O Indignado

Pouca vergonha! Onde já se viu igual? Por isso o país não vai adiante.

No início ninguém ligava importância a mais um indignado em mais uma porta de repartição pública, tinham suas vidas a cuidar. Mas ele prosseguiu.

Reparação! Isto exige reparação! Pois sim? Se não, onde estamos? Numa tirania? Tirania! E nós cidadãos, vamos ficar de braços cruzados para sempre? Cabe a nós! A nós!

E já partia para uma espécie de convocação cívica, que podia a partir dali resultar quem sabe em legislação ou linchamento, ou nada, que é o que parecia fadado a acontecer.

O arcabouço legal de uma nação não vale nada? Todo o nobre passado das instituições não valem nada? Todos os jurisconsultos, laboraram em vão, se em nossos dias a injustiça possa assim grassar sem contestação? Isso só pode significar que isto é parte de algo maior, de uma degenerescência institucional que está aí, patente, exposta aos olhos de quem quiser ver!

Com o tempo, no entanto, o primeiro curioso, não tendo depreendido ainda daquilo que ouviu em suas tantas passadas qual era afinal o motivo de tanta indignação, parou para escutá-lo. Como é da natureza humana, a curiosidade é gregária, e da moça que pensou que o primeiro curioso devia ter boas razões para se deter até a aglomeração formada foi muito rápido.

Pois se é fácil perceber! Quem não vê como está podre o aparato estatal? Que financiamos uma máquina perdulária e ineficiente? Que o justo é punido e o poderoso é poupado? Que decadência! Vocês acham que é possível seguir vivendo normalmente, ignorando tudo isso? Vocês conseguem seguir vivendo normalmente?

A maior parte da assistência tendo já esquecido que pararam esperando ouvir sobre alguma altercação dele com a burocracia, e julgando suas frases razoavelmente coerentes e convincentes, deu-se mais uma vez que do primeiro “não” tímido até a ovação unânime foi muito rápido. E isso logo o entusiasmou.

É preciso mobilização! Precisamos nos unir! Tomar o Estado de volta, colocá-lo nos eixos, para que possa cumprir o papel que lhe foi destinado, de nação grande, de exemplo pro mundo! De pujança! De prosperidade! De justiça acima de tudo! E isso depende de nós! Hoje! Agora! Quanto tempo vamos fingir que não há nada acontecendo?

De alguma parte surgiram de repente cavaletes e um palco foi improvisado. Um policial apareceu ameaçando dispersar a pequena multidão, e formou-se uma comissão de seguidores, pois já era esse o termo apropriado, para negociar com o maldito aparato estatal, ou antes proteger seu líder por algum tempo. Quando, de cima de suas trêmulas pranchas, o indignado percebeu que havia um agente da lei ali para censurá-lo, isso foi para ele gasolina para seu motor verbal.

Pois vejam como não demorou a repressão ao nosso movimento! Eis mais uma comprovação do que eu digo! Não há liberdade de expressão! Querem nos convencer que vai tudo bem, então por que não se pode expor ideias, discutir projetos em público, sem ser ameaçado de violência? Está claro que não vai tudo bem!

Chegando o policial ao palco e sinalizando que descesse, ele pareceu dividido por um instante, e ensejou descer, mas a turba reagiu, reergueu-o ao púlpito e começou a empurrar o guarda para longe. Obviamente a cena ficava cada vez mais curiosa e atraía cada vez mais curiosos. Suando em bicas, o indignado desperdiçou a última chance de escutar seu medo, e cedeu ao desvario do poder repentino. Prosseguiu com a aclamação geral servindo-lhe de pontuação.

É a revolução! É a revolução! É a vez do povo! A mãe que não tem como alimentar a criança, é sua vez! O pai de família que não tem um teto, é sua vez! O inocente que vive com medo do criminoso, é a sua vez! O esforçado que é preterido pelo favorito, é a sua vez! A donzela que é presa do lascivo, é a sua vez!

Já se via a aproximação de três viaturas das forças da tirania, e a multidão se dividia entre os que preferiram sair antes de fechar o tempo, uns poucos, aqueles que se preparavam para partir pra quebradeira, afinal era uma revolução, outros poucos, e uma maioria que faria aquilo que o mestre determinasse. Já ele se debatia entre a sede de glória e um súbito desarranjo intestinal, mas aparentemente optou por seguir indignando-se até ver o que acontecia, preso de um furor verborrágico que nem mesmo ele podia mais controlar.

É hora de construir outro mundo! Um mundo melhor! Um mundo de paz! Um mundo em que o medíocre não seja premiado pela mediocridade! Um mundo em que o bom não vire chacota para o mau! Um mundo em que rico não massacre o pobre! Um mundo em que não haja pobreza! Um mundo em que os pais tenham tempo para as crianças! Um mundo em que as escolas não sejam prisões, e prisões nem existam!

Aqui alguém gritou comunista! e aos poucos, de um pequeno burburinho entre o séquito do indignado a sua divisão entre fiéis e dissidentes foi também muito rápido. Vendo a tropa de choque desembarcar e seu público brigando entre si, o orador se desesperava, mas não se calava, e optou por pautas menos divisivas.

Um mundo onde não haja pedágios! Um mundo em que não se adultere a gasolina! Um mundo em que não diminuam o tamanho do chocolate! Um mundo em que o final da fita adesiva nunca desapareça! Um mundo em que o fogão autolimpante seja mesmo autolimpante! Um mundo em que a internet não fique caindo! Um mundo em que mosquitos não transmitam doença!

Com a entrada dos cassetetes em cena, cada uma das facções se dividiu novamente, entre se solidarizar com o outro grupo e enfrentar o choque ou ajudar o choque a combater os desafetos. Já havia duas equipes de televisão estacionadas, transmitindo nacionalmente o embrião putativo da revolução. Ao indignado nem ocorria que já ninguém o ouvia, seja pela falta de amplificação, seja pela pancadaria generalizada.

Um mundo em que a manteiga não fica nem dura nem rançosa, em que a resistência nunca queime no meio do banho, em que os chinelos não se arrebentem, em que a roupa não fique cheia de bolinha na máquina, em que molho de tomate não seja atraído por roupa branca ou os dedões pelas quinas, em que se almoce três vezes com duas sestas nos intervalos, em que se receba salário por estar vivo e agradecimento por ser um sujeito bacana, em que nunca chova na hora do seu compromisso, em que se fique doente só em dia de trabalho…

A polícia chegava ao tablado do heroico indignado, e parecia disposta a levá-lo para algum tipo de corte marcial ou sessão de tortura, talvez os dois. Gás lacrimogênio havia sido usado, e aqueles que não se dispersaram resolveram as diferenças prévias para arremeter contra a polícia, num suspiro de furor cívico contra o Estado tirano.

… um mundo, enfim, onde não se exija cópia autenticada!

De alguma forma, todos os acólitos do revolucionário ouviram a última frase, e estancaram. A tropa de choque aparentemente achou curioso, e estancou também, estabelecendo uma súbita e inusitada tranquilidade.

Se eu tenho o original comigo, pra que cobrar a autenticação, me diz!

 

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