A Tarde e a Página

Guerra! O Brasil nunca passou por uma guerra! Tudo ia ser diferente se soubéssemos o peso da dificuldade e da escassez, haveria coesão social. Era um tipo executivo que claramente, ao longo de toda sua vida, gritou pela mãe ou pela esposa quando se descobriu sem toalha no banheiro. Como não era intenção minha entrar em debates, a saída que se me ocorreu foi perfeita, e minha fala foi acompanhada de uma quase performance até o balcão do caixa. Uma vez eu fui ao médico, sabe, com uma coceira que não passava. Ele olhou, olhou e de repente me queimou com ferro quente. Eu gritei, e quase cubro de porrada o sujeito, que se apressou em explicar: queimadura é minha especialidade. Paguei pelo lanche, comprei cigarros e saí da padaria da esquina atravessando até a outra calçada, onde duas casas adiante havia um casarão, e este era de fato meu destino, ou o primeiro deles, num desses giros pelo centro que eu sempre gostei de fazer, quando não tinha outro compromisso, desses em que se resolve duas coisas ou mais numa tarde, o que é quase impossível na metrópole, eu digo, se o leitor me permite a digressão, e perdoa o clichê de pedir perdão por digredir, dizia que no casarão, azul, cheio de ornamentos ondulados discutíveis talvez mesmo em seus dias, funcionava um sebo. Podia-se ouvir música lá dentro, e bastava se aproximar da soleira para perceber as estantes, e até mesmo o odor nauseabundo de incenso que não só sempre me recebia como impregnava-se nos livros. Eu não tinha muito motivo para frequentar aquele sebo, de tantos que havia, pensava fumando do lado de fora; talvez fosse pelo lanche da minha padaria de eleição, e olha que as padarias da capital dariam um tratado, e eu as conheço tão bem quanto eu possa; os preços não eram ruins, considerando que o custo nostalgia andava inflacionando o mercado; mas era a organização criteriosa e a disposição visual clara que facilitavam meu passatempo, bem, um dos meus passatempos prediletos, que é correr os olhos pelas lombadas até que um nome ou um título chame atenção. Naquele dia eu fui escolhido por um Hamlet, em estado deplorável, mas numa edição fartamente anotada que não é fácil de achar; já havia lido e relido e traduzido a peça quando mais jovem, mas a meia-idade tem disso, reler o que foi prazeroso, procurar a primeira namoradinha de novo, o custo nostalgia, sabe. Abri, folheei, cheirei, sim, para minha sorte devia ter chegado há pouco e não fedia a incenso, e notei rápido que havia notas, digo, não notas, anotações de um leitor anterior, que no caso parecia ser uma leitora, pois a letra era arredondada e numa cor que fora roxo aparentemente antes de esmaecer. Taí outra coisa bacana no vício de livro usado, às vezes era possível traçar verdadeiros perfis psicológicos dos leitores só pelos rabiscos, e a imaginação entra para preencher as lacunas; eu faria isso certamente, pensava, enquanto trocava banalidades com a coroa riponga e afagava o gato, que aliás era outra péssima companhia para livros e discos; e pensa o leitor que viria antes à mente uma bibliotecária sexagenária com fundo-de-garrafa ou uma femme fatale em trajes sugestivos saboreando o príncipe da Dinamarca? Ao pagar, comentei mais uma vez do incenso, timidamente. Pois é, sempre que eu ponho incenso alguém reclama… Sabe, uma vez eu fui ao médico, fiz assim com o polegar, disse, doutor dói quando eu faço isso, e ele, então não faça. Minha escapada voltou a ser uma performance. Voltei à padaria, só para um café, mas acabei pedindo um doce, e fiquei brincando com o livro de papel alaranjado de tão velho, procurando de fato pelas anotações pardo-roxas da leitora; foi fácil perceber um padrão, as anotações nos primeiros atos basicamente ajudavam a entender a peça, nos atos finais já esboçavam comentários pertinentes. Uma pesquisa sobre a presença de notas anteriores nos livros já mereceu um prêmio Ig-Nobel, sabe, aquele da ciência bizarra; pois eu adoro essa ciência bizarra, e me considero bem versado, ao menos; veja aqui, por exemplo, há uma nota na primeira cena que pressupõe a leitura do terceiro ato, e isso deve significar que ela leu a peça mais de uma vez, então eu pedi mais um café duplo e me pus a tentar determinar quais notas eram da primeira ou da segunda leituras, perceber variações na cor da tinta, e tudo mais, trabalho de FBI, chapa. Bom, chapa, né, quem diz chapa esses dias, mas enfim, saboreava o livro, e a leitora também o saboreava, em trajes sugestivos. Mas eu precisava consertar o relógio; era em uma daquelas galerias que recendem aos 60-70 e só não podem ser chamadas de decadentes porque estão cristalizadas há tanto tempo que isso pode se considerar uma nova estabilidade; perceberam que eu já não peço perdão pelas digressões? Todo escritor que faz isso faz por charme, pede perdão e depois sai digredindo como um desvairado, pensava eu, antecipando as linhas de alguma coisa que escreveria quando chegasse, enquanto percorria as ruas e via todas as pessoas apressadas, notava os modos dos mais jovens, sorria ao ver namorados, até chegar à galeria. Após esperar um cliente ser atendido, mostrei ao senhor de boina o relógio que saiu da mochila e não do pulso; a pulseira, aqui, viu, fica soltando, já pus até durepoxi e soltou. Mas que serviço porco isso aqui. Sabe, uma vez eu fui ao médico… Como? Nada, esquece. Percebi que estava performático demais e que não é fácil inventar piadas assim de bate pronto. Ele disse que ia tentar consertar e sugeriu que eu era sovina de não comprar um novo, eu nada de ter uma piada à mão para acertar na cara do velho petulante, nem precisava ser de médico. Eu disse que voltava e olhei em volta, havia uma barbearia, e pareceu boa ideia cortar o cabelo, mas não sem antes tomar um… café ou chope? e voltar para buscar o relógio. Chope, então; o vão central da galeria parecia todo feito de aço escovado, dando a impressão de fato de algo como um filme do expressionismo alemão em technicolor; o chope era aguado, mas isso não me deteve, e voltei às páginas marcadas com aquela letra tão graciosa, as quais já sabia quase de cor, e cheguei à minha favorita, que dizia apenas “Ofélia não está louca”, que mulher é essa! e em trajes sugestivos, ainda. Pus-me a ler aquela cena, então, já que o pobre Shakespeare tinha menos atenção que sua leitora até aqui; já no segundo chope me dei conta: havia uma página faltando.

Paguei e saí para fumar. Um carroceiro passava, um homem-sanduíche distribuía panfletos e uma ou outra pessoa parava para ver as mercadorias dos ambulantes; era uma via de pedestres. Com livro numa mão e cigarro noutra, atrapalhava-me para cuidadosamente verificar a sequência das páginas, a ver se outra faltava; precisei de dois cigarros para ver que não, aquela era a única. Bem no meio da performance da Ofélia louca, ou não-louca, segundo a crítica-leitora, bem na cena em que ela faz o comentário; apesar do mau estado do livro, a encadernação parecia sólida; voltei à lacuna e vi então o que não sei como não percebera, no canto inferior um pequeno fragmento da página se agarrava à nave-mãe indicando que a página fora de fato arrancada. Voltei ao velhote, que disse que não havia como consertar, eu disse que jogasse logo fora e caminhei até a estação sem tirar aquela leitora da cabeça; eu sempre buscava os olhos das mulheres bonitas no metrô, era até mais um dos passatempos prediletos, e aquela mania de escritor de ficar interpretando se misturava ao flerte, aquela ali se interessou mas tem que esconder, tem namorado, aquela outra te mandou ao inferno, aquela parece chamar para um motel; não fosse eu tímido; de qualquer sorte, aquilo me distraiu um pouco. Sentei-me e folheava meu livro, uma passagem secreta para dois mundos, a Elsinore da peça e outro muito mais brumoso, o mundo da leitora; quem seria ela, antes de mais nada? Meus olhos quando subiam das páginas buscavam os de uma morena de cabelos curtos, que percebia e disfarçava; naturalmente, a moça foi se tornando a leitora misteriosa, mas olhando novamente a caligrafia, não parecia pertencer a alguém que usaria piercing no nariz; pertenceria a quem, então? Bem, dificilmente menos de 25 pela maturidade, dificilmente mais de 35 pelo vocabulário (havia até um emoticom); provavelmente é metódica, pelo capricho na escrita, mas não metódica a ponto de considerar escrever no livro inaceitável; mais para hipster do que para hippie, certamente, muito embora, pensando na livreira… não sei se hippie lê Shakespeare, lê? e hipster, lê?; quem sabe ela fosse gótica, repetisse pobre Yorick segurando uma caveira no cemitério? quem sabe ela fosse certinha como a Ofélia, com uma sexualidade reprimida? quem sabe ela se identificasse mesmo com Hamlet e estivesse sempre a divagar sobre a natureza humana? Todas essas divagações foram o bastante para que eu passasse batido na minha estação, mas a próxima não ficava tão distante do meu destino, uma copiadora em que precisava buscar um trabalho, de forma que caminhei mais um pouco, o que é sempre um prazer, prazer que maior seria se menos gente vivesse destituída pela rua, mas ainda um prazer. Eu desenvolvia minha investigação mental enquanto esperava ser atendido, mas foi bem rápido pagar, meter na mochila o espiral das provas de um volume de contos e sair; dei de cara com outra barbearia e percebi que me esquecera lá na galeria da resolução de cortar o cabelo, entrei. Afora tentar não ouvir as conversas dos outros, ou, ouvindo, não reagir a suas opiniões seja com piadas ou diatribes, foi possível maquinar mais um tanto de hipóteses, tanto esperando quanto tendo minhas têmporas tosquiadas e minha nuca raspada. Pois digamos que seja hipster ou gótica, balzaqueana, por que rasgaria a bendita da página? vamos imaginar primeiro o mais prosaico, que precisou anotar um telefone, ali, apressada, não tinha outro papel, relutantemente subtraiu uma folha alaranjada, talvez, ou quem sabe o irmão maconheiro precisava de uma seda, ou ela mesma, e se for mesmo hippie? mas calma, um maconheiro ia escolher uma página com menos tinta, não pode ser; não, não pode ser casual, ela faz um comentário daqueles sobre a Ofélia e depois arranca parte da mesma cena para anotar telefones, assim por acaso? não, deve ser que alguma passagem a interessou tanto que ela quis compartilhar com o namorado, namorada possivelmente, ficante, crush ou o que fosse. Foi meio atabalhoado pegar o livro com aquela capa de barbeiro, e o barbeiro mesmo era mal-humorado, ou tinha pressa de aumentar a féria do dia e não gostava de interrupções, mas lá fui eu tentar determinar qual era o trecho subtraído, conjurando a memória do tempo em que eu me debrucei sobre o texto de maneira quase que maníaca. Minha primeira suspeita se confirmou, e a passagem com a canção obscena estava na página faltante; agora veja só, ela aparentemente de fato tinha uma relação com Ofélia, e não apenas, mas com a sexualidade de Ofélia. Ela é feminista. Barbeiro e clientes pensaram que sou louco, tendo lá sua boa dose de razão, mas eu não me importei, estava construindo uma hipótese sólida aqui e só quem lê história de detetive entende o prazer da dedução. Minha próxima parada era o cemitério, outra hipótese devia ser testada, e até lá me encaminhei rapidamente, sentindo-me mais do que o Sherlock Holmes; se eu tivesse um ajudante eu diria certamente, elementar, meu caro Watson, muito embora eu mesmo nunca tenha encontrado essa frase num conto do Conan Doyle, pois bastou chegar e lançar um olhar em volta e determinar que não, ela não era gótica, pois a cena do cemitério tinha pouquíssimas anotações, e nenhuma delas cheirava a morbidez. Isso não a fazia automaticamente uma hipster, podia ser alguém que não caiba em rótulos, aliás ela precisa ser, como eu pensaria que ela se filiaria a uma identidade pré-fabricada? Mas ela era feminista, e isso significa que eu estava errado no metrô, e ela podia ter brinco no nariz e poderia até ser aquela mesma morena de cabelo curto; imagina só, quantos milhões nesta cidade, como seria curioso que eu topasse essa mulher. Deus, mas eu preciso achar essa mulher agora! E se acabar sendo a bibliotecária sexagenária com fundo-de-garrafa? Que besteira, se for você conversa a respeito da peça, seu sexista safado; e isso é, se encontrar, ora, como se encontra o antigo proprietário de um livro? se fosse automóvel ainda seria possível, mas livro? besteira. Tira tudo isso da cabeça, pensava eu pagando ao barbeiro, mas obviamente não foi possível; o trajeto até a estação, a certa desta vez, passava por um viaduto, e a vida se desenrolava para lá do meu solipsismo na rotina agitada das pessoas que, no mais das vezes nunca ficam obcecadas por um livro com anotações e páginas faltando; mas eu fico, e o que instigava agora era pensar se ela, seja em trajes sugestivos ou fundo-de-garrafa, ou ambos, que me importa, tinha um interesse acadêmico por literatura, afinal é raro alguém sequer ler Hamlet, não? e no original, ainda? ou se talvez dedicando-se ao feminismo interessou-se especificamente pela personagem? Será que uma estudante de Letras destruiria um livro assim? a menos que tenha mesmo precisado mesmo anotar um telefone? Em frente ao metrô olhei o relógio, era já fim de tarde, e as plataformas estariam feito formigueiro, mas em vez de tomar um táxi para casa ou fazer hora até que passasse o rush, decidi tomar o trem lotado na direção oposta à minha, ainda havia tempo. Espremido entre tantos corpos, e segurando a barra com força a cada frenagem da composição, minha cabeça ia mastigando o mistério; decidi esboçá-la o melhor que pudesse antes de seguir adiante, aquele momento em que o detetive pausa esperando a epifania que nunca falha; decidi que ela tinha 29 anos, a aparência da moça do metrô; seu engajamento não era acadêmico, ou ela nunca arrancaria a página, ela devia ser uma cientista social engajada, interessada apenas naquela personagem, pensando bem, havia mais duas anotações sobre Ofélia e todas as outras eram sobre a trama, não sobre outros personagens; deve ser isso, mas e se de repente não passou de um acidente? não importa, está esboçada a contento; desta vez eu não perdi a estação, após vencer as escadas rolantes, acendi um cigarro e vi que caía uma chuvinha fina numa cena crepuscular.

Eu sentia fome, pois só lanchei em vez de almoçar, e onde é que eu ia comer novamente, senão na padaria de eleição? o sebo só fechava em meia hora, e quase que queria prolongar o suspense e pensar a respeito. Feito o pedido eu escolhi uma mesa, embora fosse meu costume o balcão, para evitar mesmo que alguém puxasse assunto como mais cedo. Por que rasgaria a página a… não tinha nome; devo dar-lhe um nome? Não, é muito arbitrário, vai ser como aquela brincadeira, você tem cara de, cara de nada, fica sem nome. A primeira coisa que eu pensei foi namorado; namorada? é bem possível; mas ele ou ela iam ler inglês, e aquele inglês? Difícil; e se ela tivesse guardado uma página que tinha qualquer outra significância, seja sentimental ou mesmo um maldito telefone, e então vendido o livro que não lhe interessava mais? Mas ela faria uma desonestidade dessas? não, não pode. E ela mesma, já teria comprado o livro usado? Por que no original? Ah, óbvio, a canção obscena só é obscena no original, é impossível traduzir os jogos de palavra. Então o interesse devia ser literário; e por que um acadêmico não pode rasgar um livro? ou qualquer um? Mas, com aquela caligrafia isso não combinava, aquela era a escrita de uma pessoa certinha, mas cheia de um tesão latente que, bem, lá vou eu. Olhei o relógio ao terminar de comer e precisei enfrentar fila no caixa. Imaginemos que ela precisasse memorizar esse trecho, só pode ser isso, então, ela rasgou e pôs na carteira, para decorar, quem sabe seja de teatro, mas em inglês? Eu mesmo começava a me cansar daquilo e me sentir estúpido, quando, já saindo na chuva que aumentara, me veio o baque e eu estanquei no meio da rua; um carro buzinou, como em filme americano e tudo, e eu terminei de atravessar me amaldiçoando. O livro deve ter uns trinta anos e certamente teve diversos proprietários, a página pode ter sido arrancada por outra pessoa que não a anotadora dos meus sonhos, seu interesse por Ofélia mera coincidência, assim como mesmo a anotadora poderia arrancar a página por acidente, justamente por trabalhar muito naquela passagem, ou ela poderia de fato ter um irmão maconheiro, ser maconheira, não me importa o que! Mas eu já estava na soleira do casarão mais uma vez e entrei. O marido riponga da riponga de mais cedo estava no posto, e eu me vi obrigado a iniciar uma conversa miúda, afinal não podia simplesmente abordá-lo com uma conversa estapafúrdia. Mas eu precisava encarar a realidade e ir direto ao assunto; tirei o livro da mochila e perguntei sem rodeio. Eu comprei este livro aqui, preciso saber de quem você comprou. Mas é impossível saber! Espera, esse em inglês acho que veio há pouco tempo (eu disse!), um lote grande. Sim? Veio de um sebo que fechou. Eu apenas agradeci e voltei à chuva, à estação e a casa, sabendo que se eu era o idiota que fantasiava tudo isso sobre uma anotadora em trajes sugestivos, ao menos eu não era o idiota que ia perguntar pelos donos do sebo que fechou para prosseguir com essa insanidade.

 

 

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