Cronicabilidade

Rapaz, sabia que te encontrava aqui.

Sempre, como sempre. Um copinho, aqui!

Ah, obrigado.

Tá vindo do jornal? Aos cronistas!

Putz, nem fala nisso.

Como assim, meu velho, quer confete? Quer que eu repita que você está entre os grandes? Que leva adiante a tradição? Que a cidade te lê? O país te lê?

Eu não consigo mais escrever crônica.

Eu leio toda semana, continuam ótimas. Grilo seu essa crise.

Não sou eu, eu não estou em crise. É o mundo.

Como assim?

O mundo ficou incronicável.

Que besteira, toda hora acontecendo coisa, coisas enormes, tudo motivo de crônica.

Aí é que tá, parceiro. Tudo é enorme. Tudo é urgente. O excepcional se tornou banal, e o banal não serve pra mais nada.

Como é isso?

Você vai escrever um texto sobre uma criança brincando no parque hoje? Alguém vai olhar através do texto e dizer que você captou o espírito do tempo?

O espirito do tempo virou um bicho papão.

Isso, um ectoplasma febril que flui pra todo lado e nunca que se materializa numa cena corriqueira.

Você não escreveu aquela sobre o jogador de pokemon caindo no buraco? Aquela foi boa.

Mas não é o espírito do tempo, é um comentário. Hoje somos meros comentaristas, e nivelados com um batalhão de palpiteiros de internet. Não me leve a mal, seu blog é muito bom… Eu nem posso dizer que me orgulho de trabalhar em jornalão, também…

Esquece isso, você atinge muito mais gente que os palpiteiros.

E menos que um youtuber de modesta fama.

Seus textos vão durar.

Mas não sou eu, não é meu ego. É a crônica. A crônica não existe mais.

Bobagem, você não está sendo purista? Os gêneros se transformam.

Não é a forma, amigo, não é nem o conteúdo. Não sei se consigo explicar. Eu vou contar como aconteceu.

Claro, sou todo ouvidos. Ainda vou escrever uma crônica sobre a sua morte da crônica, posso?

Fique à vontade, mas sem meu nome.

Óbvio. O Cronista Incronicável. Garçom, traz mais uma destas. E tremoços.

Você é o único jovem que come tremoços.

Tremoço é resistência. É como crônica. Enquanto houver tremoços, haverá crônica. E obrigado pelo jovem.

Pois então, eu não sei bem como começou, eu ganhei notoriedade pintando cenas urbanas, eu até comentava política de forma bem humorada, mas não era minha praia a polêmica.

Isso é bem verdade.

De repente você se vê no turbilhão, e não há como não… como eu disse, virar comentarista.

Mas em textos de qualidade literária, não se esqueça.

Sei que eu passei a receber mensagens de ódio de todos os lados por ficar aquém ou além em tal opinião sobre tal figura.

É, hoje tá assim. Mas recebia elogios, também, cantadas, aposto.

Eu estou bem com minha esposa, obrigado. Mas sei que voltei a pintar minhas cenas por quatro semanas seguidas. Nem eu acreditava em mim mesmo: não eram textos ruins, mas pareciam uma fuga, uma covardia. Acima de tudo, eles deixavam de captar, encapsular em poucos parágrafos algo inefável, indizível. Eu não me reconhecia. Mas era eu, o mesmo estilo, os mesmos temas.

Eram ótimas, como sempre.

As mensagens de ódio dobraram, porque ali não havia nada a que se reagir com ódio.

Então a crônica morreu pelo ódio? As abordagens são passionais e perde-se qualquer distanciamento?

Acho que é um pouco, também. A intensidade ajuda o romance, mas atrapalha a crônica. O cronista vai sempre ser um flanêur mais ou menos blasé. Hoje também tudo merece interpretação, dissecação; ninguém pode só sentir uma porcaria de um texto? Sentir o que não está lá?

Bem, e depois você voltou ao comentário social, deu pra perceber. Como foi?

Fui tragado. Após os comentários negativos, fui caindo na irrelevância.

Que absurdo.

O jornal não liga pras minhas opiniões, desde que gerem os “cliques”, e estava claro que cenas urbanas não iam mais ajudar.

Mas o jogador de pokemon… não foi uma dessas? Foi um sucesso.

É só um episódio. Uma crônica precisa fazer sentido lida daqui a cem anos.

Você está muito exigente consigo mesmo. É o espírito do tempo ali, se tiver que ficar um texto de nossos dias, deveria ser aquele.

Não, deixe disso. Eu abri seu blogue ontem.

Que legal.

Acho que você tem razão, os gêneros se transformam.

Não disse? Só os tremoços que nunca mudam. Aos tremoços!

Aos cronistas!

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