Inverno descontente

maio 31, 2021

Eis o inverno descontente nosso

Verão tornado co’o varão de York.

E as nuvens nossa casa a ameaçar,

Sob profundo oceano sepultadas.

Eis a guirlanda do êxito na testa,

Os braços rotos pendem, monumentos,

O duro alarme cede a convescotes,

Terríveis marchas a bailados lépidos.

Combate alisou crispada face,

E em vez de cavalgar corcéis armados,

Fera alma do inimigo a aterrar,

Saltita numa alcova mulheril

Ao titilar lascivo do alaúde.

Mas eu não fui talhado a travessuras

Nem feito a cortejar amado espelho;

Eu sou forjado mal, do amor sem garbos

Pr’a me pavonear à ninfa cúpida;

Eu que vetado fui das belas formas,

Graça, Natura ma furtou matreira.

Disforme, inconcluso, prematuro

Vindo a viver metade feito ou menos,

E isso manco e repulsivo tanto

Que cães ao ver o meu coxeio ladram;

Pois eu, ao flautim débil paz trilando,

Deleite falta-me a gastar o tempo

Não sendo ver a sombra minha ao sol

E ao próprio aleijão interpretar.

E assim, amante não podendo ser

P’ra aproveitar tais belos dias prósperos,

Eu me resolvo a um vilão tornar-me,

Ter ódio às diversões de hoje em dia.

Bicho Solto 6

maio 23, 2021

Que dia, ontem, cria. Nem me fala. Milagres fez eles usarem umas roupinhas melhores, os sapatos já apertados, e subiram todos até a Gorete, de manhã bem cedo. E aí, fia? Bão? Bão, fia, minhas cadeiras estão me matando. Os dois tão dando muito trabalho? Eles se comportam, quando não se comportam eu grito e eles entendem. Eu não sei o que seria de mim sem você, Gorete. Que isso, fia. As coisas estão melhorando, eu vou poder pagar uma creche. Tomara, fia. Jefferson, Tobias, até de noite, a bença da mamãe, respeitem a Gorete. E esses dois, todos vestidos? Eles vão comigo hoje. O Lélio vai comprar roupa nova porque a mãe dele vem visitar amanhã. Apareceu? Apareceu, estava na Alemanha. Na Alemanha, fia? Depois eu te conto. E vocês, não querem um biscoito antes de ir? Os dois aceitaram, e se despediram constrangidos. Então nós vamos. Dia, fia. Dia. E então os dois rapazes seguiram a mãe, biológica ou postiça, morro abaixo até o ponto, e após esperar um pouco tomaram um coletivo com o letreiro Bairro de Fátima, desceram e caminharam até o salão onde trabalhava Milagres.

Não era a primeira vez que iam, e o protocolo era conhecido, sumir lá na copa e não incomodar os clientes. Mas o salão estava vazio, e eles se instalaram na sala de espera, a folhear revistas. Tu nem sabe ler, provocou o Chulé. Sei sim, tu que não sabe. Então lê aí. A atriz de vinte e oito anos anunciou a gravidez no último… Tá bom, tá bom. Lê você. Ah, não precisa. Não, lê, lê aqui. Chulé foi salvo pela perua entrando pela porta. Eles tiveram que ceder o lugar envergonhadamente, mas ela insistiu que eles ficassem ali, e tentou ser amável com eles, e comentou que ia passar horas se tratando porque merecia, enquanto Milagres se desembaraçava dos preparativos. Como a cliente aceitou um cafezinho, as duas entraram para a copa, e de lá saíram direto para a cadeira de lavar cabelo, e nisso os dois voltaram para a copa. A bolsa dela estava lá, dando sopa. Não falaram uma palavra. Chulé abriu o zíper, vasculhou e pescou uma carteira. Achou o documento, uma cédula de identidade antiga, meteu no bolso da bermuda. Olhou o compartimento de cédulas, ela tinha feito um saque grande em cédulas de cinquenta, pegou uma. Lélio fez que não com a cabeça, Igor fez que sim e no bolso a nota sumiu. Que horas são? O microondas dizia cinco e meia. Não pode ser. Saíram ao salão. Mãe, que horas são? Agora eu não posso ver, filho. A gente pode ir comer alguma coisa? Vocês acabaram de comer. A gente quer andar. Tá, mas juízo.

Ganharam a rua, o Bairro de Fátima estava inundado de luz e apinhado de gente. Tia, que horas são? Ela se assustou mas disse, dez e meia. Perto de meio dia eles tinham que encontrar o Tulim na escadaria Selaron pra ir à gráfica do amigo dele, ou antes onde o amigo trabalhava, então podiam gastar esse tempo comprando as coisas, e por ali era um bom lugar. Chulé viu uma loja, umas bolsas vistosas na vitrine, tudo de gosto duvidoso, mas que sabiam eles? Aqui, Lelim. Não, tonto, bolsa nova ele vai desconfiar, ali na Lapa tem um brechó de coisa usada. Caramba, maluco, tu é um gênio. Lélio sorriu satisfeito e eles deslizaram pelas calçadas movimentadas com seus sapatos apertados até lá. Cumprimentaram envergonhados a atendente, que foi pega lendo um livro e se levantou quando viu que eles queriam comprar mesmo. Escolheram uma bolsa de tamanho médio, feita de um couro sintético preto com uma costura de tela de galinheiro e já um pouco puída, acharam também uma carteira vermelha, grande e cheia de compartimentos, o Lélio se lembrou de regatear e os dois custaram só quinze reais. A próxima parada foi uma farmácia: lá pegaram um pacote de lenços, um estojo baratinho de maquiagem, Lélio pediu remédio pra cólica e anticoncepcional, o rapaz achou estranho, mas era muito caro e o menino optou por uma cartela de antiácido. E chave de casa? Foi a primeira ideia do Igor. Boa, cria, onde tem um chaveiro? Ele deve ter umas chaves velhas. E não foi difícil, conseguiram chaves de casa e de carro, por uma merreca qualquer, sem perguntas. E nisso já era hora de encontrar o amigo, dizia a televisão no restaurante da esquina.

E o Tulim já estava lá, chupando um picolé. E aí, cria? De boa. Vamo lá, então? A gráfica era bem perto, as luzes estavam apagadas e a plaquinha dizia fechado para almoço, mas o portãozinho lateral se abriu depois que o Tulim gritou o nome do Arnaldo, e eles entraram. Foram apresentados e olharam em volta, havia um monte de máquinas grandes, e um crucifixo na parede. Cadê o documento? Igor tirou o papel verde plastificado do bolso da bermuda e olhou a foto da madame. Dá aqui, Arnaldo tirou da mão dele. Esse modelo antigo é moleza, a gente faz no papel poroso, e aí cola uma película na foto, pra ficar brilhando, passa uma caneta na assinatura e plastifica. Os dois ficaram bestificados acompanhando o rapaz de uniforme operar as diferentes máquinas enquanto debatia futebol com o Tulim, até que ficou pronto o documento. Olha só, tá perfeito, lesk. Arrasô. Porra, valeu, Arnaldo. E trocaram um complexo cumprimento em que as mãos se batiam de diversas formas. Vai lá no Marta que eu te consigo uma dola. Demorô. Então os dois saíram pelo mesmo portão se despedindo e tomaram o rumo do salão. Estavam passando em frente a um restaurante e o Lélio teve a ideia de surpreender Milagres com o almoço. Mais adiante foi Igor quem pensou em comprar uma rosa para sua vítima, e o efeito foi muito positivo das duas ideias. A mãe disse que ficou preocupada, mas estava orgulhosa dos meninos. Eu vou deixar a flor do lado da sua bolsa. Muito obrigado, meu filho. E ele aproveitou para devolver o documento ao seu lugar. Mais tarde no fim do expediente cada um ganhou uma calça, uma camisa de botões e um sapato novo, Milagres empregava bem a ajuda da irmã.

Autorama 21

maio 13, 2021

Aqui nessa galeria tinha um cinema. Paradiso, não era? Puta clichê. Uma salinha pequena, passava os filmes mais de arte e tal. Teve uns caras da Elétrica nove sete, acho que o Goiano ou o Brodi, acenderam um lá dentro. Eu vi o Serjão da Ciência, um dodói de tudo, tomar um tapão no peito por fazer isso no Delta Blues. Bom, aí vem a fase depois da crise, que é a pior de todas, embotamento, depressão. Eu pegava um livro pra ler, O Nome da Rosa, e ficava achando que não entendia nada. Eu fiz filosofia com o Basali de novo, em vez de falar o tempo todo eu fiquei caladinho, e ele usou o livro da Arendt, eu não entendia nada, mas tempo depois eu reli e vi que tinha entendido sim, é só essa sensação de estupidez que te toma. E me convenceram a frequentar o centro espírita, tomar “passe”, eu realmente me esforçando pra enxergar naquilo alguma ajuda e decepcionado que era o que eu sempre soube que é, um grande vazio palavroso. No trabalho eu estava às voltas com a tal psiquiatra, uma bruaca de cabelo pintado de vermelho, que queria de todo jeito um exame toxicológico, tinha o discurso mais tacanho sobre maconha, e eu acabei pitando com o Luciano, me sentindo culpado pra caralho, recomecei a contagem e consegui ficar os três meses, paguei ainda pela porra do exame e só então retomei minha função. Eles se preocupam mais com o moralismo do que com você, isso já estava claro. O puto do Luciano tinha se mudado pra Brasília nessa época, e até que a gente tretasse a gente conviveu mais um tanto. Ele era da turma do meu irmão em Rondônia, ele, o Daniel de Cruzília e o Tchezinho, que a gente achava hilário mas olhando em retrospecto nunca teve graça nenhuma, a exigência era pouca. Mas eu era moleque, achava o máximo andar com os “mais velhos” e era feito de bobo gostando. Uma vez eu fui visitar o Tchezinho em Passo Fundo, era um ônibus que não parava nunca e eu acendi um cigarro no banheiro, fui advertido, puta estresse. Tudo bolsonarista hoje essa gente, preciso nem perguntar. Eu segui na Geografia mais um tempo sem convicção, até que eu decidi que meu destino era mesmo ser músico e resolvi fazer o curso na Berklee que eu tinha tanto namorado. É claro que o que me faltava era muito mais disciplina e constância que qualquer curso numa escola famosa, e isso eu só saquei lá, quando me passaram um livro sobre síncope com um tiozinho de mil novecentos e guaraná de rolha na capa, eu disse “eu moro no país de música mais sincopada do mundo, que é que eu vim fazer aqui?”. Mas taí, acho que eu fui um deslumbrado, mesmo. Bom, enfim, mais uma vez, qualquer ideia seria desastrosa nessa época. Acabou sendo a viagem mais doida essa, mais que Cruzília, mas como eu estava bem fora de mim ela fica numa categoria à parte, de transe místico. Eu tive um tanto de viagem boa na vida, privilegiado nisso também, e não falo só da grana. Por exemplo, enquanto meu irmão boboca foi de excursão pra Disney eu esperei pra ir estudar inglês com uma idade em que eu já caía na esbórnia, isso foi em Oakland, eu mal cheguei no quarto e já surgiu o assunto de maconha, o colega de quarto já puxou um bong, eu nem sabia o que era isso, só maconha californiana… uma vez eu fui comprar e fui enganado, enorme talento pra isso, vi Metallica e Soundgarden, passei uns dias em Nova York com parentes e capotei várias vezes no Jardim Secreto, que era onde rolavam as festas no campus da Mills College. Eu tomei uma porrada de um idiota lá por ser brasileiro demais (nos dois sentidos) e ainda queria ser amiguinho do sujeito, eu não me respeito. O sujeito tá num curso de inglês mas fala inglês e nasceu na Inglaterra, tempo depois eu fiquei pirando que só podia ser um espião, mas pensa se não faz sentido usar escolas de inglês pra monitor gente que pensa demais nos países periféricos. São só minhas fantasias de que alguém vai se importar com o que eu penso, mais até que paranoia. Dos tempos de engenharia teve a viagem com o Campeão pro Acre e pro Peru, que foi memorável, no tempo em que a gente tomava daime. Eu me lembro que eu tomei emprestado ao Maciel o Cien Años para ir me aclimatando e essa foi basicamente toda minha instrução em espanhol. Na cerimônia em que eu ia me fardar em Rio Branco eu cheguei já no fim, porque meu avião não conseguiu pousar e nisso eu conheci Manaus (eu voltei lá quando viajei a Tefé, subindo o Solimões de lancha). O casal lá da igrejinha era muito simpático, o Zé e a Miriam, isso era no bairro do Alto Santo, e em volta havia várias igrejas, então quando terminava um hino você ouvia a igreja do lado dando o acorde final. Eu tenho sempre muito carinho pelo daime, em São Paulo eu acho que tem muita coisa atravessada, misticismo, mas no Acre, ou lá em Sorocaba, era o que eu mais gostava, a simplicidade. Não sucumbi à síndrome de apóstata, mas não sei se tomo outra vez, no casamento do ex-Cabelo eu recusei, parte porque tenho reserva com a UDV e parte porque dois remédios que eu tomo conflitam com inibidores de MAO e eu não quero descobrir como é uma crise de serotonina. De Rio Branco a gente foi ao interior encontrar o Silvano, um xamã que o Campeão conhecia, e foi mais um trabalho bem intenso, e tinha o Milhões, um simplório divertido quase bobo shakespeareano, lá no lote x do ramal y município de Brasileia, acho, ou era Sena Madureira, enfim, e de lá a gente foi até Assis Brasil, onde passou por cima de uma canoa atravessada no rio (hoje tem ponte) até Puerto Maldonado em solo peruano, donde tomamos um aviãozinho até Cusco.E as pollerias, o melhor eram as ubíquas pollerias, nada mais que galeto com umas fritas gordinhas. A balada era o Mama Africa e as ruínas são impressionantes, eu voltei com minhas camisetas de Cerveza Cusqueña e de Inca Cola pra usar nas festinhas do IFCH. Com o Campeão e o ex-Cabelo eu fiz outra clássica, pra Bahia, quando rolou greve, foi quando presenciamos o festival David Lynch em Trancoso, cada figura que a gente topava era mais improvável que a outra, foi quando eu comprei o doce “fantasminha” em Arraial d’Ajuda, foi quando apareceu o cara vendendo cocoloco, pra você fumar “na chuva, no vento e na cara do sargento”, foi quando a gente ficou com um canudo de artesanato do sujeito que ia tentar descolar um beque e nunca voltou, e na volta a gente errou o caminho e foi parado pela polícia na Baixada Fluminense, eles acharam o kit pala mas não disseram nada, e a pedrinha estava na barraca, ufa (privilégio branco de novo).

Autorama 20

maio 13, 2021

Poucos dias depois eu fui internado. Meu pai ligou no meu trabalho, e faria isso mais vezes, por mais que eu brigasse. Esse é o terror da doença mental: perder a autonomia, ver todo mundo decidindo por você, tratando com superioridade ou violência. Eu entrei no carro de boa dessa vez, entre dois capangas dos goiases. Dirigiram uma meia hora até o tal do Santo Antônio do Descoberto, onde estava minha masmorra. Mansão Vida. Coisa de crente, coisa desses crentes que a sociedade decidiu que são adequados para “tratar” quem usa droga. Em Marília eu fiquei duas semanas, lá eu fiquei um mês e meio porque é a política padrão deles pra quem “usa tóchico”. E quem liga se você acha uma injustiça? Você tá sob tutela, sua família vai ficar do lado das instituições sempre, um bando de patetas, medíocres, fanáticos, fascistas… devem ser todos bolsonaristas hoje cada psiquiatra que me submeteu, aquele Antônio Geraldo tá envolvido com as tentativas de promover um retrocesso no cuidado da saúde mental no país, reeditar Barbacena ou algo assim. Você chegava num platô lá em cima onde havia um casarão, parecia mesmo uma fazenda escravocrata, embora os prédios fossem recentes e medonhos, aí um caminho descia e havia um pavilhão à esquerda e uma casa à direita que chamavam (com ironia macabra) de Principal e era o pior lugar de todos, todo mundo jogado, sujo, babando, chapado de haldol e o caralho. Os remédios psiquiátricos que funcionam servem pra manietar a mente e o corpo, o estereótipo do louco se baseia no efeito dos remédios que dão porque não se pode mais amarrar. Se bem que a mim amarraram. Todo hospício tem uma hierarquia, que serve para eles te ameaçarem de punição, como eu já fui punido e “rebaixado” lá no Lago Norte. Em Marília não, mas tinha a “ala do SUS”. Em Aparecida de Gioânia também não, aquela era a única que merecia talvez o título de “clínica”. Mas continuando, lá tinha um galpão e um refeitório, e no fundo tinha ainda uma quadra de võlei de areia, foi lá que eu tasquei um beijão na Milena. Eu não me lembro de muita coisa mais que o episódio da Milena, mas tinha um sujeitinho lá que se parecia muito com o Mineirinho de Marília, só que em vez de cheirar ele fumava, e contava que brigava fisicamente com a mãe pra sair de casa gritando “eu vou fumar maconha, eu vou fumar maconha”, estraga o nome dos maconheiros. Uma vez eu fiz parecido, eu disse a minha mãe que estava indo fumar e que esse cara aqui (com um CD escrito Louis Armstrong) fumava todo dia. Aí esse menino disse “boto fé que você vai ficar só os quarenta e cinco dias”, SÓ filho da puta? Eu estava lá já fazia um tempo quando eu botei os olhos nela pela primeira vez, espadaúda, pernas longas dobradas à sua frente, sentada na grama, cabelinho curto preto, e aquele queixo proeminente que ela um dia contou que já chamaram de “pênis”, olhinhos castanhos… eu sei que “ela parecia ter vinte” é a desculpa mais manjada, mas afinal, não acho que eu corrompi ninguém. Sei que… opa, padoca. Eu estava mostrando meus “poemas” e fiz um charme: “esse eu não posso mostrar” em pouco tempo a gente estava trocando escritos, os dela em papel de carta, que fofo. E no dia do vôlei tão logo acabou a partida a gente se olhou de um jeito que não deu jeito, busquei a boca macia com volúpia, sabe quando encaixa mesmo? A Milena não foi a melhor trepada mas foi o melhor beijo, especificamente no show do Nação Zumbi na UnB, minutos de línguas executando um balé harmonioso. Foi o dia que ela foi lá em casa, quem diria que ela ia passar a me esnobar e rir da minha cara? Eu fui até o Espírito Santo pra ela me dar o bolo, e isso foi outro dia, mas talvez eu não estivesse em condições de encontrar ninguém, certamente não deveria ter encontrado a Thaís, mas oras bolas. O funcionário do hospício nos caguetou, e lá vamos nós encarar a Führerin, como eu chamava, a tal da Dona Ester. Dia.Me dá um maço de Ouroboro, por favor. Era uma branquela gorda, a que mais gostava de brincar de tiranete, um ótimo emprego pra ela, assim como a minha orientadora, putz, nem me lembra isso. Obrigado, boa tarde. Pois se deu que eu abaixei a cabeça e fingi contrição, a moça não parava de sorrir e foi punida por isso, vejam vocês. Vai pra Principal com ela! Ah, mas me lembro sim, como, não, tinha o Ulisses, esquizofrênico, ele tinha juntado umas informações soltas que ele usava pra parecer inteligente, eu voltei lá no ano seguinte (ele morava lá) e ele repetiu tudo de novo, tinha a história da densidade da aceleração, e ele gostava de Jim Morrison, eu nunca vi graça. Mas era um bom parceiro de xadrez. No mais foi desesperar-se pela dose desmedida de confinamento e odiar evangélico cada vez mais.

Autorama 19

maio 2, 2021

Quinze pras seis. Se eu conseguir garimpar um disco bom já salva o dia. Será que eu acerto o caminho? Não aceitar meu documento, puta que pariu. Putz, tá acabando o cigarro. Eu me lembro que chegando já na mania plena eu encontrei na PGR o Serjão, o goiano, o Mestre dos Magos. Pelo menos dessa vez ele não chegou do lado e disse “e aí, beleza”. Já estava no Banco Central ele, eu até hoje não sei onde piso. A gente almoçou lá na PGR e eu comecei a contar que a polícia estava me espionando porque eu passei em frente ao posto da UnB e uma viatura saiu na minha frente, e eu decidi essa era uma técnica avançada, seguir pela frente. Nessa época eu já estava virando as noites no computador “debatendo” política, de todos os lugares, no Orkut. Uma vez eu disse que precisava dormir e não podia continuar e no outro dia apareceu um texto em alguma parte que me colocava como “a última resistência humana”, e imagina como eu fiquei. Mas nesse dia com o Serjão eu me comportei, uns dias depois eu estava almoçando com colegas e comecei a falar alto, essa é outra coisa comigo, ou com a bipolaridade, já não sei separar, eu me entusiasmo e começo a falar alto. E eu dizia que sabia que estavam na minha cola, viajando, construí ali minha reputação no trabalho, que nunca foi grande coisa. E por essa época eu fui preso. Quer dizer, levado à delegacia. Ou preso mesmo, alguns minutos eu passei atrás de grades. Bom, depois de ter plena liberdade em Campinas, eu estava de volta pra morar com meu pai, e a Jessica, e num apartamento pequeno, provisoriamente. Então eu preferia ficar dirigindo por Brasília e ouvindo música e fumando maconha e eventualmente parava na rua das putas, que era perto de casa, pra comprar uma cerveja. Usava os serviços, também, tinha uma moreninha lá que eu me encantei, uma vez eu comecei a cantar em francês e ela disse que sabia que eu falava francês, é claro, eu estacionava ali e ficava ouvindo Etron Fou leloublan, uma das pirações que o Pedro introduziu no Coquetel do Mingus, nada demais nisso, mas eu já associei com Jesus e Maria Madalena, foi a primeira vez que eu me associei a essa figura. Nos tempos de Campinas eu cheguei a me tornar um daimista bem convicto, e foi uma ótima experiência, mas minha verdadeira fé é no ceticismo, e eu levo a história muito a sério para aceitar o cristianismo como alguma verdade privilegiada. Um ponto de taxi. Mas a prisão, né? Amigo, você sabe onde é o Sebo Casarão? Sei sim senhor. Tem como me levar lá, estou com um pouco de pressa. Complicado, essa hora tem muito trânsito. Então pode deixar. Não ia mesmo dar tempo. Ou será às sete que eles fecham? O senhor sabe que horas fecha? Sei não senhor. Obrigado. Bem, vamos andando, quem sabe? Só segurar esta pasta que já deu no saco. Nesse dia, ou nessa noite, eu estava fazendo a ronda habitual, já loucaço, mais da mania que de birita ou fumo, e quando eu passei na rua das putas a polícia estava enquadrando uns miseráveis. Eu achei que era obrigaçãominha parar o carro e gritar “para de perseguir preto, pobre e puta!” Na mesma hora os molambentos não eram ameaça nenhuma e todos os canas vieram pra cima de mim. Eu não posso lembrar o que eu disse, mas eu certamente não xinguei eles de filho da puta igual escreveram. Me puseram na traseira de um SUV, era um modelo chamado X-Terra, e isso me remeteu ao jogo de RPG que eu era viciado quando moleque, e nunca tinha terminado, então eu já pirei que tinha sacado tudo, e que a resposta final era amor. Espaço-tempo-amor. Claro que não era. Me tiraram do camburão e me enfiaram na delegacia. Dentro da cela, minúscula, tinha um fodido, mais ou menos como os que estavam tomando baculejo quando eu tive a grande ideia. Ele foi arrancado de lá pra sabe-se qual destino e eu fui jogado pra dentro. Preso na grade tinha um pedaço de papel, e eu peguei, era alguma baboseira religiosa, mas pra mim tudo tinha um significado metafísico imenso. Aí eu fiz, bom, em algum momento eu fiz alguma coisa que eu não me orgulho muito, que foi apelar pro papai, Otoridade com ó maiúsculo, como eu frisei. Meu pai nunca tomou meu lado, nunca disse que a polícia não tinha o direito de me prender, e ficou conversando com o delegado em tom condescendente. Pra casa do caralho. Meu pai chamou um primo milico, milico! pra me enquadrar, que direito esse filho da puta tem? Depois ele se nega a admitir que apoiou gostosamente a ditadura. Mas enfim. Ainda tive que fazer exame de bêbado, que afinal era a única coisa errada que estava fazendo, mas no fim não deu nada, sorte ou privilégio branco ou o que seja, o meu “crime” foi arquivado e a multa foi cancelada por alguma tecnicalidade.Eu lembro que eu entreguei o papelucho de outro preso a meu pai, disse que guardasse, e os polícias é droga, é droga? Essa obsessão com droga. Eu queria dizer que nunca fiz nada parecido, mas não faz muito tempo eu não estava muito bem da cuca e fui ali pro Parque da Aclimação em São Paulo, e tinha um batalhão marchando e entoando seus gritos de guerra e eu comecei a pensar em voz alta e chamei eles de fascistas. Do nada tinha uns cinco em cima de mim, eles têm uma técnica, essas coisas que eles aprendem dos israelenses que treinam os canas aqui, de ameaçar sua traqueia. Quando eu foi internado em Brasília dessa última vez foi assim, são soldados que cuidam dos loucos, pelo visto. Acho que a Barão de Jaguara está do lado de lá.

Bicho Solto 5

maio 2, 2021

Aí, seus pivetes, mão na cabeça. Levanta. Devagar. A arma sacada e apontada era no mínimo um exagero, algo que o cana não faria com os moradores daqueles prédios logo ali. Chegou um segundo policial cinzento. Os dois meninos, trêmulos, seguravam as mãos para cima, sendo que as bermudas molhadas nos quadris esquálidos não revelavam volume algum. Que que vocês estão fazendo aqui? A gente veio nadar, senhor, antecipou-se Igor. Vocês estavam fumando maconha! Não, senhor, não. Olha isso aqui. E achou o pedacinho da brasa na areia, um nada de nada, cheirou, deu um tapa em cada. Sargento, leva os menores infratores. Mas sargento, é muito pouco esse flagrante. E aí eles começaram a debater a conveniência de enquadrar os pobres meninos. Sargento, nós vamos deixar a ronda, preencher papelada, ele vão ser soltos no fim. Os dois amigos até começaram a abaixar os braços, mas lá veio a arma apontada. O tira bom venceu no fim, o tira mau deu mais dois tapas e um sermão cheio de palavrões e ameaças, e logo os dois foram retomar ronda da disputada praia da zona sul.

Eu falei pra você, não se demorou a espezinhar o Lelim. Não enche, pô! E saltou lá embaixo, caiu de quatro e logo saiu correndo até a água. O outro não tinha escolha senão seguir, e a desavença não durou; eles celebraram um pouco o alívio e depois tomaram o rumo do ponto de ônibus com os pés descalços no asfalto quente. O busão estava saindo, e vazio, então eles se instalaram em dois assentos como lordes. Quando o ônibus passava por um túnel, o Chulé gemeu; que foi, quis saber Lelim, mas gemeu ele também. Em pouco tempo estavam rolando no chão do ônibus, e os demais passageiros foram muito solidários: não vomita! para o ônibus! O motorista disse que não podia parar ali, mas parou assim que pôde, e eles tiveram que descer, como deve ser com quem está no nível mais baixo da escada social e é esnobado até de pobre. Todo o tempo, a maconha paraguaia cheia de misturas tóxicas revolvia o estômago dos dois, talvez vomitar abreviasse o incômodo, mas nem essa sorte tiveram. Cambalearam pela calçada até onde havia uma birosca e dividiram uma água. Caraca, maluco, eu já comi beque antes e nunca passei mal. É o pastel, cria, muita gordura. A verdade é que àquela altura já estava passando, e como a subida do morro não era longe, optaram por seguir a pé. Mas no meio do caminho o Lélio ouviu uma buzina como se ecoasse numa caverna, e começou a sentir o tempo correndo devagar, e antes que ele dissesse o Igor disse a mesma coisa: cria, tô muito cha-pa-do… O organismo só é capaz de absorver a maconha fumada até um limite, a maconha ingerida demora a entrar, mas atinge uma maior intensidade, e era bem esse o caso. Chulé parou na vitrine de uma loja, uma atendente lá dentro ficou até inquieta, mas ele só queria olhar os manequins de crianças com coloridas roupas de super-heróis, todas elas brancas. O outro se juntou a ele e não demorou a que fossem tocados. Ainda iam parar para viajar na banca de revista, com o mesmo desfecho, antes de atingir o pé do morro e subir apostando corrida.

Tinha feijão com arroz na geladeira, e a mistura foi banana pois não queriam preparar nada. Depois caíram nos colchões surrados cheios de areia como estavam para tirar uma soneca. Foram acordados por Milagres, que, sem agenda pro resto do dia, voltou mais cedo, e ela o fez já brigando pelo desleixo de deitar sujo, tiveram que bater os colchonetes na laje, e já pro banho. Até isso faziam juntos, ganharam um cheiro cada um, e um longo abraço silencioso, que dizia muito. Lélio, escuta, começou ela, sua mãe vem visitar no sábado. Oba! O menino não tinha o mínimo ressentimento de ser posto pra criar, nem entendia os motivos da mãe, que era sempre evasiva. Daqui a pouco vocês vão buscar as crianças, agora deixa a mãe descansar. Chulé aproveitou a ocasião: mãe, a gente pode ir com você pro salão amanhã? Por que, filho? O Lelim quer comprar uma roupa nova pra ver a Ruth, não é? O outro assentiu com a cabeça, animado. Tá bom, vocês tão com sorte, essa semana foi boa. Vão lá, busca os menino logo.

Depois de cumprida a tarefa, o destino era o Tulim, ou a laje dele. O sol se punha e dourava todo o morro, e o mar lá embaixo. Aí, maluco, já combinei com a mãe, vai ser amanhã, você consegue matar aula? Eu consigo sair no intervalo. Dez e meia. E onde é que sua mãe trabalha? Bairro de Fátima. Ah, então é pertinho da gráfica, mas olha, entre meio dia e uma é a hora que o Claudinho pode ajudar. Vamos encontrar quinze pra meio dia… na escadaria. Os dois concordaram e começaram a contar alternadamente tudo que passaram no dia enquanto o baseado empastelado do anfitrião rodava. De repente se ouve um grito lá embaixo, Túlio, deitado de bruços, projeta a cabeça pra fora da laje e anuncia que é o Café: sobe aí, Café. Café tinha a idade de Túlio, era gordinho e apesar da pele preta tinha esse apelido porque sempre foi café-com-leite no futebol. Ele falava rápido, contava umas piadas que só ele ria, e a dado momento ele tirou algo do bolso: olha isso aqui. Era um tubinho conta-gotas que parecia de remédio. É o que, isso? PCP, maluco. Você pinga uma gotinha no baseado e fica mais doidão ainda. Mais doidão? Os dois ainda se lembraram da bad trip da tarde, mas uma experiência nova assim, por que não? E lá se foram, Lelim botou um do seu, Café pingou uma, achou pouco e pingou uma segunda gotinha, o Chulé torceu e acendeu. Dali a minutos estavam estatelados no chão e viajando a universos paralelos; Lelim estava numa festa muito chique, garçons circulando, mas quando ele tentava comer as iguarias viravam areia em sua boca; Chulé mergulhava no fundo do mar, onde havia uma civilização subaquática de homens-sapo, e o rei deles era o Camarão; suas experiências duraram dez segundos no mundo real mas dez minutos no mundo mental, e ao fim delas estavam exaustos. Cada um falou caraca maluco a seu turno e todos foram se reerguendo, cambaleantes, mas o Café perdeu o controle e caiu da laje. Os outros se assustaram: tá tudo bem, Café? Ai, tá, mais ou menos. Eles desceram com cuidado e ajudaram o acidentado, que caíra em cima da horta. Depois de conversar um pouco na rua, se despediram, achando que já tinha passado. Mas no caminho os passinhos estavam bambos.

Lelim, vai indo pra casa, eu já chego. Por que? Vai indo, cria. Chulé esperou o primo sumir e tomou o rumo da fortaleza do Camarão. Deu na telha de pedir a arma, estava se sentindo confiante. Os seguranças deixaram-no entrar sem problema, ele escorregou pra dentro das fundações do muro, onde dois rapazes tinham metralhadora no pescoço e o Camarão cheirava em cima de uma mesa de escritório. Coé, cria, tá fazendo o que aqui de mão vazia? E esse olho esbugalhado? Tu usou o que? Chulé hesitou um pouco e soltou: PCP. Tu é maluco, maluco? PCP não é pra criança, não. Quem te deu PCP? Não lembro. Não lembra? É alguém que eu não conheço. E o que tu veio fazer aqui? Já roubou? É difícil, chefe. E trabalhar na boca não é difícil, covarde? Libera um berro na minha mão, sem bala, mesmo. Sem chance, pivete, dá seus pulo. Poxa, camarão. Só volta com a prova, até domingo, passa!

Interpretar pratinhas

abril 6, 2021

Praticamente os tópicos triplicam as placas, complementam o plâncton. É como o cominho, que costumava hastear teares e interpretar pratinhas. Sempre assim, o suposto espeta, o cacófato afeito ao fátuo afeta os tufos, e a tangerina granjeia janeiros, sempre assim. E o preâmbulo bole com libélulas, abole bólidos, ante a antena tênue dos netos, como se os sequazes aquáticos dos quatis quânticos sequer se importassem. Bem, tudo depende do pêndulo, se o Adálio adula dólares, mas tudo bem, o que se espera das peras é aparar peróxidos, e mesmo que a lesma se esmere o cotonete atina com tinitus. Besteira, a paciência também arrota, a torrada resiste, vamos vendo. Não basta um bastão, nem o bastião da abastança, é como se fosse um fóssil facílimo. Que saudade do doido, quando o dândi indicava covas, avaliava o vôlei. Agora a garoupa garimpa, o essencial censura, como se o pugilista gelasse os cílios. E qualquer um que opere o pária está fadado a feder, representar trezentos, o que o gomo já disse, disfarçado de chuveiros práticos.

Bicho Solto 4

março 30, 2021

Depois do café e de levar os menino na Gorete, Chulé e Lelinho foram bater ponto na pedra. Era o primeiro dia de sol depois de uma semana, e a vista do oceano era tão convidativa que não tardou a que Lélio mandasse a letra: vampa praia! Pô, demorô, moleque! E o Tulim? A gente vai lá à tarde. E o Camarão? Vamo à noite. Mas o que você vai dizer ao Tulim se ainda não sabe se consegue a arma? Ah, para de fazer pergunta, Lelinho. Vamo agora, então. Agora tá cedo. Então tá, eu topo. Topa o que? Topo falsificar a bolsa. Ah, moleque! Isso aí, primo. Vai ser tranquilo. Se eu pedisse a peça e ele negasse, aí que ele ia desconfiar mais! Isso mesmo. Não tinham dessa vez esquecido o guardanapo, e o chulé providenciou um torpedo enquanto a vida corria no morro, um pai levava a filha de uniforme e os mototaxis subiam e desciam. Acenderam. Eu acho que eu sei como conseguir o documento, arriscou Chulé, passando. Pô, eu queria terminar a escola. De que tu tá falando? Escola, eu queria voltar pra escola. Coisa de otário, primo, tu vai estudar e vai continuar pobre e da favela. Respeito é uma peça na cintura. O dia bonito atraiu mais gente, e não demorou a se formar uma roda, outros beques serem feitos e o assunto privado se diluir nas fofocas e generalidades, em meio a boas risadas. O sol estava já alto no céu e os dois ali, chapadíssimos, Lélio despertou do transe: vampa praia, maluco. Demorô.

Como estavam, de bermuda sintética, chinelos e mais nada, iam descendo pro asfalto, quando o Lelinho alertou: eu não vou descer com brenfa pra praia. Leva só um, apertado. Olha lá, eu não quero pagar medida. Tu também não quer pagar medida. Fica tranquilo, porra. Qualquer coisa come, sei lá. Então passaram em casa, fizeram um, que Chulé pôs no bolso, e prosseguiram trocando prosa miúda até o ponto de ônibus. Ali eles comeram pastel e tomaram caldo de cana, e compraram uma garrafa grande de água para a jornada. Como eles conheciam motorista e cobrador dos ônibus que iam para a praia, pagar não foi um problema mais uma vez. Andando pela cidade, em pé e segurando no ferro, observavam os casarões, os prédios e as lojas, como as de roupas, eles que usavam quase que só roupa doada. Desceram no ponto final, que era a três quadras do mar. Atravessaram no sinal fechado, como bons meninos, mas mesmo assim foram parados mais adiante, era a guarda municipal. Lelinho gelou até a espinha, Chulé garantia estar no controle da situação. Eles tinham os documentos para mostrar, e os guardas mais tentaram dissuadi-los de chegar até a praia do que revistaram os meninos em busca de ilícitos. Malandro, que alívio… eu sei, deixa comigo. Então eles pegaram o rumo oposto da praia e na próxima quadra contornaram, chegando ao mar sem constrangimento.

Já na faixa de pedestres da avenida movimentada iam pulando e chamando atenção, geralmente negativa. Passaram direto pelo calçadão onde um gostosão ou gostosona desfilavam, cachorros passeavam seus humanos e camelôs vendiam coco ou cangas, passaram ainda entre duas barracas cujos preços não eram para eles, passaram pelas tendas e cadeiras de quem consumia e só pararam com os quatro pés pretos mergulhados na água salgada. Molharam um ao outro um pouco, Chulé foi até a areia e discretamente enterrou beque, isqueiro, dinheiro e documentos, perto de onde ficaram os chinelos, e só então foi se juntar ao amigo-primo-quase-irmão que já pegava jacaré àquela altura. Por longos minutos aproveitaram a água gelada da cidade que até eles mesmos achavam maravilhosa, e quando estavam satisfeitos saíram, mas não viam os chinelos. Filho da puta! E nisso tinham toda razão, quem roubaria chinelos velhos de dois meninos favelados? A menos que seja hostilidade pela própria presença deles, não se explica. Chulé correu para conferir o esconderijo, e tudo estava a salvo, menos mal. Vamo fumar logo isso. Onde? Olharam na direção da terra. Coqueiros, barracas, prédios altos; à esquerda deles, o Lelinho apontou, havia um morrote de areia coberto de uma vegetação praieira incipiente, e na ponta dele estariam escondidos do movimento no calçadão e com boa visão da movimentação na praia, onde circulava quadriciclo da polícia às vezes. Ali é canal, cria. Por mais que a lógica fosse boa, os dois meninos chamavam atenção ali, e eles deviam saber que era arriscado. Instalaram-se e acenderam a bomba, sempre olhando em volta. Eu acho que sei como conseguir o documento, mané, disse Igor, passando. Ah é, e como, então? No salão da mãe. Eu invento um motivo pra ir com ela, essas madames ficam horas lá, eu pego, a gente vai com o Tulim copiar e eu devolvo. Se ela descobrir, você apanha. Descobre não. Então fechou. Então olharam de novo, um polícia. Chulé foi rápido, decapitou a brasa do beise e dividiu o restante em dois, passou uma metade ao parceiro, e os dois as mandaram à boca.

Bicho Solto 3

março 19, 2021

Tu nunca pegou numa peça, maluco. E daí? A arma é só pra assustar. O Camarão não vai dar arma pra gente. Você vai ver. Quando eles iam entrando no metrô da Cinelândia, o segurança os parou, colocou contra a parede e revistou. Foram vocês que roubaram a velhinha! Achou um resto de maconha, deu um safanão em cada e sugeriu que o metrô não era lugar para eles. Vai, vamo de ônibus. E foram até o ponto garantindo que foi por muito pouco que não tiveram sucesso. O cobrador foi firmeza e deixou passar por baixo, eles se instalaram no fundo e desceram perto da entrada do morro. Mas no que passavam pelo boteco do pai de um amigo, o Tulim, a moça do balcão gritou: sobe não que tem operação! É ruim, hein. Entraram escutando tiros e compraram fichas para o fliperama, era um Street Fighter adulterado, e a tela estava cheia de hadoukens acionados pelos movimentos vigorosos dos dois. Logo depois que o Ken do Lélio matou o Ryu do Chulé no cenário amazônico do Blanka, chegou o Tulim: coé? Coé, Tulim? Sinistro, os porco mataram três. Do movimento? O André e o Helton, e uma criança de bala perdida. Filhos da puta. O Helton nem é mais do movimento, ele arranjou emprego no asfalto. Pois é. Pegaram alguém? Ninguém importante. Ouvi falar que é a formatura de vocês. Nem fala. Então contaram as desventuras da manhã, e o outro caçoou. Tu também nunca roubou. Tulim, embora bem informado, nunca entrou pro crime: ganhava pensão de sua mãe falecida e era um bom aluno, ainda de uniforme e sapato, o que estabelecia um contraste com os molambos dos amigos descalços. Ele ofereceu um guaraná da quota dele a cada, e escutou a grande ideia do Chulé com um sorriso. O Camarão não vai nem falar com vocês hoje, esquece. Poxa, é mesmo! Vocês já almoçaram? Não, cria, tô brocado. Vamo lá em casa. Demorô.

A casa era simples, mas já era melhor que a deles, a comida o Tulim transformou num mexido, que eles comeram com gosto. A laje da casa era presenteada com uma linda vista pro mar, prateado e encrespado sob um céu que voltava a fechar. Tulim abriu uma caixinha e anunciou: esse aqui é especial, é do gringo. Caraca, malandro! Onde você consegue? Um amigo meu que planta, em Seropédica. Tulim não era branco, mas podia passar por branco, e circulava o suficiente no asfalto para ter bons contatos, era também um pouco mais velho que os dois, estava na primeira adolescência, talvez. Essa aqui é a de Amsterdã mesmo, disse Lelinho. Chulé não perdoou: e tu já saiu do Rio um dia, mané? Eu já morei na serra, tu que nunca saiu! E todos riram. Que cheirinho. Limão. O Tulim não bolava como a dupla, mas o baseado de sedanapo funcionava bem o bastante. Os dois ficaram absolutamente fanáticos com a novidade na primeira tragada, exultavam, deitavam no chão, riam, trocavam sopapos de brincadeira, e quando a ponta apagou e o Tulim a guardou na caixinha, quando eles tinham se aquietado no seus cantos, veio a pergunta fatal: e o que é que vocês vão fazer? Chulé arriscou: faca, vamos usar uma faca. Tulim balançou a cabeça: faca não assusta ninguém, olha como vocês são miúdos. Vocês têm de ser espertos. Como assim? Vocês não querem roubar uma bolsa para provar pro Camarão? Ahã. Então qualquer bolsa serve. Tu é maluco. É a coisa mais fácil. Se o Camarão perceber, a gente tá morto, malandro, é ruim, hein. Ele vai ver uma bolsa cheia de coisa, qual é a diferença? E o documento? É aí que eu quero chegar, eu tenho um colega que trabalha numa gráfica. No intervalo de almoço ele fica sozinho. Eu já fiz uma carteirinha lá, plastificada, gringa, perfeita. Aí, Chulé, ele tem razão. Você precisa de um dinheiro pra comprar uma bolsa, uma carteira, maquiagem, lenços, essas coisas. E você precisa de um documento original, é claro, e tem que ser gente do asfalto. Igor ainda não estava convencido: e o cartão de crédito? Se não tiver cartão vai dar na cara. Minha irmã tem um monte de cartão velho, eles não vão prestar atenção nisso. Será, maluco? Nisso a madrasta do Tulim subiu pra chamá-lo a executar alguma tarefa doméstica e os dois se despediram, prometendo voltar no dia seguinte.

Não tá na hora de buscar os menino? Daqui a pouco, bora lá na pedra. Tiveram que passar em casa para pegar o beque: ainda bem que eu não desci com minha dola pro asfalto igual tu. Foi vacilo. Se o segurança quisesse, ele… Tá bom mané, eu tenho que agradecer o cara que me deu um tapão, é? Aproveitaram para comer uns biscoitos (porque bolacha é tapa na cara), passaram no boteco que os refugiara da chuva antes para garantir uma seda e se instalaram no promontório, que tinha hoje já dois grupinhos para aproveitar o paradisíaco ocaso de mais um dia de mormaço por sobre a metrópole e o mar aberto, tinto dos alaranjados e ocres do céu, onde uma bola vermelha baixava sem pressa. E aí, maluco, vale a pena enganar o Camarão? Vale a pena se der certo. Não quer tentar de novo? Com uma peixeira? E como é que tu leva uma peixeira no bolso da bermuda, zé roela? Eu conheço o Camarão há muito tempo, primo, certeza que ele libera um berro pra mim, sem bala, só pra assustar! Bom, então você tenta falar com ele amanhã. O assunto parecia encerrado por ora, mas foi também abreviado pela chegada da Telma, a filha bonita do verdureiro com quem Chulé trocava olhares tímidos escolhendo tomates ou batatas, acompanhada do irmão mais novo, os dois se juntando à celebração canábica após um convite meio sem graça. Após alguma conversa miúda sobre a copa do mundo que ia acontecer em breve, um espetáculo que não era para eles, a Telma soltou um convite ao Chulé: o pai precisava de ajuda e ele podia trabalhar lá. O irmão concordou, aparentemente a contragosto, e o próprio convidado se forçou a mostrar interessado, mais na morena que no trabalho, na verdade. Quando recebeu o beque do “cunhado”, percebeu que estava todo babado, e protestou: ê, boca de piscina! Já não restava nada do sol quando se despediram, passaram na Gorete, que ofereceu torta de frango e refresco, e levaram para casa os menino, onde Milagres recebeu a todos afetuosamente. Igor foi dormir pensando: emprego normal é mesmo coisa de otário?

Bicho Solto 2

fevereiro 26, 2021

Caraca maluco, terceiro pão que tu come. E qualé o problema? Ei vocês dois, se comportem. Faz um favor pra mim, os dois, vão levar os menino na Gorete. Termina, lava a louça e vai. Sem reclamar. Hoje a agenda tá cheia. Os menino era o Jonata de cinco, que tomava banho, e o Miguel, que não fazia muito que andava e estava preso no cercadinho improvisado. Saíram juntos, mas Milagres descia pro asfalto e a Gorete morava no topo do morro, perto do promontório. O dia estava nublado e o calor era menos, Igor deu a mão ao pequeno e Lelo brincava com um ioiô, de olho no outro. Passaram por um menino descalço que vendia sacolé, e o irmãozinho começou a pedir, então chegaram lá em cima chupando os saquinhos coloridos. A Gorete estava esperando, ofereceu bolo e café adoçado, os pequenos ficaram e então Chulé e Lelinho naturalmente foram até a pedra fumar um matinal. A chuva parecia iminente.

Desta vez foi o Chulé que dichavou uma pedrinha, na palma da mão, processo rudimentar e demorado, mas iam conversando. O mais fácil é roubar correntinha, ou bolsa; um olha se tem polícia, o outro dá o bote e sai os dois correndo, mas o melhor é passar uma mulher. Já é. Vamo lá no Largo da Carioca, muita gente passando. Muita polícia, cria. Se alguma coisa der errado, cada um sai correndo prum lado e a gente se encontra meia hora depois na Cinelândia. Eu não conheço esse pedaço, objetou Lelo. Vai conhecer. Tem uma seda aí? Ih, malandro, nem tenho, tu também não tem? Ficaram desnorteados com o impasse por um tempo. Talvez seja melhor fazer essa função careta. Besteira. Iam descendo quando um grupo chegou, pareciam turistas, e descolaram uma seda, daquelas gringas mesmo. Chulé mostrou que rivalizava com o amigo no ofício de fazer um belo baseado, e acendeu sua obra de arte. Aí, maluco, hoje à noite a gente tá aqui de volta com a missão cumprida. Tomara, primo. Antes do meio do baseado as gotas começaram a precipitar, e tanto eles quanto os turistas tiveram que se abrigar no bar mais próximo.

Parando a chuva eles desceram pro asfalto, até a estação de metrô. Olharam em volta e pularam a catraca, metendo-se no trem até a Carioca. Alguns passageiros reagiam à passagem deles, com uma careta ou apertando a bolsa, mas aquilo era o de sempre. Uma velhinha branca ofereceu esmola, e foi melhor aceitar constrangido. Descendo na Carioca havia uma feirinha, eles ficaram olhando. Lelo parou numa banca de livros, ele se lembrava quando a filha do patrão lia histórias pra ele, mas nunca aprendeu a ler. O outro o despertou do transe e o convocou para se postar num lugar conveniente. Havia uma caixa de telefonia, então Chulé deu as instruções: eu fico olhando as madames e se tem polícia, e você fica atrás da caixa, quando tiver uma vítima eu jogo uma pedra na caixa e você tenta roubar a bolsa. É ruim, hein, vai você. Não tinham combinado esse detalhe. Vai você, se der errado a próxima sou eu. Tá bom, vai. Qualquer coisa, já sabe, na Cinelândia. Não pode ser uma bolsa grande. Tudo bem. Depois de alguns minutos passou uma coroa, sozinha. Chulé jogou a pedrinha e Lelo deu um impulso para ir atrás dela, mas chamou a atenção da mulher, que se virou e começou a gritar socorro e ladrão. Cada um disparou num sentido como combinado, ofegante e assustado mas ligeiramente excitados com a aventura.

Lelo teve dificuldade de achar a Cinelândia, tentava pedir informação e viravam a cara pensando que era esmola. Quando reencontrou o amigo, ainda foi repreendido: não é pra pular assim feito um boneco de mola! Ah, é, então vai você, então. Tu vai ver. Melhor achar outro lugar, vamos aqui pelo lado do aterro, Chulé ainda comandava. Andavam pelo jardim e pouca gente circulava, mas de repente vinham lá o que pareciam avó e neta, totalmente frágeis. Chulé disse à meia voz: é essa aí. Mas a velha já estava ressabiada, e quando Chulé tentou puxar sua bolsa ela resistiu, derrubou o ladrão atrapalhado no chão e começou a bater nele com o próprio objeto do roubo, a neta contribuindo débeis pontapés. O amigo já ia longe quando ele conseguiu se desvencilhar, e depois de fugir na direção contrária feito um azougue, foi até o ponto de reencontro. Não era fácil? provocou Lelo. Você devia me ajudar, não correr! O combinado era correr. Sem chance, a gente precisa de uma peça, malandro.