À Beira da Cama

agosto 17, 2018

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O sol ia alto àquela hora, e sua luz, filtrada pelas cortinas, me ajudava a decifrar as linhas do romance, o qual eu poderia mesmo terminar de ler, em sua extensão bíblica e sinuosidade de linguagem, antes que o mínimo  lampejo de energia me incitasse a me levantar, me vestir, calçar os sapatos, ajeitar o chapéu, recolher uns poucos objetos e metê-los na valise, e então abrir a porta e tomar o elevador, caminhando enfim até a recepção, onde a conta poderia ou não ter sido paga pelo noivo que desapareceu enquanto eu dormia.

Acaba Mundo XLVII

agosto 16, 2018

catedral-da-se

Hoje são dezesseis de agosto de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Não chega a ser o fim do mundo, mas roubaram minha bicicleta. De fora da Biblioteca Mário de Andrade, como se não tivesse cadeado algum. Vou comprar logo outra, porque estou curtindo me locomover em São Paulo de magrela. Às vezes você se acostuma a andar de metrô apenas e nem sabe onde as coisas ficam, só como chegar. É legal cruzar a Paulista, descer a Consolação e descobrir-se no Centro, Minhocão, República, Sé, Liberdade… sendo que esses locais eram entidades mais ou menos autônomas na sua cabeça. Hoje também retomei o curso de crônica com o Cuenca, o mesmo que foi, uns dois meses atrás, de fato um estopim para voltar a escrever depois de muito tempo. Ontem eu não comentei, mas uma bonita multidão vermelha tomou Brasília em apoio à candidatura natimorta do Lula. Ele merece apoio, mas a minha impressão é que o país vive um estado de exceção, mas tudo deve ser posto em termos de amar ou odiar o Lula. É raso. Sempre foi raso, mas agora, as consequências de agir sem fazer o debate correto são as mais funestas. Mas ora vejam, pontificando de novo, Leonardo! Acaba com isso! Acaba mundo!

Os Grandes Medíocres de Todos os Tempos

agosto 16, 2018

lavrador

Utk-Tukt carregou água nos tempos áureos do império assírio. Utk não conquistou nenhuma vitória militar, não era capaz de gravar tabletes de argila como os prestigiados escribas pagos a ouro pelo governo, nem produzia alimento, é verdade, não ceifava trigo, não criava gado. Mas por quarenta longos anos vários generais, escribas, e fazendeiros precisaram da água que Utk trabalhava trazendo do Tigre. Nunca um tablete de argila foi inscrito em nome de Utk-Tukt.

Proteidoron obteve um terceiro lugar no lançamento de disco nos jogos olímpicos. Retornou então a sua rotina de carregar o pai aleijado todos os dias até o mercado para vender tâmaras. Nas horas vagas, Proteidoron ensinava os jovens da vizinhança a ler e escrever. O homem abrigava os famintos de Atenas para um prato de sopa quente. O primeiro lugar no lançamento de disco ganhou uma estátua em sua homenagem, e vivia de ser bajulado.

Wei Chong era escada de um palhaço de circo famoso na Dinastia Ming. Enquanto seu patrão fazia rir e recebia convites para jantares, Wei vivia solitário e pobre. No tempo livre, no entanto, Wei Chong copiava a poesia dos mestres em delicados ideogramas de tinta preta no papel nobre. Fez isso por mais de trinta anos, e quando a Biblioteca Imperial enfim incorporou as quase vinte mil obras encontradas em seu cubículo quando de sua morte, nenhum crédito jamais lhe foi dado.

Huacacaua foi um mensageiro no tempo da civilização Inca e percorreu enormes distâncias, subiu morros e montanhas, atravessou água e gelo, portando mensagens dos governantes na memória. Huacacaua não podia ter uma esposa, pois nunca parava, não podia ter uma casa pelo mesmo motivo, e carregava a sua nas costas. Sacrificava-se pelo império e satisfazia-se com a paga pouca, vivia feliz por conhecer toda a região. Uma vez, em plena missão, Huacacaua tornou-se o primeiro inca a travar contato com espanhóis. Pareciam criaturas extraordinárias, em roupas pesadas e extremamente sujos. Mas eles sinalizavam que queriam conversar, e à medida que Huacacaua tentava interpretar os gestos e gesticular de volta, ficava claro que os invasores queriam comprar o auxílio do mensageiro contra o próprio povo, exibindo as bugigangas que seriam seu prêmio. Os incas foram derrotados pelos espanhóis no fim, mas não foram traídos pelo mensageiro Huacacaua, que correu o mais rápido que pôde para alertar as defesas de seu povo.

O mujique Drobniv cuidou dos estábulos do exército russo durante a campanha de Napoleão. Várias vezes transferido à medida que a linha mudava, os cavalos que iam à batalha, boa parte deles, passavam pelos bons cuidados de Drobniv. O que pouca gente sabe é que na batalha decisiva o general russo ordenou a Drobniv que ferrasse os cavalos com cobre, mas ele sabia que na neve os cavalos deveriam ir sem ferradura. Então, desobedecendo a ordem do general, ele garantiu que a Rússia vencesse o megalonanico narigudo que queria dominar tudo.

O pacato Schleigermüster viajava a maior parte da atual Alemanha vendendo seus queijos. Dessa forma, ele conhecia todos os dialetos de alemão que existiam. Sendo seus queijos muito populares na Prússia, Bismarck, conhecendo sua proverbial facilidade com os dialetos, mandou chamá-lo a uma entrevista. A partir daquele encontro, por dez anos Schlegermüster deixou de fabricar queijos e auxiliou o chanceler. Apenas quando a unificação da Alemanha estava garantida o queijeiro foi dispensado para retomar seu antigo ofício. Como vemos, embora Bismarck seja célebre pela unificação do país, isso não seria possível sem o queijeiro Schlegermüster.

Jaílson foi lavrador. Seu pai obteve a gleba no programa de reforma agrária, e desde cedo Jaílson aprendeu o ofício que teria até aposentar-se aos sessenta dois anos. Milho, beterraba, rúcula, tomate, feijão e batata, e mais: de segunda a segunda e de sol a sol Jaílson produzia comida que era levada para a cidade por alguém que ganhava muito mais que ele. Com a lavoura Jaílson sustentou mulher e dois filhos, e não realizou feito algum para além de sua labuta. Como milhares e milhões de medíocres que foram muito mais importantes do que os laureados para suas comunidades.

Uma Diatribe a Mais

agosto 15, 2018

info

formação a vida toda. Bebi música, bebi literatura, bebi artes plásticas, bebi notícias, bebi opiniões e análises, bebi páginas de internet e me embriaguei em redes pseudo-sociais. Me sinto encharcado. Não precisava disso. Ninguém precisa. A vida é algo  muito simples, é manter-se vivo e tentar não esquentar a moringa. A gente tá sempre se cobrando, devia ter ido mais longe a esta altura, devia estar ganhando mais, devia estar casado, devia ter publicado um livro, feito um filho e plantado uma árvore. Não é sua obrigação fazer nada, deixar nada, destacar-se em nada. Não é sua obrigação fazer o pacto do Dr. Fausto e vender a própria saúde mental para ter um conhecimento impressionante, uma vez que o preço de encher a cabeça de ideias é enchê-la de minhocas. E estragar as vistas. Ninguém pode com tanta informação. Isso nos envelhece precocemente, tenho certeza. É como a lei da relatividade restrita psicológica: o tempo se comprime e num dia vivemos um mês inteiro de informação como eles eram não mais que vinte anos atrás. Será a internet causa ou sintoma? Vou usar a internet pra falar mal da internet? Eu até posso. Mas falo mal é de mim mesmo. Quem fica diante da tela por horas sou eu. E um monte de gente. Acompanhar os acontecimentos políticos é como passear numa montanha russa de manutenção duvidosa. E parecem nos manter sempre em suspenso, imaginando qual vai ser a próxima vez em que quase dispararam uma bomba atômica, a próxima vez que um conflito global vai ser deflagrado. Enquanto isso, um bombardeio de acontecimentos banais alçados à sensação. Enfim, que importa toda esta diatribe? Eu digo, para encerrar, que estando desta forma encharcado, me sinto sem o mesmo ímpeto para buscar coisas novas, música nova, escritores da atualidade, frequentar cinema, explorar serviços de filme na internet, nada. Preciso torcer a mim mesmo e, como Hamlet diz de Rosencrantz, ficar seco de novo. Preciso de um mês na praia.

Acaba Mundo XLVI

agosto 15, 2018

afro

Hoje são quinze de agosto de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Hoje eu encontrei o André, um amigo da Unicamp que enfrenta um problema de saúde, e nós fomos ao Masp ver a exposição Histórias Afro-Atlânticas. Na entrada eu me deparei com uma conhecida. Uma que eu já tinha pensado em chamar para sair. Ela certamente já manjou isso há muito tempo, e manda aquelas indiretas para me dissuadir. Hoje ela disse que estava grávida bem no momento em que eu quase me decidia a tentar a sorte. Sobre a exposição, me pareceu uma coleção de olhares europeus sobre negros salpicada de artistas negros para representar, mas talvez essa tenha sido a impressão com a primeira das salas e estou sendo injusto. É uma boa exposição decerto, mas não será daquelas que marcam época. Quanto ao André é um grande camarada, é professor da USP-Leste e a gente nunca ficou muito tempo sem se falar, ou mesmo se ver, desde mil novecentos e noventa e nove, quando ninguém fazia ideia que o mundo ia acabar. Uma vez eu pisei na bola com ele: tínhamos tomado chá de cogumelo num grupo de quatro, ele saiu para beber água, começou a demorar e eu decidi que sairíamos dali e que ele não teria dificuldade em nos achar. Ele nunca nos achou, voltou pra casa numa puta bad. Por isso eu digo, amiguinhos, união na hora da trip. Não se deixa ferido no campo de batalha. Mais do que isso é só esperar que o mundo BUM.

Inércia Impotente

agosto 14, 2018

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Deus me livre desta inércia impotente.

Você não era ateu? Vai ter que sair dessa sozinho.

Mas o que está a meu alcance fazer? A inércia é impotente, esqueceu?

Você não escreve? A pena é mais forte que a espada, não dizem?

Que piada, mesmo quem escreve bem e é publicado não vai mudar nada porque aqueles que mais precisam ler e acordar das ilusões do senso comum não têm nem hábito de leitura nem repertório para assimilar o texto mais banal. Essa função didática da literatura também já foi rechaçada o suficiente.

E jornalismo, você podia se formar em jornalismo e se lançar à trincheira.

Você sabe que a epítome do sucesso em jornalismo é virar pena de aluguel que nunca pode dizer o que pensa. O jornalismo opinativo na prática é coisa do passado. O que se vê hoje é jornalismo palpitativo, o que é muito diferente. Outro dia detectaram plágio via tradução automática.

E o partido? Você não tem um partido, volte a se envolver.

Tenho preguiça. Eles ainda são dominados por uma retórica moralista. Podem até abraçar as causas certas, mas no fim do dia é cansativo. Além disso, eu tive alguma experiência. E é como todo microcosmo, pessoas assumem os mesmos papéis, pessoas se comportam excessivamente como pessoas. Eu não consigo acompanhar. Meu lema de vida na verdade é “Dividido entre o idealismo socialista e o niilismo misantropo”. A misantropia tem prevalecido, até porque o idealismo socialista hoje é mais um realismo pessimista.

Então o que você deve fazer é abrir um canal de youtube, esse tipo seu tem apelo, apocalíptico.

Muito engraçado. Eu não conseguiria manter a atenção de um adolescente se eu não comesse uma bolacha com pasta de dente ou algo assim. E no fim que adianta ficar jogando mais e mais conteúdo na internet, e ainda mais, vai ficar lá pra te constranger depois. Imagina começar a ser visto, virar uma figura pública, ter odiadores, não me serve.

Então faz Direito, você é jovem. Eles precisam de juristas com as suas ideias.

Amigo, um tempo atrás eu tentei arrombar a porta de vidro da cozinha porque estava sem chave e quase arrebento todos os tendões do braço, essa não foi uma ideia das melhores, não acha? Ninguém quer nada com minhas ideias. Ademais, eu não chamo nem idoso de senhor, não sirvo para esse meio cheio de formalidade. Eu sempre detestei direito, por que estou sequer argumentando?

Então lidere a luta armada, pede ao Putin que mande umas kalashnikov.

Você está hilário hoje. Nem no videogame eu gosto de dar tiro.

Planeje o sequestro do embaixador. Sabote os computadores do governo. Fraude as eleições.

Tá bom. Acho que a coisa mais revolucionária que a gente pode fazer agora é almoçar.

Acaba Mundo XLV

agosto 14, 2018

bannon

Hoje são quatorze de agosto de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Achando que nosso grotesco estava trágico por demais, os deuses do Jaraguá resolveram jogar mais uns tons de ridículo. Cabo Daciolo aparentemente meteu na cabeça oca que os Illuminatti têm sua cabeça oca a prêmio, e foi se refugiar e jejuar no alto de um monte. De absurdo em absurdo, o fanático vai ganhando exposição, se por cálculo ou descontrole completo já é difícil de dizer. Os guerreiros de twitter, nesse tempo, querem a responsabilização das autoridades do judiciário golpista pelas mãos das autoridades do judiciário golpista. Só o MST se mobiliza para marchar no chão real, e o Perez Esquivel se junta a eles. No plano internacional, figuras como Ken Livingstone, trabalhista britânico, mandam mensagens, mas não sei até que ponto há jornalistas noticiando o rol de ilicitudes estatais persecutórias que temos vivido. Estando o mundo todo beligerante, vai ter um “lado” que pode se importar e outro “lado” que quer mesmo comunista na cadeia, faça isso algum sentido ou não. E cá entre nós, quem quer levar nosso país a sério se a imagem que projetamos é de terra da fantasia tropical, e país das travestis, ou da depilação com cera, de um tempo para cá? Basta ver a cobertura de geopolítica, mesmo do Diplo, mensal de esquerda francês, nós quase nunca somos mencionados, e a verdade é que o enjeux geopolítico mais crucial de hoje se dá em torno do Brasil: os EUA querem retomar o aperto em seu continente e sabotar os BRICS. E mesmo aqui mal se fala disso. É como se fosse um jogo entre determinadas personalidades, boas ou más. Mas alguém sabe da importância do nosso país, pelo menos: Steve Bannon, o cara que inventou Trump com técnicas cibernéticas, veio se encontrar com Eduardo Bolsonaro (terá vindo no avião oficial com o Mattis?). Some a isso a impressão que tem passado a elite local de abandonar o chuchu e desembarcar no capitão, o que eu já alertava há tempo, e bem, façam vocês a aritmética toda. Eu só queria entrar na cabine e encontrar a urna dizendo FIM, e confirmar. Acabou-se o mundo.

Acaba Mundo XLIV

agosto 13, 2018

US-INDONESIA-DEFENSE

Hoje são treze de agosto de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Num episódio anterior, comentei sobre as aeronaves estadunidenses pousando em Manaus. A nota, espartana, vinha de um veículo local, e não foi tratada pela mídia tradicional, o que pode significar tanto que era falsa e eu caí como todo internauta de gatilho fácil no teclado quanto que a informação é tão verídica que que os veículos lacaios do consórcio golpista não poderiam mesmo noticiar. O que faz pensar sobre a divisão de responsabilidades pelo ambiente de pós-verdade, geralmente atribuído a grupelhos de internet, sejam sinceros ou de aluguel. Seja o que for, eis que agora aporta em solo brasuca o chefe militar dos godemes, James Mattis, para fiscalizar a entrega de um país por breves anos soberano, dono de suas escolhas, goste-se delas ou não, de volta à subserviência abjeta aos donos do continente. Pois é justamente por estar definhando em termos de superpotência global – recado do general: afastem-se da China! – que os EUA precisam apertar o torniquete na América Latina, nós sendo obviamente o cliente mais importante no bloco. Se a visita aponta uma ação contra a Venezuela, o tempo vai dizer. Nem atentado por controle remoto tem funcionado, então por que não pôr tropas no chão? Ocorre que esse chão é a Amazônia (e um enorme maciço cristalino), o que por si só já afasta em grande medida essa possibilidade. A menos que a missão seja mais de prospecção do terreno, de reconhecimento dos potenciais geológico e genético. De qualquer forma, mesmo que os piores medos não se concretizem, não há motivo para crer que boa coisa se avizinha, sabendo que vivemos uma plena ditadura – muito pouco acusada com todas as letras – e que os ianques querem deixar clara a tutela. Faz pensar se tem sentido debater eleição. Mas até aí, qual é a alternativa? Luta armada? Cada um leva o laptop pra praça pra enfrentar a polícia? Pelo verbo é difícil, providenciaram que o ruído fale mais alto, e mesmo muita gente que acusa o golpe, talvez mais preocupados com um partido do que com o país, não sai daí, do nível do ruído, da gincana macabra. E mesmo que alguém se faça ouvir, quem quer escutar? Podia acabar tudo de uma vez.

Quarto Olho 4

agosto 13, 2018

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Ruana saboreou o café e celebrou mentalmente o primeiro sucesso. Mesmo não podendo ver o palco dali, dava pra entender que a banda o estava deixando em definitivo. A última música foi um clássico do século XX, alguma coisa Valença o compositor. A ambiciosa morena nem ligava tanto de perder uma parte importante da apresentação, pois a RV seria lançada em breve. E ela mesma estaria na experiência virtual de um monte de gente. A invasora sabia de antemão de onde os músicos sairiam do palco e por onde entrariam nos camarins, e ela não teria como deixar de vê-los. Aproximou a carteira do chip para pagar o café e entrou no banheiro ao lado. Enquanto o público usava repugnantes banheiros químicos, aquele da produção era não só limpo como luxuoso, e essa era a expectativa de Ruana: encontrou um par de toalhas limpas e voltou ao pátio no exato momento em que Carla Z e Déa Dia desciam a pequena escada que as trazia para um merecido descanso, ou muitos excessos segundo diziam as histórias, após duas horas de boa música. A jovem heroína aproximou-se, oferecendo as toalhas. Seu nervosismo era enorme, mas não transparecia, o neuromax fazia cada passo dela o movimento dum mecanismo bem ajustado. Déa estendeu a mão e pegou uma toalha, então Carla pareceu constrangida a fazer o mesmo. Este era o grande momento da breve vida de Ruana, e ela precisava conduzir tudo com calma até seu objetivo.

Parabéns pelo show, foi fantástico, arriscou. As duas agradeceram sem se deter. Ela seguia à distância enquanto as musicistas se encaminhavam para os camarins. Neste momento, Toni, Lelo e Grudi estavam descendo do palco e na outra direção Ruana viu o que temia: pareciam procurá-la. Num movimento ágil, ela se antepôs a Carla e Déa, e abriu a portinhola do espaço reservado à banda para que o casal entrasse. As duas ficaram entre achar aquilo excessivo e atribuir o entusiasmo à juventude da admiradora. No entanto, o crachá que ela se esforçava em manter virado estava na posição correta, e Déa percebeu. Este crachá é de um homem! Calma, eu explico, e nisso quase empurrou as artistas para dentro e fechou a portinhola atrás de si ao entrar ela também. Eu sou super fã de vocês, eu dei um jeito de chegar aqui porque eu quero ser roadie. Eu trabalho sério. Eu toco bateria. Um dia eu vou ter minha banda. Mas agora eu quero trabalhar com vocês. Viajar com vocês. Vocês precisam me dar uma chance.

Aquele ambiente não sendo monitorado por câmeras, a aventura de Ruana podia prosseguir, sob a proteção, ao menos provisória, das líderes da Quarto Olho. Carla pediu calma: senta aí, e Déa tirou um baseado pronto  duma caixinha e acendeu. Nós já temos todo o pessoal arranjado, você sabe. Uma baforada de fumaça seguiu a frase de Déa. Mas vamos conversar, atalhou Carla, você tem um bocado de ousadia. Se você for uma pessoa legal, quem sabe, completou Déa, oferecendo o baseado a Ruana. Foi quando entraram pela portinhola os integrantes masculinos da banda, que trocaram abraços com as duas e deram também uns tapas. Ruana foi apresentada e já se sentia vitoriosa em sua empreitada, à medida que a bebida chegava e o camarim se transformava numa festa. Tomou a liberdade de perguntar a Déa por que mudaram de nome, e se ela já tinha tomado um quartinho no olho. A tecladista confessou que foi o empresário quem decidiu, que gostaria de ser Quartinho até hoje, e que já tomou no olho várias vezes. A conversa caminhou de tal forma que Déa abriu uma bolsinha que produziu no fim um quartinho para quem quisesse pôr no olho, o que nem todos toparam, mas Ruana fez com convicção, sentindo o pedaço de papel arranhando a superfície da conjuntiva com um sorriso no rosto. Depois de um tempo, via a coluna de mármore vibrar, o verde da planta falsa cintilar, e sentiu vontade de abraçar cada um dos integrantes. Carla fez um brinde à nova integrante do staff, e ali se completava a missão bem sucedida da jovem.

De repente entra pela portinhola uma senhora negra, numa blusa de tricô, e numa saia longa, figura improvável para estar ali, nos bastidores de um show de rock. Ela mudou a bolsa vermelha de um ombro para o outro e rumou direto aonde se achava Ruana, a quem segurou pela altura dos cotovelos, quase a erguendo do chão. Ruana, você tem o vestibular hoje, Ruana. Filha, larga esse RV, filha. Hoje é o vestibular. Todos os componentes da Quarto Olho começaram a evanescer e por fim sumiram. O ambiente se tornou um branco completo, em que Ruana se achava sozinha. Retirada a máscara viso-auditiva, a jovem se encontrava em seu quarto um tanto bagunçado, com um livro de química sobre a bancada e o uniforme da lanchonete pendurado na porta do armário. Naquele dia ela ainda devia fazer o vestibular e cumprir o turno noturno vendendo hambúrgueres. Antes de sair pôs os fones nas duas orelhas e manuseou a tela da carteira até achar o álbum de estreia do Quarto Olho. Na próxima volta deles ao Brasil ela sabia que veria os ídolos.

Acaba Mundo XLIII

agosto 12, 2018

ursal

Hoje são doze de agosto de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Bem, o faux pas do Gebran está levantando polêmica. Como também deu o que falar a entrevista do diretor da PF, Rogério salloro, o qual revelou que Dodge e Thompson Flores (PGR e TRF-4) telefonaram-lhe pedindo o descumprimento do HC, e ainda que no dia da prisão Moro insistia pela invasão do sindicato para pegar Lula na bala, antes que ele se entregasse. Resta saber se as críticas indignadas não vão circular pelas mesmas vias e dentro das mesmas bolhas de modo a atingir quem que estava desde sempre disposto a indignar-se. Chama-se pregar aos convertidos. Às vezes eu leio gente dizendo que está disputando uma batalha no twitter. Baboseira. Sabe o que era uma luta justa? Transmissores FM, vários deles, itinerantes e indetectáveis. Isso era uma tática bacana. Ou talvez não. Em tempos de pós-verdade, cada um vive na sua virtualidade de eleição. Aliás, virtualidade de eleição é o que domina a pauta por esses dias. O debate na Bandeirantes seguia sendo reprisado dias depois, e a contribuição mais significativa que deu foi de celebrizar a figura do Cabo Daciolo, um Mini-Me do Bolsonaro ainda mais alucinado. O mesmo que o Psol abrigou e ficou com uma vaga de deputado que poderia ter sido do Renato Cinco, que não seria expulso. Uma de suas asneiras produziu um volume até cansativo de piadas, a tal União das Repúblicas Socialistas da América Latina, ou URSAL, uma teoria conspiratórias que remonta ao indefectível Olavo de Carvalho. Parece que essa escola de não-pensamento já acomoda mais de um candidato. O risco é agora ficarem dando tanta atenção aos absurdos de um e de outro que eles acabem por dominar o não-debate. Daciolo tem tudo para não ter maior impacto, mas hoje já não confio na minha própria lógica para prever os eventos. Se os evangélicos começarem a levá-lo a sério, talvez ele possa ter um crescimento significativo. Se for às custas de seu mentor, isso não seria mau. Enquanto isso, o PT mantém Lula como candidato e aposta que convencerá a Globo a acolher o Haddad como preposto no debate. É uma insanidade que lhes pode custar uma boa chance de eleger “aquele que o Lula mandar”. Mas não se pode descartar de todo que a própria eleição tenha seu plano B, e já bem delimitado.