosidade; àquela altura ela já sabia o que é aproveitável ou não, e como outros haviam esnobado a descoberta, estava claro que dali não se podia tirar um trocado. Olhei em volta e em nenhuma parte havia decoração para mais uma copa do mundo que havia chegado; nem a alegria falsa de outrora conseguia animar um país desalentado com turbulência política e recessão econômica. Certamente algum comerciante resolveu enfeitar seu negócio e descobriu que as bandeirolas estavam mofadas, imprestáveis, ou não será nada disso, e ele apenas percebeu que seria um tremendo “mico” pendurar nossas cores com orgulho? Se já foi cunhada a expressão “complexo de vira-latas” para a descrença do povo em nosso “esquete”, qual será o complexo para esta indiferença?

Nosso vira-lata em questão não se fez de rogado, e parecia ser de fato o mais entusiasmado torcedor quando abocanhou as bandeirolas e saiu a estendê-las pela praça. A senhorinha se divertiu e fez festa, e parecia que sua indecisão ao se deparar com os enfeites se explicava e se resolvia pelo conselho de seu parceiro canino: ela pôs-se a freneticamente enfeitar sua carroça, e o espetáculo da dupla chamava atenção de transeuntes, sendo que a minha já era toda deles. Quando ela começou a repetir Brasil! Brasil! houve dois ou três que respondessem e por um instante parecia que todos se uniriam em mutirão para enfeitar a praça, a cidade, o país. Não foi assim, obviamente. Ela revirava a última das caixas quando, na avenida, passou um modelo de luxo, lento, a janela se abriu e uma garrafa plástica veio voando na direção geral das lixeiras e acertou a cabeça da catadora. Ela não reclamou, não xingou, só olhou em volta e pareceu envergonhada. Cheguei a pensar em abordá-la, e perguntar se estava envergonhada de si mesma por ter esperança ou envergonhada de um país que não se permite nem uma esperança de copa do mundo. Ela afagou o cão e saiu empurrando a carroça verde-amarela até o próximo monturo de lixo.

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