Gratinar o delírio

fevereiro 18, 2019

É um promontório rude aquele que consome a sombra, fazendo-se passar por moluscos débeis, quando o fito da folha era apenas gratinar o delírio e desviar de meteoros. O soro da vírgula completa o cubículo, de modo que os ângulos praticam natação antes mesmo de aprovado o pássaro. Nem mais nem menos. Nem a marcha das artérias chega a ser indicativo da páscoa, nem bola de gude é remédio pra coceira, isso qualquer poodle sabe. Ainda não inventaram a máquina de sugerir amêndoas, mas enquanto o sítio é triste o transeunte transpõe o Báltico, já pensou? E de cócoras? A precisão das janelas escorre por cima das nuvens, permitindo ao menos ao dinossauro uma chance de eleger os mendigos. Era tudo um truque. O resto do vitupério convoca as traves da convalescença como quem derretesse os gases ou conseguisse uma vaga. Perdão pela insistência, é que drama é frígio, quase um astronauta latente, e isso exige uma comissão. Quer dizer que qualquer abóbora biliosa revira a vértebra da víbora sem que o inevitável frutifique? Será que o perdão das plantas não é mais que a tagarelice das rotas mais inconspícuas? É melhor levar um casaquinho.

Acaba Mundo CCXXXVII

fevereiro 17, 2019

Hoje são dezessete de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Eu reconheço que tenho sido preguiçoso para acompanhar a programação cultural da metrópole – e agora que vou-me embora dá uma pontada de culpa – mas devo dizer que há tempo não via um show de lavar a alma como foi Natureza Universal com Hermeto Paschoal Big Band. A bem da verdade eu já vira, com o velho camarada Campeão, mas cheguei atrasado, fiquei num lugar péssimo, a casa era um lugar péssimo num lugar péssimo, e o nosso querido albino se perdeu num falatório interminável, de modo que a experiência foi severamente comprometida. Desta vez foi no Sesc Pinheiros, bons assentos, e o velho camarada André por parceiro. À esquerda do palco, o canto do mestre com um tecladinho, de timbre duvidoso, escaleta e alguns objetos, além de discretos piano, baixo e guitarra. No fundo, Kléber na batera e Fábio Paschoal na percussão, quebrando tudo. André Marques, que comentou sobre estar há vinte e cinco anos com Hermeto, e com aquela cara de moleque, regia, e à direita do palco lá estavam um naipe de cinco saxofones, um de cinco trombones e outro de cinco trompetes. Todos executaram com brilhantismo os brilhantes arranjos, e “quase todos”, como alfinetou o velhinho, improvisaram solos com segurança, sendo que Hermeto fazia apenas intervenções pontuais. Da outra vez, ele comentou que esses temas existem há muito tempo, haviam sido executados apenas no exterior – se na gringa ou na europa não me lembro – e só agora ele pôde montar o projeto e gravar o disco que ganhou um Grammy Latino. Longa vida ao Hermeto e à música universal.

Acaba Mundo CCXXXVI

fevereiro 16, 2019

Hoje são dezesseis de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Não posso mais passar o dia vendo rede social. É muita carga negativa que fica voltando todo o tempo. A ditadura está endurecendo. Interventor militar na Federal Fluminense. Enquanto se perde tempo com o comportamento de um bufão, os elefantes vão passando. Igual nos EUA. Ou pior, porque aqui o que está por trás da máscara é gente capaz de coisas que lá seriam escandalosas. Anos de chumbo se anunciam. Além de me poupar de ficar todo o tempo revirando a merda, eu preciso reconhecer que rede social é um vício para se somar a tantos outros, é uma busca por atenção idiota, e é participar de uma gincana que eu mesmo critico. Pensar a melhor piadinha a fazer a cada passo da ópera bufa já parece inadequado, senão repreensível. A energia que temos gastado na lacração e no comentário sardônico vai fazer falta. Boulos vem sofrendo ameaças e intimações judiciais claramente persecutórias, e já aposta na própria prisão. Ante todo esse cenário eu prefiro me afastar pelo menos do twitter; vou acompanhar os principais temas no fecesbook, que ao menos tem umas coisas engraçadinhas e completamente alienadas para compensar. Tá foda, meus camaradas.

Acaba Mundo CCXXXV

fevereiro 15, 2019

Hoje são quinze de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Todo mundo adorando ver a casa do bozonazismo pegar fogo ontem se deu mal: operação panos quentes mantém o secretário e manda oficialmente se calar o Bozokid C. As notícias anunciaram que a “ala militar” se articulou para reduzir o mal estar; e se você falar por aí que vivemos numa ditadura, é capaz que te ponham num hospício. Mas quer saber? Deixa essa malta, essa súcia, essa camarilha fazer suas maldades, já que eu não vou poder impedir, quero contar uma novidade quente da minha vida: acabo de descobrir que terei uma bolsa da capes para o doutorado. Dá uma sensação de que meu trabalho vale alguma coisa, já que até aqui eu tenho só passado ridículo tentando interessar os outros nas minhas traduções. E dá pra comer uns tira-gostos com duas mil e duzentas merrecas por mês. Vou compartilhar com o leitor eventual uma ideia que anda fermentando aqui na cuca: fazer vídeos apresentado e comentando as peças do bardo, juntando-me assim à mais atual sensação no mundo da comunicação, que é o tal do youtuber, praticamente o novo “jogador de futebol” na nossa sociedade, mas sem pretensão alguma de emplacar um sucesso de “views”, como dizem, só tentar incentivar a leitura e revisitar as peças para meu próprio proveito. Bem, esse era eu. Trump decreta estado de emergência para construir seu “muro”, que é uma cerca e não cobre uma ínfima parte da fronteira, de modo que para que serve vai saber. Segurança mata jovem com mata-leão no Rio, não sem antes mandar calar a boca quem o alertava que a vítima sufocava; já está solto sob fiança e sendo defendido pela turma da “caveira”. É por isso que um só dia sem ver notícia faz um bem danado. Acaba mundo.

Contornos Díspares

fevereiro 15, 2019

É como se as algas se conformassem com os costumes dos contornos díspares, sem que mesmo a mágica contribuísse ao dissenso dos doces, ou as torres tagarelassem ante o imbróglio. Não vai adiantar nada repetir as raízes, nem acalentar quantas caixas de fósforos for. Quando a soja assopra, a pronúncia perde a pertinência, e a cantilena cósmica sequer indaga à gárgula o resultado da xícara. Pudera, a presença da sístole no contexto da conjectura mais vítrea impede a tessitura da calçada de tocar trompete. Assim sendo, o custo do susto sossega a acelga sem passear com a serpente, que de fato nunca escolheu concorrer à vagem. Tenha em mente que as miçangas fumam, que a alavanca leva séculos para destrinchar uma gotícula, e o conhecimento releva a luva. Qualquer coisa me liga.

Acaba Mundo CCXXXIV

fevereiro 14, 2019

Hoje são quatorze de fevereiro e o mundo não acabou. Eu podia nem comentar política estando de alma lavada após um dia na Praia do Félix, mas é que as notícias tiram mais ao cômico que ao trágico. A dondoca da Cantanhede cometeu um faux pas e disse em áudio que Bozonazi tomou sua última dose de quimioterapia; não devia surpreender ninguém, já que ele é atendido pela equipe de oncologia. Se foi facada, aliás, são muito incompetentes esses médicos do Einstein que não costuraram ele direito da primeira vez, além de que seria mais lógico tratar de um trauma lá onde ele estava mesmo em Minas. Depois da treta das candidaturas laranjas, o bozonazismo se indispõe com a direção do partido que acolheu o “outsider” poucos meses antes da eleição, e do leito do hospital nosso digníssimo acendeu a frigideira de Bebianno, seu secretário executivo. O próprio disse que não era nada, tinha conversado com o patrão, Bozokid C o chamou de mentiroso, Joice acusou o Bozokid de semear cizânia (a palavra é minha, ela não a tem no vocabulário por certo), e consta que o secretário ameaçou que Bozo cairia junto, sem esquecer que o presimento criticou publicamente o comportamento do vice. É engraçado que às vezes a gente acha que certos lances difíceis de entender são táticas altamente elaboradas de diversionismo mas fica cada vez mais claro que eles não sabem que merda estão fazendo em momento algum. Não dá pra rir muito porque desmoronando o bozonazismo seguem os milicos sem máscara alguma ou se edifica qualquer outro simulacro de governo democrático e legítimo. O supino tribunal federal vai votar a criminalização da homofobia; criminalizar o racismo não o minorou em nada, parece que piorou recentemente até, e a discussão sobre a conveniência do punitivismo é uma bem interessante. Meu palpite é que eles arranjem para quase passar, com discursos acalorados na tv para acalentar as vaidades judiciárias e ficar bonito pra plateia. Acaba mundo.

Acaba Mundo CCXXXIII

fevereiro 13, 2019

praia-domingas-dias-em-ubatuba-spHoje são treze de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Todo dia é tanta coisa que a sensação é que, mesmo com vários acréscimos ao longo do dia, sempre algo está ficando de fora. Ao mesmo tempo já me prometi não me perder no miúdo e acabar fazendo apenas um sumário das polêmicas. Eu me lembro quando tirava uma coluna para recomendar um livro ou homenagear um amigo que já se foi, e agora é essa urgência de reportar a implantação da distopia tropical e mais nada. Vivendo ainda mais como um misantropo, dificilmente algum outro assunto, algum assunto banal, preenche alguma parte do dia. Mas suspeito que não seja o único. Como eu sou um privilegiado seja ao dispor de meios ou poder dispor de meu tempo, ainda posso simplesmente decidir passar uns dias na praia, e é o que eu fiz. Cá me encontro em Ubatuba, alheio, o mais que possa, ao pandemônio social e institucional que impera. Só de escantear um pouco a internet já pude retomar a fascinante leitura de Syphilis in Shakespeare’s England, meio que descansar carregando pedra, como diz meu pai, porque é parte de um projeto futuro de um livro sobre sífilis na obra do homem de Stratford. Estava pensando nos meus projetos e apetites intelectuais na estrada. O que me parece mais promissor é a paródia de Hamlet, e depois da oficina com o JP Cuenca eu até tenho me levado mais a sério como escritor, e já estou pensando em submeter dois volumes de prosa curta. Também tenho um sonho de estudar o humor, que já abordei no mestrado; arrogância ou não, achei a literatura que apresentei bem superficial, queria ver os escritos mais recentes e quem sabe um dia mergulhar de cabeça no tema, contrapondo a estrutura lógica e a camada semântica, para lá na frente elaborar um esboço de taxonomia dos recursos cômicos e por fim um dicionário desses recursos em Shakespeare. Isso e as traduções que não pretendo parar de fazer, é claro. Mas antes é preciso virar dotô e mordiscar um posto na Cadimia, caso ela ainda existir, para que alguém afinal me pague para viajar em todas essas maioneses. Segura um bocadinho, mundo.

Locomotivas torpes

fevereiro 13, 2019

Loco18-thumb-600x469-16298Os mais sutis conglomerados de intermitências, em conluio com a contumaz facécia dos silvos sépticos, acaba de escarrar locomotivas torpes, na localidade abstrata dos últimos sustenidos suspeitos de tropeçar nos cumes da gangrena oculta. E nem adianta processar a presilha, já que a suave comoção das placas de trânsito prenuncia a germinação precoce do último boteco aberto a uma hora dessas. Melhor duvidar das libélulas quando as arapongas mastigam chiclete sob centelhas céticas. Evita o feixe de fístulas antes que o salgueiro ponha em xeque a centopeia assimétrica, pois os juros sabem a cebola, e nem precisam apaziguar a amônia quanto à sensatez do claustro. Até um cadeado de bicicleta seria capaz de ferver um átomo, o problema é que no oco da consciência há sempre um vestígio das vagas, lá onde se esconde o rufo das feras. Nem as migalhas podem esclarecer todas as estrelas do céu da boca.

Acaba Mundo CCXXXII

fevereiro 12, 2019

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Hoje são doze de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. O pessoal tá todo reclamando de exaustão, e o ano mal começou. Incêndios: em outro clube de futebol, o Bangu, em fábrica de velas no Rio, em Belo Monte, na Índia e sei lá mais onde. Operação policial no Alemão. Ricardo Boechat e dois tripulantes morrem em queda de helicóptero. Eu não acompanho nem rádio nem TV, e tinha uma impressão negativa do jornalista, para mim mais um animador de plateia; agora relembram absurdos que ele disse como menosprezar o assassinato de Mestre Moa no dia do primeiro turno. Na véspera da morte ele destratou uma trabalhadora ao vivo. Pululam as hagiografias de sempre e também o achincalhe, tanto de esquerdopatas quanto de bolsominions. A mim pouco importa gente que locomove de helicóptero, na verdade. Pra piorar ele tinha ido fazer palestra em evento corporativo, que é algo que eu abomino, me lembra de quando eu estudava engenharia. Escola militarizada no DF manda apagar imagem e frase de Nelson Mandela, e o sinistro contra o meio ambiente, aquele condenado por crime ambiental, afirma no Roda Viva que Chico Mendes é simplesmente irrelevante. Partido do Bozo segue se complicando e aponta gráfica onde não há nenhuma máquina; “pode me chamar de mentiroso”, disse o Bivar: mentiroso. Segunda condenação de Lula se baseou em prova forjada na delação/coação premiada; isso já nem muda nada; até a sentença foi um plágio disfarçado daquela do Sarraceno. Canetada tira 600 bilhões do INSS; eu achei que era falso, mas parece que não é. Tempo atrás eles ainda inventavam nomes bonitos como “desvinculação”. Pai do chanceler tentou impedir extradição de nazista que fugira ao Brasil, revela-se. Tanto os postos públicos quanto o fascismo são hereditários em muitas boas famílias brasileiras, como os Thompson Flores e Araújos da vida. Que caralha. Vamos adiante ver esse fenômeno colapsa sob o próprio peso, ou se o parasita mata o hospedeiro de tão virulento. Sei lá. Nem pra aparecer uma geração promissora em reação à infecção, como parece ser o caso na gringa. Ciro indica nome para ajudar desmonte da previdência e se diz vítima de conspirações de Lula, a quem declara finalmente como inimigo. Precisando de mar, e de desintoxicar de notícia. Acaba mundo.

Acaba Mundo CCXXXI

fevereiro 11, 2019

fcpzzb_abr_070120192595Hoje são onze de fevereiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Governo quer “permitir” que jovens “optem” por abrir mão de férias e décimo terceiro, vale-transporte e vale alimentação vão puf! sumir; e isso ainda seria enxertado na reforma da previdência escancarando a bazófia institucional. Enquanto ela não passa, decreto facilita cancelamento de benefícios. Começam a ser expostas as barragens que oferecem perigo, algo que após Mariana já era o mínimo, e uma das cidades ameaçadas é Congonhas, patrimônio da Unesco. Vergonha de ser esquerda neste país e ver os católicos meterem mais medo na ditadura do que nós mesmos. Agora o bozonazismo apelará à Itália de Salvini et caterva para intervir no sínodo sobre a Amazônia no Vaticano, e deve provocar um belo incidente diplomático. Quem sabe não é deliberado para desviar as atenções das sujeiras domésticas? Milicianos torturam equipe jornalística no Rio; provavelmente o fazem para demarcar território e anunciar a “nova era”. Escola “sem partido” abertamente conclama suas hordas a processar professores. Mais uma candidata laranja no partido do bozo e seu presidente garante que política não é coisa de mulher. Do tal ministro do turismo acusado pelo esquema, de quem o Sarraceno disse “a gente vai ver”, nem se fala mais. Governo promete retirar tarifas de proteção ao leite e abrir nosso mercado a excedentes subsidiados, asfixiando o produtor; eu, quando pequeno, tomava leite em pó holandês, e lá vem a mesma coisa de volta. Protestos na França vão decaindo assustadoramente para o antissemitismo, e arrisco dizer que venha tanto da direita quanto da esquerda. Acaba mundo.