Livres?

janeiro 19, 2021

A religião diz que Deus nos deu livre arbítrio. Primeiro que ao menos às leis da física eu estou condicionado, então o arbítrio não pode ser tão livre assim. Não posso bater os braços e sair voando, certamente. Segundo que ele nos faz de joguete, porque apesar da liberdade Ele nos ameaça com a danação eterna por nada mais que tocar os próprios genitais. Mas não era nem sobre religião nem sobre genitais que eu ia escrever. É sobre essa ideia de livre arbítrio. Não só nossa liberdade é tolhida pela realidade física, mas pela realidade simbólica (qual é o conteúdo da consciência de cada um) e pela realidade social (tem liberdade de ação quem tem dinheiro). Até o tempo meteorológico nos impede de fazer o que a gente queria, às vezes!

Eu mesmo, no último episódio de mania, um desses de megalomania mística, cheguei à conclusão de que tudo era determinístico. Um lagarto que vir um mosquito vai projetar sua língua para capturá-lo, não há outra opção. E nós também, só porque temos linguagem e um universo simbólico não somos ontologicamente algo apartado do reino animal. Nós sempre reagimos aos estímulos conforme nossa natureza individual, que foi moldada em experiências prévias. E se tudo é determinístico, essas experiências não podiam ter sido outras. Eu sei que é uma argumentação circular que não prova nada, mas mostra ao menos consistência interna. A imagem que eu usava era um videogame de simulação, de guerra, de cidade, de civilizações: cada personagem ali age de forma determinada, mas parece ter agência naquele plano de “realidade”. Nós vivemos na simulação mais avançada de todas, a real. Não há como alguns fenômenos serem determinísticos e outros aleatórios. Um lance de moeda só é aleatório porque a descrição newtoniana completa do evento seria extremamente complexa. Se a trajetória de um cometa é determinística, a trajetória de um ser humano também é.

Bom, aí eu superei a crise maníaca e tentei esquecer tudo isso, é claro. Outro dia eu estava na internet e topei um vídeo. Era compartilhado por alguém com quem eu não concordo sempre, entusiasta de internet das coisas e pós-humanismo, mas eu assisti. E a mulher dizia basicamente o que eu descrevi acima: que não há livre arbítrio, tudo é determinístico, até nossos pensamentos são fruto de reações químicas. Eu fiquei uns dias desconcertado. A ideia de não ter controle é desconcertante, a ideia de voltar a entrar em mania só de pensar nessas coisas é desconcertante também. Uma postura fatalista científica também não é muito diferente de uma postura fatalista religiosa, e aí como fica? Será que até este texto já estava fadado a ser escrito? Bom, de qualquer forma eu só publico porque ninguém vai ler, mesmo.

Hilário 5

janeiro 17, 2021

Aqui. E Alemão meteu a mão no bolso. Gudang. Conhece? É cigarro? Cigarro de cravo. É coisa fina, importada. Nisso ele saca também um isqueiro e acende, imediatamente preenchendo a saleta de um cheiro forte. Quer um? Não, eu… Você tá virando homem, Dalton. Experimenta. Dalton levou o cigarro à boca e puxou o ar sem muita convicção, nem chegou a tragar. Boa, mas você não tragou. O gosto é forte. É assim mesmo. Todo mundo fuma na Califórnia. Olha só, puxa a fumaça e aí puxa o ar, e solta. Assim. Dalton então seguiu as instruções e teve um acesso de tosse que lhe levou lágrimas aos olhos e a uma série de contorções. Senta aqui, Dalton, descansa. E não diz nada… Já sei. A saleta tinha um banheiro, e dele saiu um casal fungando forte e mordendo a orelha, que passou por eles com um aceno envergonhado antes de alcançar a porta. Quando o rapaz já respirava normalmente os dois seguiram o mesmo caminho e retomaram a mesa no patamar elevado. Bete parecia estar furiosa, e o que o namorado disse em sua orelha pra acalmá-la vai saber. Você tava chorando, Dalton? Não, não é nada. Eu vou buscar uma coca. Bete sentiu o cheiro do Gudang, mas não disse nada, mulher deve ser complacente. Na fila do bar estavam Priscila e o barba rala, Dalton desistiu, entrou no banheiro sem estar com vontade de mijar. Lavou o rosto. Era hoje. Ele tinha decidido que era hoje que ia tirar a Priscila pra dançar. É simples. Imagina que ela vai dizer não. Retomou o projeto do refrigerante e logo depois seu assento. De repente ele olha e a coquete que ele elegera como musa estava discutindo com seu cara, ele a agarrou pelo punho, ela se desvencilhou e saiu correndo para os fundos. Deveria ir atrás ou era ousadia? Ficou, perdeu-se na conversa miúda, mas sua cabeça seguia cheia de Priscila.

E foi aí que começou a tocar música lenta, o momento tão aguardado da molecada. Era uma do Information Society, que eram mundialmente famosos apenas no Brasil nessa época. Irmã e cunhado não demoraram a instigar o rapaz a escolher uma parceira pra dançar juntinho. Toda hora instado a provar que era homem, Dalton apenas bateu olho em uma baixinha que nem da escola era, nem muito feia, e levantou-se confiante, disposto a convidá-la com toda galanteria. Mas a música acabou naquela hora, os pares se desfizeram, a baixinha foi escolhida e ele teve que escolher no susto, assim como no susto lhe saiu o pedido: Você quer dançar contigo? Era uma moça mais velha que ele, ela disse que ele era engraçado, mas topou. Ele se sentia meio intimidado ali, mas o perfume era gostoso, e ele fechou os olhos, se enlevou, estreitou mais a guria, que no fim o afastou: Calma, menino. Menino. Deu meia volta e ia subindo de volta até a mesa, que estava vazia, quando uma mão o segurou pelo cotovelo. Era ela. Ele não pôde dizer palavra, mas ela disse, com um sorriso encantador, Vamos dançar, Dalton? Oxi, foi sua reação instintiva, depois se achou besta, mas a esta altura seu braço já enlaçava as costas da donzela, o outro meio estendido junto ao dela, com as mãos atadas. Aí está, Dalton, tudo que você queria, e quem pediu foi ela ainda por cima! A música era uma da Sinnead O’Connor, mais triste que romântica, mas ele estava nas nuvens, o perfume era melhor que o outro, inebriante. Suas pernas seguiam o ritmo automaticamente, e seus olhos só se abriam às vezes, para certificá-lo de que era tudo de verdade. De repente, sua parceira é arrancada dele abruptamente: era o barba rala. Dalton não pensou um segundo, sua mão direita empunhada executou um arco que terminou na ponta do queixo do rival, que foi ao chão em câmera lenta enquanto os bailantes se afastavam, pasmos.

Ele, quando despertou do estupor, olhou pra ela, esperando que ela lhe chamasse de herói, mas ela estava furiosa, e soltou as palavras, machucando com gosto e olhar de desprezo: Você é um mulato atrevido! Não teve tempo de reagir, porque Almir e mais dois ou três da turma tomaram dele e o alçaram no ar como um herói, eles sim, eterno vingador da oitava série contra os marmanjos que as coleguinhas sempre preferiam. E ele lá no alto, digerindo a ofensa racial vinda de sua idolatrada. De volta ao chão, olhou em volta e não viu a irmã nem o Alemão, nem a Priscila nem o barba rala, e a música, que havia sido interrompida, foi retomada, mandaram Boys Don’t Cry, que sempre fazia sucesso, e era como se não tivesse acontecido nada. Desvencilhou-se dos colegas e foi procurar o Alemão na saleta, o mesmo casal de mais cedo saía e segurou a porta, mas ele não viu mais lá dentro que um trio de playboys com lenços na boca. O menino inocente nem sabia o que era loló, achou esquisito, e prosseguiu a busca. Eles também o buscavam, após terem saído pra buscar os chicletes importados no carro e perdido o nocaute que Dalton aplicara no cara do primeiro ano. Eu quero ir embora! Que aconteceu? No caminho eu conto. Alemão achou divertida a parte do soco, e Bete jurou se vingar da patricinha racista. Hilário? Fala cara, tá tudo bem? Tu tá com a bola lá em cima. Não me fala uma coisa dessas. Bora bater a cabeça, então? Bora. Daqui a pouco a gente passa aí. Beleza. Dalton tirou a camisa de botão e meteu a camiseta do Iron. O Hilário que tinha razão, puta coisa de playboy esse Cuba Libre. E se pôs a esperar acompanhado de seu leite com biscoitos, repetindo cada detalhe de tudo que tinha acontecido. Será que ele era homem agora ou não era?

O limite do suco

janeiro 17, 2021

Já faz uma canoa que o candelabro apita, e nem a doçura do soro nem o mesmo alvo da algaravia vieram debulhar a tísica dos toscos. Se o tabaco seguir aplicando escanteios aos bolos, restará aos bois os biscoitos, e a parafernália dos bosques questionará as tulipas. Nada que o engodo já não tenha substituído por vales, aproveitando-se dos canos e contra a previsão dos lêmures. E o que se poderia esperar do vidro, se mesmo o mistério tangencia címbalos à espera da porta e a jactância da mórulas mal se distingue dos tangos? É como se a compressa do pêndulo admitisse o chuvisco no fogo brando, o alpiste dos déspotas, como se os epicuros brotassem da claridade até o limite do suco. E por detrás do verso fica a jiboia, e o remo arremete ao tomo, a despeito dos potes. Agora que o quiabo ambiciona ao sinônimo, é bom ter em mente que o sortilégio agita estojos, e nem que a carroça russa surte a pantomima mômica encampa ampères.

Hilário 4

dezembro 29, 2020

Dalton tomou café e foi andar de bicicleta, feliz da vida com sua mudança de sorte, que devia toda à irmã, a qual ganhou muitos beijos por isso. Ele pegou a Jatuarana e foi desbravando vários bairros longes do seu, e voltou na hora do almoço. A mãe tinha feito o favorito dele, bife a cavalo, e a batata frita era farta como só em dias especiais. A Bete contou de novo a entrevista com a diretora e todos riram a respeito, a mãe afagou o filho, o pai nunca se desculpou, mas ofereceu o estipêndio dobrado para a matinée. O Alemão vinha buscá-los às duas e meia, e o tempo foi gasto pelos irmãos com xadrez. Cheque. Oxe. Não esperava por essa, né? Ah é, por essa você não esperava. Danado, perdi minha rainha. Rainha, não, dama. Ah você é cabeção demais. Ela foi lavar a louça e ele, que acordou cedo, deitou, estava quase dormindo quando a campainha tocou.

Alemão estava todo playboy, corrente e tudo, e beijou Bete longamente antes de cumprimentar Dalton com um meio-abraço. Caminharam até o asfalto e entraram todos no Kadett preto rebaixado de vidros escuros. Pump Up The Jam era o que o toca-fita alardeava, através dos enormes falantes que tomavam o porta-malas, e faziam tudo vibrar. No trecho até a BR o motorista distribuiu chicletes importados. Onde você consegue? Como? Onde você consegue chiclete americano? Alemão abaixou um pouco o som. O chiclete? Meu pai voltou de viagem. Dos Estados Unidos? Da Colômbia. Seu pai trabalha com que? Para de fazer pergunta, Dalton! Importação e Exportação. A música subiu de volume de novo e foi assim até o Cuba Libre, na saída da cidade, todos eles calados.

O carro preto entrou no estacionamento de cascalho fino e dele desceram os passageiros, os únicos negros por perto. Havia um luminoso neon, apagado àquela hora, representando um copo com canudo e enfeite tropical, e a fachada era coberta de lantejoulas. Dalton e companhia entraram na fila e compraram e as entradas e as fichas, depois se instalaram em uma mesa. Dalton mesmo ficou muito pouco, e saiu lá fora a ver cada um que chegava, e fez isso por vinte minutos até que despontasse a camionete cabine dupla do pai de Priscila. Ela desceu, num vestido vermelho de bolinhas brancas meio retrô, a cabeleira falsamente loira em um laborioso arranjo, e tentou ignorar Dalton enquanto se encaminhava para a bilheteria, mas não foi possível. Oi Dalton, não tinha te visto. Tudo bem, minha irmã disse que você foi com ela falar com a Gilmara. Foi sim, você é sempre tão quieto, né? Injustiça. Puxa, eu não sei como agradecer. Não foi nada, eu só fiz o certo. Eu vou lá. Ah, tá bom. Ele entrou, meio desapontado, e foi buscar uma coca-cola. Cruzou com o Almir, outro colega de oitava B, que se apressou em mencionar a vitória da Bete contra a diretora. Tá todo mundo sabendo, cara. Você é um herói. Minha irmã é uma heroína. A gente tá combinando que vai jogar porradabol e não vai parar nem com o Lobi nem com a diaba em pessoa. É, né? Desculpa, Almir, eu tô com a cabeça longe. Tá tudo bem? Tudo sim, vamos no bar?

Depois de conseguir as garrafas de refrigerantes, os dois se separaram, e Dalton raspou a garganta para constranger os dois que se amassavam. Ainda era cedo e pouca gente dançava na pista, ao som de Eurythmics e sob luzes coloridas. Tá chateado, Dalton? Não, tá tudo bem. E como é esse show que você vai? The Trooper, eu não conheço não, o Hilário que já viu. É Iron Maiden, né? Isso. Eu não consigo ouvir rock pesado, interveio Bete. Barulheira. E onde vai ser? prosseguiu o Alemão. Lá no Novesfora. No Pedrinhas? É. Só tem fumador de merla no Pedrinhas. Eu não sei, eu só vou pela música. Sua irmã aproveitou pra contar sobre o recente primeiro porre, esquecia que já tinha contado, e o casal se riu, felizes com a iniciação etílica do rapaz tímido. Ele mesmo não passava muito tempo sem correr os olhos pelo salão composto de palco e pista e mesas em volta, e em uma delas Priscila conversava com um cara do primeiro ano com um arremedo de barba, que ele não conhecia. Então ele foi dançar um pouco, sem convicção, até que um palhaço da oitava A fez graça com sua falta de jeito e ele voltou pra mesa contrariado. Alemão estava só, e bastou Dalton chegar para que ele com um gesto dissesse um vem comigo sottovoce, meio culpado. Sem entender, mas feliz pela distração, ele foi, até a área do bar onde Alemão bateu em uma porta, cumprimentou o outro playboy que abriu, e introduziu Dalton em uma sala privada. Mas e a Bete? Ela foi se maquiar. Dalton, você sabe guardar segredo? Oxe. Você dá sua palavra que não conta pra Bete? Contar o quê? Promete ou não, homem? Tá bom, prometo.

Crônica

novembro 24, 2020

Quando eu fui aos Estados Unidos ainda adolescente, um sujeito me abordou no ponto de ônibus perguntando se eu fumava crônica. Erva, ele explicou. Eu estava traumatizado de ter sido enganado dias antes comprando na rua, então recusei, mas meu palpite é que era à vera, apenas outra estratégia de marketing do que estamos acostumados. Se bem que em Lisboa o sujeito que ofereceu era golpista, e a namorada insistiu em que eu levasse a sério o cara e perdesse dinheiro. Bem, o que eu sei é que a crônica tem se revelado mesmo crônica, tanto que eu quis até escrever uma crônica a respeito.

Hoje eu tenho um esquema bom, mas já passei muito aperto, sofri sem, fui em todo tipo de biqueira, comprei de criança, comprei – e fumei – maconha podre. Mas já tive uma experiência positiva de plantar e colher, é poderoso. Eu conheço gente que parou de fumar, mas pra mim ela é crônica, ou sou eu que faço questão validar o epíteto. Eu acredito na parada, eu até me envolvi em ativismo, mas ativismo com maconheiro é foda. País conservador da porra. E a maior vítima da proibição não sou eu, é o negro periférico nessa guerra estúpida. Eu tenho um contato que traz em casa, já disse. Não sei se estou bem certo em chamar isto de crônica, a crônica, eu digo, mas a crônica certamente se provou crônica.

Hilário 3

novembro 9, 2020

Dalton acordou e o céu na janela estava acinzentado. Será de manhã cedo ou de tardezinha? Só então se lembrou da surra, e da suspensão, e o relógio de pulso dizia que era noite. Lavou o rosto. Saiu do quarto e foi de imediato abraçado pela irmã. Como cê tá? Não, tá tudo bem. Eu conversei com eles, eles não acreditam, mas eu acredito em você. Eu conheço a Gilmara, e ela… Não fala esse nome. Leite, eu preciso de leite. E a irmã providenciou, e começou a preparar uma tapioca, já que ele nem tinha almoçado, enquanto ele foi até o telefone, na sala. Discou. Eu queria falar com o Hilário. O pai chegou e passou por ele, sem cumprimentar. Fala Hilário, aquela hora eu não conseguia… Cara, você não fez nada. Eu bebi pinga, Hilário. Minha cabeça tá doendo. Escuta, Dalton, vai ter um show de Iron no sábado. No sábado eu vou no Cuba Libre. Marrapaz, puta coisa de boy Cuba Libre. Vai se foder, Hilário, tchau… (Olha a boca, menino!) Espera, olha, o Cuba é à tarde, não é? Vamos no show à noite, vai ser lá no Pedrinhas, na Sinuca do Novesfora. É o The Trooper, esses caras mandam bem pra porra. Fala com sua mãe. Essa é a pior hora pra falar. Ou nem fala nada, meu primo tá de carro, ele te deixa em casa, no fim. Vou pensar, minha irmã está chamando. Comeu a tapioca e conversou um pouco, sem ânimo, tentou ver tevê mas estava morto, voltou a dormir e só acordou na manhã bem cedo.

Hilário chegou na escola com o motorista do órgão público onde seu pai trabalhava, e comprou chicletes na venda antes de entrar. Arrastou-se pelas aulas até o intervalo, quando quem o arrastou foi Bete. Que foi? Vem comigo. A Norma tá na sala da Gilmara, vamos lá conversar sobre a expulsão do Dalton, você é testemunha. Bete, todo mundo sabe que eu sou amigo do Dalton. Então chama mais alguém. Ei, Priscila! Sim, vem cá. E o amor platônico do pobre injustiçado foi arrolado como testemunha, não teve muita escolha. Por que Dalton insistia em cruzar sua vida? Bete, encabeçando o grupo e a demanda, bateu na porta, voltou a bater, e então ela se abriu, uma fresta, mostrando o rosto furibundo da diretora, uma falsa loira de meia idade. Gilmara, a gente veio conversar. Hilário tinha certeza que ia sofrer alguma retaliação. Agora eu estou ocupada, e é muita ousadia… Justamente porque a Norma está aí dentro, é sobre ela… e sobre você (já partia pra intimidação). Você, não, senhora. Entra, eu te dou cinco minutos, não, só ela. Mas! Bete entrou, apartou as pernas e trançou os dedos na altura da virilha. Gilmara, o Dalton não fez nada, foi muito injusto. Você é irmã dele, claro que vai dizer isso. Norma, você viu o Dalton fazendo alguma coisa? Eu não me lembro. Pois eu trouxe testemunhas. Olha, mocinha, a bagunça da oitava B já foi longe demais, teve um que desmaiou outro dia. Eu sou responsável por vocês, será que você não entende? Tudo que eu faço é para manter a ordem, e preservar vocês mesmos, garantir a educação… A senhora não tem prova contra ele. Seu irmão é da turma do fundão. Eu trouxe testemunhas. Tá bom, deixa entrar. Mais dois minutos. Cada um deles garantiu o bom comportamento de Dalton, e a diretora ia ficando sem graça, até que ela explodiu, saltou da cadeira e os enxotou, e a Norma também, para fora do escritório. A senhora vai ligar pros pais dele, pros meus. Tá bom, eu faço isso, tenham um bom dia. Enquanto a comitiva saía vitoriosa, chegava o Lobi, que foi lacônico: tão jogando porradabol de novo. Gilmara bufou, e hesitou sobre o que fazer, havia começado uma guerra em que não podia recuar, mas acabara de recuar. Alemão, quando avistaram o Lobi, foi o primeiro correr para a fila da cantina e despistar, os demais fingiram disputar uma partida normal de futebol bem o bastante para que o encarregado ficasse com cara de tacho quando voltou. Bete achou o namorado e contou a façanha. Marrapaz, tu é macha pá porra, hein? Macha não, eu sou é muito mulher, meu bem.

Quando Dalton acordou, seu pai ainda não tinha saído. Ganhou um dia de feriado, não é vagabundo? Eu vou estudar, pai. Tão logo ele se foi, foi a vez de a mãe deitar falação enquanto duraram as bolachas com leite, e então ele foi com gosto estudar para escapar da tortura. Ele já resolvia qualquer equação de segundo grau com facilidade na hora em que a mãe bateu à porta, acabrunhada. Dalton, a diretora me ligou e me pediu desculpas. Disse que você é inocente. Hein! Desculpa filho. Ele a abraçou forte, saiu correndo até o quintal e soltou um grito. A mãe passou café e eles tomaram. Dalton aproveitou o bom momento. Mãe, posso ir no Cuba Libre amanhã? Claro filho, eu vou falar com seu pai… E no show de Iron, também? É de noite. Ai, filho, onde é isso? No Pedrinhas. Eu adoro Iron, mãe. O Brucidiço, lembra do Brucidiço? É a banda dele, ou era. Tá bom, se teu pai deixar, mas juízo, viu?

Afinal, o fino

outubro 30, 2020

Como se o maçarico sarasse os sírios, e séries de sáurios arejassem vimes, competissem por tâmaras e apetecessem símios. Na verdade o dardo ardia doido, e o reverso do parceiro é a cerveja; a virgindade, o adendo didático dos dáctilos. Afinal, o fino e a faina fenecem sêmen, e o cimento mente se disser que a decência assenta os santos. Destarte a torta articula cúmulos, macula incólume a meleca, e o mameluco cola um leque no colo quando já a hortaliças lisérgicas cogitam tangerinas genéricas. Depois não digam que a goma amamenta a manta, que as possibilidades badalavam dilúvios lívidos. Avalie o vale, que leva larvas a valorizar o zarolho. A casquinha do cânhamo nunca escancara o caráter da tertúlia, mas o pipoco da apócope cospe espetos tópicos, e basta o bestunto tinto atentar aos tenentes que os contornos ternos do norte permeiam mímicas. Pelo menos isso.

Lenços

outubro 29, 2020

Tem uma caixa de lenços ali na estante de livros, e toda vez que eu volto para me sentar na escrivaninha dou de cara com ela. Eu nunca uso lenços de papel, foi meu pai que me deu quando eu ia pegar a estrada e estava um pouco resfriado, ou nem isso, só fungando mesmo, eu nunca fico doente. Pois eu sei que de alguma forma olhar para a caixa de lenços é reconfortante. Não é só porque me lembra que eu não estou doente, esse é um tique meu. Quando eu estou percorrendo uma calçada, por exemplo, eu me sinto bem a cada loja que vende coisas que eu nem pensaria em me interessar, é um certo esforço poupado. Ou quando eu vou ao dentista, eu me sinto tranquilo sabendo que eu nunca seria dentista.

E quando eu me levanto da escrivaninha, eu vejo uma foto da praia em Santa Catarina, com umas bundinhas pra cima. Colada na estante de discos. Sempre me revigora depois do trabalho. Eu tinha o hábito de fotografar, perdi. Igual cinema. Eu costumava ver filmes de arte e estar antenado no circuito comercial, mas hoje! Pra piorar teve pandemia ainda. Será que estamos trocando todos os hábitos que tínhamos por internet? É terrível. E no entanto eu digo isso na internet. Eu devia voltar naquela praia, que praia era? Outra coisa que eu já tive no passado era pilha de morar em Florianópolis. Cheio de fascista por lá, melhor escolher uma praia no nordeste. Praia faz bem, é o oposto de internet. Se bem que você vai à praia hoje e tem três caixinhas tocando músicas ruins com qualidade de áudio ruim ao mesmo tempo. Eu estou me tornando um ludita. Fora a internet, né? Internet virou água.

Fim de outubro

outubro 27, 2020

Filho da puta, ele voa e eu não voo. Era um besouro. Um pequeno besouro. Passeando na minha pele. Tem um monte deles, como em todo fim de outubro. Será a época de procriar? Besouro faz sexo? Algum entomologista aí? Imaginem se fossem os humanos, saindo em enxames à rua para fazer sexo no fim de outubro. Em vez de no carnaval? Então não somos mais que besouros? Que não voam, ainda por cima? Caralho. Nem carapaça, frágeis a qualquer golpe da vida, inclusive os golpes de estado, especialmente os golpe de estado, quando a propaganda prevalece e quem perceba o que está acontecendo fica como um besouro virado sobre a carapaça. No fim de outubro. Eles vão pro lixo. Você varre o chão e eles vão pro lixo. Nasceram para acabar no lixo. E acabariam onde? A gente acaba onde, no cemitério? Comido por abutres em um deserto atacado pela fome? Celebrado em pompas de estado? Após dar um golpe de estado, talvez? Será que besouro é nutritivo? Porque em todo fim de outubro, já viu. Altas proteínas. Há quem diga que o consumo de insetos pode ser revolucionário. A pecuária tem muito impacto ambiental, você sabe. Com essa colheita do fim de outubro, dá pra alimentar a população pelo ano inteiro. Enquanto isso, logo que a população começa a comer mamíferos, vão lá e dão um golpe de estado. Que comam besouros. Ou tanajuras, dizem que no nordeste faziam muito sucesso, parentes meus comiam. Mas o que eu me pergunto, no fim, com golpe de estado ou não, é quais serão as receitas de besouro, gratinado ou à belle meunière, ou à parmeggiana ou aglio e olio, que publicarão na internet em pouco tempo. Todo fim de outubro.

Autorama 17

outubro 24, 2020

Vamos lá, taxa, residência, RG, CPF, foto. Em Brasília eu tive aquela brincadeira com a turma do David, oficina na escola de música, em casa com o Guilherme e o Trujas… e teve quando eu resolvi de novo ser músico, e decidi fazer um curso na Berklee, que acabou dando numa internação no estrangeiro. Em dois mil e nove eu desmarquei uma viagem pra França porque estava com sintomas, podia ter sido outra. A questão com a mania é que você acha que vai perceber que não está bem e procurar ajuda, mas quando ela entra você já não pode julgar nada direito. Só uma vez eu pedi ajuda e fui pra clínica numa boa, que foi dois mil e nove, depois que eu bati o carro no gramado da esplanada. Naquela época eu andava com o Basali e namorava a Lambisgoia, a gente tinha feito o protesto na embaixada de Israel, por mais uma incursão em Gaza; tinha uma dúzia de manifestante e uma dúzia de carro de polícia, a ideia era atirar sapatos (depois do Bush) melados de quetechupe na bandeira israelense. Quando eu fui no supermercado tinha uns caras monitorando, eu fui lá pedir fogo, foi divertido. Pois no dia que eu pirei eu passei no supermercado e comprei vinho, passei na embaixada e dei tchau pra câmera (achando que eu era importante) e achei uma grande ideia passear pela esplanada, até que o carro bateu numa caixa de esgoto. Depois espalhei umas caixas de CD no capô do carro, era uma mensagem para “eles”, seja lá quem “eles” sejam. E então eu fui voltando a pé, e capotei na casa do Zé lá em cima do Fausto. Nessa, eu mesmo pedi pra ser internado, foram só duas semanas, e tinha um cara que entrava com haxixe, ainda. Próximo. Até que enfim. Boa tarde. Eu vim renovar minha habilitação. Trouxe a documentação, senhor? Sim, está aqui: taxa, residência, RG, CPF, foto. Cinco e vinte. Senhor, este seu RG tem mais de dez anos. Claro, tem mais anos que você, filha, noventa e quatro. Eu só posso aceitar documento com menos de dez anos. Mas como assim, está válido. É a regra. Você não pode rejeitar me documento de identificação válido. Lamento, senhor. Vocês querem me forçar a tirar outro documento pra vender meus dados, que eu sei. Está sentando na mureta, Leonardo. Tá bom, filha. Traz o passaporte, você não tem passaporte? Tá bom, eu vou fazer isso. Puta que pariu, mas que raiva, dei viagem perdida, depois de trinta ônibus, informação errada, cagar na rua, e por nada. Eu podia tomar um café, ou eu podia tentar chegar no centro a tempo de comprar uns discos. Meio difícil. Agora tudo que eu quero é um cigarro. Ahh. Moça, sabe me dizer como eu vou pro centro? É aquele ali que tá saindo. Nossa, obrigado. Será que ele vai parar? Opa. Não deu nem pra fumar. Boa tarde. Vai pro centro? Vai pela Moreira Salles. Tá ótimo. Vazio, ainda. Lambisgoia. Eu conheci a Lambisgoia através do Basali, e o Basali em conheci na minha primeira crise em Brasília, em dois mil e seis. Ela praticamente me seduziu, mandava mensagem “come rain or come shine”, foi ela quem veio com uma florzinha quando a gente se beijou. Depois me largou do nada. Ou nem tanto, eu tomava um remédio que bombava meu libido. Uma vez eu quis contar uma cena de filme no meio do sexo, que tinha eu na cabeça. Acho que foi isso. Sobre protestar contra Israel eu nem ligo mais pra isso. Primeiro que você critica Israel e daí a prestar atenção a antissemitismo é um pulo, segundo que eu não faço nada pelos rohingya, pelos uigur, pelos curdos, pelos brasileiros que seja, então foda-se, a Palestina é uma causa de estimação da esquerda.