Autorama 4

janeiro 22, 2020

Não é melhor você emendar seu presente em vez de contar o passado? Fazer exercício e parar de beber duas garrafas todo dia? Quase todo dia. Você é um alcoólatra. E o que é que você tem com meu alcolatrismo? O ônibus não está, dá pra carregar o cartão e fumar. Agora que eu vou voltar a ter carro, vou deixar de frequentar o terminal. Tem sempre uma mulher bonita ou outra. O automóvel é antissocial. Bom dia. Cinquenta, por favor. Esse sistema de cartão é uma sacanagem com quem não tem o cartão, mas é prático. Obrigado, boa tarde. O problema é que se eu puser este cartão junto com o de São Paulo, ele desmagnetiza, é um saco. Vou correr lá no fundo pra fumar um cigarro, é só ficar de olho no Rodoviária. Rodoviária ou Terminal Central? Você trouxe as anotações? Sequela! Eu acho que os dois passam na Orozimbo. Amigo, pra Orozimbo esses dois vão? Ah, beleza, obrigado. Carregar essa pasta solta é um saco, devia ter trazido uma mochila. E um livro. E por que escrever sua vida agora? Por que não depois do sessenta? Fumando três maços? E não é o caso de narrar uma vida de realizações e de grande interesse, só umas historinhas de quando eu estava louco. E mais alguma coisa ou outra. Minhas mulheres, eu preciso falar das minhas mulheres. Isso dá um parágrafo. Não me acelera não. O Terminal Central tá encostando. E você segue jogando bituca. Monstro. Eu teria que começar com a Érika lá em Porto Velho, amor platônico de meninice. Ela estudava de manhã e eu à tarde, então em pouquíssimas ocasiões eu a via, e ficava embasbacado. Tá vendo, se não tivesse que fumar viajava sentado. Os dois pertencíamos à classe de estrangeiros em Rondônia, ambos de pele clara; ela era loira. Eu tinha cabelo loiro quando pivete também. Enfim, eu sabia os dois carros do pai da Érika e sabia de cor a placa de um deles, era um Del Rey. Era assim que eu expressava meu amor. A dado momento eu decidi que não ia mais gostar da Érika e escolhi uma das gêmeas que eram consideradas bonitas, a que não era antipática, para dirigir minhas “atenções”; mas depois eu vi que estava me enganando e “reatei” com a Érika. Só uma vez eu criei coragem para conversar, depois de tocar bateria na festa de formatura, quando eu já sabia que ia me mudar pra Vitória. Engraçado que na formatura do pré eu também fui a “estrela”, me vestiram de apresentador de circo e eu fiquei me mijando em cena. Eu sempre tive isso com a bexiga. Ela ainda perguntou “há quanto tempo” como quem já soubesse. E sabia, eu sempre fui transparente. Aqui quando passa nessa fábrica tem cheiro de doce. Lembra aquela menina da alimentos que trabalhava lá? Um par de olhos que eu acho que não vi igual. Agateados. Você nunca daria em cima dela sabendo que ela tinha namorado, e quando você mesmo namora não escapa de chifre. Sem malícia, você. Em Vitória você causou um certo frisson, não foi? Ela te achavam inteligente. A Luíza te oferecendo o primeiro pedaço do bolo, ela era magricela mas era charmosa, o beijo na sessão de cinema junto com a excursão da turma toda e a tiração de sarro depois – ué, não deveria? O comentário da Lígia, e seus olhos verdes, se insinuando… e foi preciso que ela mesma muito tempo depois tomasse uma iniciativa, pediu explicação de matemática, e o idiota ainda deixou passar porque ela fez charme. Lígia tinha uma vibe estranha. Mas eu devia ter dado uns beijos, não menos. Bem, você está esquecendo alguém importante. A doida vizinha da escola de música, em Porto velho, seu primeiro beijo. Não faço ideia de seu nome. Ela beijava todo mundo da turma, da região, e chegou a confessar que preferia os de cabelo comprido. Era na área externa da casa, toda descuidada, mato crescendo, super romântico. Na verdade eu acho ótimo que tenha sido uma experiência sensória e não sentimental, ela beijava bem, eu acho; prática tinha. De volta a Vitória, já no terceiro ano, eu me apaixonei pela Lívia, que era um pedaço de gente sem graça, apenas pelo pescoço. Seu pescoço ficava sempre na linha de visão, e eu inventei isso. Eu ligava pra ela, naquela época não era impensável um telefonema, hoje parece que é assédio. Eu convivia bastante com ela e com a Aline, que era uma morena acobreada, meio misteriosa mas de riso franco. Nunca percebi a tempo que a Aline gostava de mim. Foi o Johny Milk quem deu o toque, grande João, vai ter menção a ele com certeza. Nós éramos famosos, Aline e eu, por tirar as maiores notas e tal. Muito tempo depois, depois do ensino médio, depois da Karin e depois da primeira mania ela me convidou, e eu não fiz nada. Eu nem estava bem de volta nos eixos ainda, comentei sobre a internação, o que não precisava. Que eu sou um bocó não precisa fantasma sair da tumba pra dizer. Aqui funciona o centro espírita que meus pais frequentavam quando moraram aqui, e a mãe se tratou no HC da Unicamp. E virando ali foi onde eu tomei um enquadro da polícia com o Dirceu. A gente resolveu comer umas putas, eu fiz um baseadão e pegamos o tapetão. Foi só virar que mandaram encostar. Eu mandei o Dirceu jogar fora, e só depois do bacu todo ele revela que tinha colocado no extintor, e o policial não encontrou. A gente nem foi até o Itatinga nem nada. Outro dia ele surgiu pedindo voto pro Bolsonaro. Acho que ele realmente não saca nada de nada de política, pediram que ele fizesse isso. Espero. É um sujeito bom, mas é mais doido que eu. Ele foi internado no onze de setembro, e jurava que eu tinha a ver com aquilo; e o pior é que eu devo ter acreditado em algum momento que tinha mesmo. Sei lá o que eu já acreditei. Já acreditei que estava sendo espionado várias vezes, ou que era um herói cyberpunk na internet, o Neo do Matrix; uma vez eu comecei a perceber que apareciam textos em resposta ao que eu tinha escrito, o que não é nada de mais, talvez, mas parecia um filme de aventura. Tem um monte de história, eu preciso fazer umas anotações, minha memória é péssima.

Despistar o pistache

janeiro 19, 2020

Desde que o desdém do doido adocica o docente, pode-se dizer que a desídia destila a tala, que o impreciso prescreve, ou não? É possível que a suposta pasta aposte em despistar o pistache? As coisas como estão o caranguejo gagueja, e a gotícula articula a culatra. É preciso joelho. Justamente a janta. Antes que a varanda vire viveiro de víveres. Quando chove a chave se vexa, nem adianta dilatar tarados como se fosse uma paráfrase do friso. Pelo menos manuseia o zippo, apazígua o zigurate e o iogurte. Tamborila a larica dos encômios e economiza o misantropo, tenta atentar ao tanto de tentos. Salvo engano os gonzos da zanga angariam garimpos, e o percevejo percebe sobejamente o sabujo. Só o que falta é calafetar fatias fátuas.

Rabiscar hibiscos

janeiro 19, 2020

A contagem intangível das tangerinas indica que o quarto artigo tragado de algures garante a antecipação do espaço. E mesmo se assim não fosse, o departamento mental mentiu ao timoneiro, e o direito ao ditado segue gostando dos gastos. Não fosse o sofista, o fastio dos típicos podia cutucar tucanos ou rabiscar hibiscos. E tudo poderia pedir pastel de plástico e o catarro terrestre dos tártaros aliviaria a vertente intragável das gravatas. Não digo que a incerteza do zinco não azucrine as crinas sincréticas. Mas se a cisterna por seu turno eterniza a ternura, quem sabe se o sábio assobia baixo a bússola? Não há nada que impeça a peçonha de sonhar, nem o insondável de acender os sendeiros.

Autorama 3

janeiro 19, 2020

Esse serviço de ônibus é uma merda. Foi bom enquanto durou escapar de ser um cúmplice na cultura do automóvel, mas tá foda. A velhinha toma este mesmo ônibus todo dia. Eu sei. E ela não é tão velha. Deve estar indo trabalhar no turno noturno em algum lugar mais longe do que onde você está indo. Mas aí você quer me fazer sentir a máxima culpa. Culpado de que, milorde? Canibalismo. Pergunta pra ela. Porra, não dá, em São Paulo, morando perto do metrô e tudo, vai de boa, mas aqui não dá. E eu preciso resolver isso da carteira até o fim do ano e buscar o carro em Brasília, já demorei demais. Já bati na auto-escola à toa, já bati no poupa-tempo à toa, e me mandaram pra essa porra de Campinas Shopping, eu nem gosto de entrar em shopping. Aqui onde funciona uma empresa de caçamba era a Cooperativa Brasil, vi muita gente tentar pular para não pagar e ser expulsa; eu nunca aprendi a dançar forró. Aqui teve Tom Zé, ele tirava sarro da plateia: viva a estética universitária! o Hermeto pedia o som do saxofone e o Bezerra da Silva atrasou tanto que as xiboquinhas a mais me fizeram foder o carro no balão, era a Saveiro ainda, eu acho. Você podia ter fodido gente em vez de carro. Mea culpa, eu bebia e dirigia mesmo. Eu era um monstro. Ainda é. Mas um monstro que não dirige bêbado ao menos. Sem carro é fácil, vamos ver agora, então. Aquele dia na copa de 2002, lá por onde morava o Trigo, era um bairro meio rural, você deu um jeito de meter o carro entre duas árvores e bater na frente e atrás tentando sair. Brasil e China, não foi? Ou aquela em Brasília, quando você andava com o Davi e despirocou na casa da amiga dele, nadando de cueca branca e pegando as mocinhas no colo fazendo que ia jogá-las na água, e com o namorado ao lado, e depois ainda alegou na cara dura que isso não é nada de mais… você ainda pegou cerveja pra levar, se perdeu no Lago Norte. Você é um perigo pra sociedade. Não me acelera, não. Aquela Saveiro passou por poucas e boas; teve aquela festa na casa do Bródi, você levou umas dez pessoas na caçamba até o Observatório. Hoje nem existe observatório. Que fizeram com a Unicamp. O Pedro disse que se ficar sentado em qualquer banco muito tempo um segurança já vem importunar. Maior parte das cantinas fechadas, e a melhor explicação é que querem um ambiente inóspito e o fim da convivência. A ditadura às vezes se implanta de um modo sutil. Quantas festas não rolaram naquela época. O governo do estado acabou com elas bem antes de golpe ou Bozo. Você teve um Corsa também, aquele que achava que era jipe, e fez a trip da Canastra com o Webinho. Faz tempo que eu não falo com ele, um dia a gente tretou por divergência política e isso foi antes da ascensão do nazismo bananeiro; eu fico realmente curioso se ele está endossando essa merda. Eu devia ir visitar os pais dele. Foi o Corsa que você bateu na contramão em Londrina, com o Alan. Eu tentando falar alguma coisa e o sujeito repetindo: Não me acelera não. O rapaz com o fone de ouvido alto demais, era eu mais novo, só que com um walkman de fita; segunda vez que eu penso em fita. Dia nostálgico, comecei pensando na minha mãe, depois na Unicamp do passado, até nos carros que tive. É esta distopia ou sou eu? Direto me vêm na cabeça os sucessos pop dos anos 80. Eu não tenho saudade dos 80. Bem, como estética, eu tenho saudade da minha infância decerto. Eu devia escrever mesmo. Memórias de um Maníaco Depressivo. Ou bipolar? Você podia escrever um libelo contra a violência psiquiátrica. Vou ter que citar Foucault igual no mestrado? Foucault ainda é bem melhor que Derrida, pelo menos. Nem me fala. Ou então algo sensacionalista, como Bipolar à Solta. Aquele posto ali se chamava Transo, saiu até no José Simão. Você teve o CRV também, que você bateu na caixa de esgoto dirigindo pelo gramado da Esplanada, piradíssimo. E teve o Voyage, esse acho que não passou por aventura. Quer dizer que você está melhorando, talvez. Eu vou comprar o carro da minha irmã justamente para não ter que travar contato com outro ser humano. A mulher que comprou o Corsa foi me ligar no trabalho perguntando se eu bati o carro de frente; eu disse que não, afinal foi de quina. Quer dizer que se o carro teve batida eu vou encostar na beira do barranco? Ou aquele carioca que pediu pra ver a CRV, que me chamava de meu querido. E eles pronunciam meu queríado, com a vogal i bem parecida com o ü do alemão. Carioca é caricato. Quase um hai cai. Lembra do Vítor? Aquele era exemplo de livro-texto de marrento. Achou que era muito esperto e foi preso passando cheque roubado. Isso é o de menos, o sujeito era mau caráter mesmo. Eu ainda encontrei ele em Visconde de Mauá, disse que trabalhava no Ibama, foi a viagem com o Chapéu em que a gente não pôde fazer o passeio porque puseram fogo no parque. Chapéu encaretou e convive com os pais das coleguinhas das filhas. Como você devia estar. Tá escrito onde? Eu voltei a Mauá pra tomar daime, não foi? Aquela época que eu estava apaixonado pela Morango. Caramba, este deve ser o primeiro da série de apaixonamentos irracionais. Bom, se você não metesse os pés pelas mãos sempre, teria talvez alguma chance em ao menos parte deles. Não me acelera não. Isso e dirigir bêbado eu não faço mais; sem trocar uma palavra às vezes, por um rosto bonito, um par de pernas, um olhar dúbio, cair de quatro e consumir todas as forças da mente para se dedicar à devoção de um holograma. A misantropia tem suas vantagens. Certamente. Você é uma pessoa intensa, Leonardo, você só não sabe direcionar essa intensidade. Não é verdade, quando eu trabalho numa tradução eu traduzo como um maníaco. O que você é. Exato. Lembra de carregar o cartão no terminal.

Ícones cônicos

janeiro 17, 2020

Se desse pra saber se o suor consente o santo, até que impavidez dos pavimentos podia ser abatida com batatas, e a aritmética emética da catraca delegada ao lago. Mas assim, sem conectar nectarinas já é difícil apreender os prados. Como se os coretos carecessem de corda ou a carícia cariada dos coros escoriasse os ícones cônicos. Ou algo assim. De qualquer forma o fermento firma a máscara do almíscar, e a incerteza à mesa da mazurca atesta o tato do titubeio. E como seria diferente? Se o contento tático atingisse o gesso, e agisse a soja sem ajambrar um imbróglio, talvez as tigelas e as lajotas jantassem a jato. Fazer o que.

Autorama 2

janeiro 16, 2020

Esta é a hora em que o sol bate bem no banco do ponto. Podia ser pior, podia estar chovendo. Eu devia ter trazido um livro. Talvez não. É difícil ler no busão. Meu ritmo de leitura está uma merda. Quando eu tinha um emprego em tempo integral eu lia muito mais, e durante o expediente, o que é melhor. Boa parte do trabalho no Hamlet foi lá. Eu não podia ficar para sempre mesmo, só a transição podia ter sido mais suave. Eu acho que não nasci para ter uma trajetória suave. Eu me mudei pra São Paulo transferido no MP e mirando doutorado na USP, em poucos meses ambos tinham evaporado, e a ideia da escola de teatro se revelou desastrosa. Claro, eu estava galgando os degraus da mania, e qualquer ideia que fosse seria desastrosa. Eu só penso em mim mesmo hoje, preciso conversar com alguém urgentemente. Pensar que um dia eu já fui gregário, nos anos de Unicamp. Estes são os anos de Unicamp. Mas tudo mudou, eu mudei, a universidade mudou, a sociedade mudou, e até a Muda mudou, ou seja, deixou de existir, e o que sobrou foi uma dúzia de cassetes e boas lembranças. E eu os toco ainda, às vezes, um dos últimos lares dotados de vinil e cassete. Se bem que cassete tão ressuscitando de novo, e eu aprovo, é um bom formato. Eu sou conservador em várias coisas, na verdade, não só nos suportes de áudio, mas com minhas drogas acima de tudo: café é preto e amargo, maconha é no papel com piteira, cigarro é de tabaco mesmo. E, obviamente, em tempos em que querem destruir o que foi construído de bom, cabe a qualquer pessoa sensata ser conservadora. Revolucionária é a extrema-direita. Eu estou me preparando para uma profissão que nem vai mais existir. Como é, ao menos. Bem, minha profissão é tradutor, na academia eu busco as credenciais. Se bem que, se for pensar eu estou bancando a vítima, dizendo que meu trabalho é sabotado, não é levado a sério. Por que seria? Nem você se leva a sério. Você fuma maconha enquanto trabalha, e bebe. Você se acha intitulado a tudo, isso é privilégio branco. Igual o amor da sua vida que você espera que vai tocar sua campainha num cavalo branco até hoje, ou a saída pra sua vida que você esperava se materializar por mágica enquanto se arrastava no curso errado. Você tem que cavar o lugar no clube dos professores doutores, do contrário pra eles te ajudar é prejudicar a corporação. Você é muito sem malícia às vezes. Pior foi jogar merda no trabalho de um deles e ficar você queimado. Foi o texto dele que me jogou na mania em definitivo. Aliás, nessa última mania você se queimou com o mundo, disparou muita insanidade nas redes sociais, foi atrás da Thaís e fez toda aquela cena. Sempre a mesma conversa que volta, de megalomania, o salvador, o escolhido, e volta o Prometeu e Matrix e Bíblia e pseudociência tudo misturado. Meu erro foi ir pra casa do meu pai, em Brasília, que mandou me sequestrar. Enfim, basta. Vai bombardear o velho de novo. De um jeito ou de outro você ia ser sequestrado, como estava. Eu nunca sei se eu cumprimento as pessoas que sentam ao meu lado, acho que não se usa mais de formalidade tamanha. Lendo é mais fácil, você nem ergue a vista. Eu devia ter trazido um livro. Mas se eu for até minha casa pegar, o ônibus passa. Quem sabe se eu puxasse qualquer conversa com essa senhora, só pra parar de ficar dando voltas em torno de mim mesmo? Algo como “tá calor” está ótimo. Melhor não. Lembra quando você saía dizendo “abaixo a ditadura” a qualquer estranho? Pois quem é o louco, afinal. Bem, melhor me afastar da velha pra fumar. Aproveita e joga o copinho sujo naquela caçamba. Esses copos eu comprei pra plantar maconha, nunca deu certo. Eu vou fazer uma visita ao Bródi ou ao Maciel, preciso conversar sobre qualquer outra coisa que não eu mesmo. Aí você vai contar pra eles as mesmas coisas que estão te perturbando. Mas conversar exorciza. Ele tá atrasado hoje. Nem esperava que a velha falasse. É, né? foi o máximo que me saiu, mas eu aproveitei para emendar uma prosa miúda. Eu nem sei, tem horário certo? Três e cinco, eu pego todo dia. Nossa, já são três e vinte. Essa é a hora que o sol bate bem no banco. Foi o que eu percebi. Talvez eu pudesse ter ido de táxi até o Terminal Barão, ao menos. Cinema, eu devia ir ao cinema, nada muito cabeçudo, faz tempo que eu não veja uma boa comédia. Mas tinha de ser uma bem indicada. Indicada por quem? Você devia pôr um anúncio: sou solitário e gostaria de fazer amigos. Não se faz mais isso, hoje deve existir um aplicativo de smartphone. Ou então por que você não aproveita que não consegue escapar do solipsismo e escreve suas memórias? Ah, tá, Memórias de um Fracassado. Ou então O Segredo de um Fracassado, esse é bom. Igual o autor de autoembaço da Laerte. Mutuca, não era? Acho que era. Você pode levar pro lado da doença mental, tem muito apelo hoje em dia, tem todo um pathos com a esquerda. Será? O que eu mais vejo na internet é campeão contra os preconceitos exercendo preconceito psiquiátrico numa boa. E você vai ligar pra um bando de desmiolado que nem conhece? Só porque atribuem mau caratismo e fanatismo dos membros deste antigoverno à loucura? Preconceito é ser reduzido a algo menos que humano, trancafiado e abusado, preconceito é descobrir que fazem piada de você nas suas costas. Mas, se for pensar, tem um bocado de histórias mesmo. Só de Boston tem um livro inteiro. Bem, lá vem o ônibus. Ninguém vai ter pena de mim, eles vão ler que eu sou um alcoólatra e um maconheiro e vão dizer “tá vendo, bem feito, ninguém mandou”, ainda mais nessa epidemia de dedos apontados, vão me cancelar. Você tem que ser famoso primeiro pra ser cancelado. Bem lembrado.

Autorama 1

janeiro 15, 2020

Tem que manter a posição no flanco. Disso depende o futuro do socialismo. Mas se eu chegar neste ponto eu não consigo atravessar. Nossa, quanta luz. Que boca seca. Você não precisa pôr esse ventilador no máximo. Você não precisava é abrir a segunda garrafa ontem. Ou fumar igual fuma; pobre ventilador. Quê! Quase duas? Eu tenho uma missão hoje. Uma puta missão. Que sonho doido. Olha, você suja a pia inteira de pasta, que vergonha, Leonardo. Essa esponja também já está de jogar fora. O futuro do socialismo depende de mim. Tá fodido o socialismo. E já não tava mesmo? Então foda-se. Eu acho que eu nunca fui socialista, só revoltadinho mesmo, e eu mereço o escárnio de todos que me trataram com condescendência por isso. Meu pai, um professor da elétrica, quem mais, mais um pouco me chamavam subversivo. Coitado do meu pai, eu pego demais no pé dele, e ele faz tudo por mim. Inclusive me sustentar a esta altura do campeonato. Não me acelera não, porra. Vai, come uma fruta pelo menos, faz um misto, não vai dar pra almoçar hoje. Ergue a cabeça. As coisas estão andando depois daquilo tudo, você está no doutorado numa prestigiosa universidade, seu Hamlet vai sair… Mas eu tive que pagar. Mas vai sair, porra. Dá frio na barriga. Isso é bom, quer dizer que você está vivo. Parece que eu não me remontei de todo ainda depois daquela. Cheguei a achar que tinha dado defeito, que não prestava mais para nada. Bem, isso não é novo, sempre que você fica deprimido acha que ficou pelo caminho. Não aguento mais falsas largadas na minha vida, eu já devia estar estabelecido de alguma forma. Sim, mas você tem essa doença, e merda acontece, e faz o que der pra fazer e foda-se. Essa forma sempre gruda o pão, caralho. Você acabou de acordar, relaxa. Não deixa a ansiosidade te guiar através do dia. Ainda deve ter algum iogurte. Foco. Renovar a habilitação. Depois você persegue os louros da realização profissional ou salva o socialismo, se quiser. Quanto é que dava um táxi daqui até lá? Dava mais de cem. Do outro lado da cidade. A maior cidade pequena do mundo. Três ônibus, e eu já saio tarde, mas sem café não dá. As “latras” da dona Lídia. Essas latas devem ter a minha idade ou quase. Elas deveriam me lembrar a mãe, não minha vó, mas era ela que falava latra, e musga para música também, e não comia peixe. Uma vez eu queria tomar dela um bombom (em Porto Velho se chamava bala de bombom) e disse que era de peixe. A chaleira vazando até hoje, ainda vai se queimar. Por que eu penso tão pouco em minha mãe? Eu penso com carinho, mas penso pouco. Me sinto meio culpado. Culpado de que, milorde? Canibalismo. Ela dava dois tapinhas e dizia filhão filhão, como quem diria depois “tu não te emenda?”. Imagina ela viva hoje vendo o desastre que me tornei. Lucrécia, a heroína da minha tradução, era exemplo de castidade, mas não chegava ao chinelo: minha mãe nunca fez sexo com outro homem e introjetava o machismo tanto ou mais que a matrona romana. Ela disse uma vez que engolia sapos do meu pai porque assim devia ser, e que eu tratasse de fazer o mesmo. Nunca gostei de engolir sapo. Mas ela era uma guerreira, e conquistava todo mundo por onde passava, tipo o oposto de mim. Caralho, você nem sabe mais quanto fuma comprando de pacote. Tá adiando cuidar da saúde. E nem vale a cartada de que ainda não se recuperou. Dois anos. Nem senta no computador, tá atrasado. Eu preciso entrar e ver o horário certinho. Tá, mas só isso. Checar notificações no máximo. Checape, Leonardo. Quarenta anos, crise da meia idade. Seis horas, ótimo. Ninguém gosta das minhas piadas, pérolas aos porcos. Bem, não vai se expor a notícia não. Você já ficou até de madrugada no computador. E passou a maior parte de um ano, qual, dois anos perdendo tempo na internet achando que estava engajado, alucinando que o DOPS ia bater na sua porta a qualquer momento pra te torturar e extrair não sei o quê. Você passou perto de uma nova mania ali. Noventa por cento do que você vê no fim é a gincana da moçadinha. É tóxico. Desliga. Faz a barba e te veste, duas e quinze. Confere os documentos de novo. Aqui, taxa, residência, RG, CPF, foto. E essa bateria aí? Tá precisando afinar, e a preguiça? Praticar os rudimentos, então, nem pensar. Colecionando promessas não cumpridas. Eu gosto desse barbeador baratinho, ele faz uma série de pequenos cortes que ardem quando você enxágua, eu me sinto o McCauley Culkin em Esqueceram de Mim. É algo como tudo tem seu preço, uma lição de vida. E faz melhor que os sofisticados. É horrível voltar pra casa e ver que saiu com tufos espalhados pelo rosto como uma savana. Eu preciso de mais luz neste banheiro. Tá vendo como você se julga? Até a barba mal feita. Você é implacável consigo mesmo. Você nasceu com um hiperego no lugar do superego. Suas camisetas estão pegando na barriga, Leonardo, cria vergonha na cara. Essa aqui, do Monty Python; tá quente pra preto, mas é larga. Ótimo. Boina? Sem boina. Eu ainda tenho saudade do meu chapéu, aquele da Rua Aurora, que fita. Agora uma hidratação reforçada para a jornada, um café no descartável, para fumar no ponto, super ecológico, e içar velas rumo a Ítaca. Olha, esqueceu o portãozinho destrancado de novo. Você é um destrambelhado, Leonardo. Não sou não, sou uma das pessoas mais trambelhadas que eu conheço. Duas e meia.

O alvéolo avulso

janeiro 12, 2020

Eu avisei que o vaso avaliza o zéfiro independente dos dísticos. Que a intenção do compasso não se resume à mesinha. Tudo mais é maisena. E os limites miméticos atualizam trompas sem que sequer a sequela lacônica coloque o colírio no colo dos colossos. Já tentaram atarantar as tartarugas de todo jeito, e no fim a fimose afirma o oposto, que o desterro das torres restava atávico. O abacateiro nunca mais foi o mesmo, dizem que a praça precisou da cizânia. Sobrou o estorvo das vísceras, e a polidez dos desígnios, mas até o extermínio da manha admite almôndegas, e assim segue: nem persegue o cego o cigano nem convém à vela o alvéolo avulso.

À revelia da relva

janeiro 8, 2020

Parte do engodo reponde ao padre sobre a draga drástica com mais uma versão da tessitura tácita da tosse, mas tudo bem. Já esperava. Até os mascotes do coturno catalisam a lisura do lúbrico e adjacências, daí a dobrar a barragem foi uma questão de quórum. Ninguém percebe que os cadarços do contorcionista passaram a debater o óbito do débito à revelia da relva? Ninguém diga que a travessa do viceja alhures enquanto o trampolim peleja com a cama, a esta altura até o torpedo pede um tapa na pastelaria. E nem é necessário cessar o acesso. Basta assinar na linha do horizonte.

Do tamanho do Minho

janeiro 1, 2020

Quase nem faz diferença que a salamandra solape os pólos, quando o solstício dos sândalos é do tamanho do Minho. O que se esperava dos parvos era a solidez dos décimos, mas o que se viu foi a dissolução dos soluços. Agora mesmo que o canário narre um rodo a saturação dos tentáculos mal pode compensar a expansão das pocilgas. Mas não há de ser nada, pois após a posse dos passos, quando a certeza da tesoura entusiasmar a masmorra, todo o tecido dado aos druidas antes que arruda rodasse será açambarcado pelo látego complacente do plâncton. E aí a caçapa é que canta.