O mundo é mesmo uma panqueca

setembro 19, 2018

panqueca

Ainda que se convoquem todas as minhocas da percepção, o que sustenta o alface se esfacela na forma de flocos. O mundo é mesmo uma panqueca, disse a cortina com brio inexpugnável, e ao revés. Incontáveis nódoas inusitadas dependiam do suco em sua totalidade mínima, já foi repetido. O mato corre contra a correnteza ilusória, e participa da sina do biscoito. O contraste de um tratado tétrico brilhou no meio dos quatro ou cinco litros correspondentes. Passando seus conceitos na torrada, ela acessou a ossada telepática bem de perto, e não custou uma piscadela reconhecer a clandestinidade. Era um costume cronológico, anexo à capacitação de mímicos. Três vezes e de volta, até que não mudasse nem mais de código, sempre alcançando a minúcia parcimoniosa. Conseguia quando era mais velho, agora o iogurte gasta a gangrena casta. Ela pendurou o desespero no cabide e conjecturou atônita: o terço tento não subverte mais remendos do que a esquina da banca, onde se come asfalto. Foi preciso os pescar do topo da estratosfera indômita, e por pouco não capotou com as belas letras e tudo, por noss’enhora d’Abadia. Sabia que toda trapaça é trapezoidal, e esperou o próximo, coçando a nuca contra o cume do mais alto monte. A louça não contava com nada, nem evitou a viscosidade atenta das tentações. Bastou um cisco para que o inefável se dissolvesse, pedindo à verdade que não sacrificasse o cachorro, o qual nunca foi acusado de ensinar álgebra. Há pelo menos cinco maneiras de contar até um. Uma partitura preta encostou na condolência esquerda, e ela se misturou ao pranto, entrando por cima. Para nunca mais, e não há pressa.

Acaba Mundo LXXXI

setembro 19, 2018
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São Francisco do Sul – SC

Hoje são dezenove de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. A prova do doutorado está chegando, ou as provas, e eu ainda me sinto um picareta. Não só eu me sinto aquém da academia, o que é provavelmente um exagero, possivelmente charme, ou talvez ainda a insegurança venha mais do ambiente caótico, mas também acho a academia aquém dela mesma, tanto pelas mazelas que já hoje a limitam, como um certo automatismo alienado, quanto pela piora no quadro que as forças reacionárias prometem, com cortes e até mesmo privatização. Infelizmente, naquilo que resolvi, e sei, fazer, é na Cadimia que eu preciso buscar credenciais para ser levado a sério. E quando eu for enfim levado a sério… nada muda, porque ninguém lê mais porra nenhuma. Eu deveria ter me formado em engenharia e buscado emprego em corporações estrangeiras, deveria ser eleitor do Amoedo sem coragem de declarar amor ao fascista, como meu irmão e tanta gente bem ajustada. Ou então devia ser advogado, estudando para a magistratura cheio de latinismos na boca para falar em direito constitucional enquanto a constituição é reduzida a cinzas. Perceber a realidade atrapalha muito. Veja meu pai, que passa uns dias em São Paulo: vaselina da porra, falso isento, reacionário que não se assume, fez que não era com ele na ditadura de 64 e faz que não é nada agora. E eu ainda me desgasto gastando meu verbo, me irrito. Deus meu no qual eu não acredito, me dê a calma das pessoas estúpidas! Como eu previ, Haddad dispara e aparentemente se consolida no segundo turno (se primeiro houver) contra o Pocket. Isso me deixa tranquilo para votar no Boulos, muito embora eu ainda pense que deveria fazer essas provas e me refugiar em São Chico, sem notícia alguma, de preferência. Mal posso esperar para retomar minha tradução, que isso de me preparar para seleção de doutorado me fez interromper. Não apenas, ler sobre teoria literária trabalha no sentido de minar meu prazer na literatura: ninguém quer ver um truque de mágica explicado. E dá pra acreditar em mágica hoje?

O pêssego no seu ápice

setembro 18, 2018

magritte

Um ritmo flácido exauria o pêssego no seu ápice, e as perspectivas ciliares não colhiam óbices. Drasticamente, a atmosfera rejeitou qualquer ardil concomitante. Ela vestiu um nome sintético e escutou o cobre próspero, em vão. Sempre quis cultivar pentágonos, sempre acreditou na altivez do cascalho, e no entanto. Saiu sem rumo até o destino de sempre, a tangerina contemporânea onde a palidez limítrofe permitia ofuscar os calcanhares com mais clareza. Longos pássaros penduravam bólidos cálidos de novo, e foi uma surpresa tudo ser tão corriqueiro. No vigário habitual, no encanto, ela emergiu no calendário disforme, conforme a forma que de forma alguma merece a troça que traz o tráfego. Cumprimentou o mecanismo sem entusiamo, sem saborear possíveis lendas, mas imune à música, que apertou o terceiro. Deu um tapa na escultura e flambou o trâmite, mais aterradora que a omelete feita do ovo de Colombo. Não fazia mais sentido fender o figo apenas para que a contorcionista cortasse a tempestade. E de fato foi. Não sem menos. Ela percebeu que a pompa eletrônica tinha os cadarços desamarrados, e fluía para cada lado, sem crer nem coser. É o que me consta. Ao menos nenhuma portinhola reclamou das atribuições do coqueiro. E assim ela abraçou mais um século pelo nariz, que é o que cabe a cada equação que mereça o nome. Nem que a liberdade fosse irreversível.

Acaba Mundo LXXX

setembro 18, 2018

alemanharussia

Hoje são dezoito de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. “Deveríamos proibir os pobres de ter trabalhos degradantes? Boa intenção do Ministério Público do Trabalho resulta em menos alternativa para quem já tem poucas”. Isso sai na imprensa hoje como se não fosse nada. Após o Escobar comentar que os empresários alemães estão loucos para fazer negócios na Rússia, o Chefe de Estado alemão Frank-Walter Steinmeier (de quem ninguém nunca ouviu falar, porque a Chanceler Angela Merkel está em todas) dá declarações, na estratégica Finlândia, em favor de um rapprochement. Como reagirá a Águia Americana a mais essa? Israel aparentemente derrubou um avião russo na Síria, e resta saber a escala dos desdobramentos. Bom lembrar que lançar uma guerra espetaculosa pode ser uma estratégia de defesa tentadora para um governo acuado como é o de Trump. Um desses jornalistas de merda da nossa imprensa se saiu com uma estranha e convenientemente curta nota, segundo a qual o serviço secreto israelense, a Mossad, teria alertado Bostossauro de que o Hezbolah, seja por que cargas d’água, quer sua cabeça, junto com a do Macri. A única coisa que isso prova é que Israel (além de grande parte da comunidade israelita aqui) apoia o inominável, e que faz questão de deixar claro. É óbvio. Israel é Estados Unidos, e os dois votam sozinhos contra o resto do mundo na ONU. Outro dia li um texto que adotava o termo imperialismo anglo-sionista. É o que constitui o maior  empecilho para um mundo multipolar, que parece ganhar força no movimento para o leste da Alemanha, e nós estamos no olho do furacão, reclamados como esfera de influência de Washington mais uma vez.

O morfema morfético

setembro 17, 2018

Trippy-Optical-Illusion-Eye-Trick

O morfema morfético catalisava cataventos tépidos no alpendre. Soprava a seiva cúbica do amianto célebre durante a população, entre o pasto e o procedimento póstumo. Passava tudo a ser uma questão de nada, ou quase nada, ainda que indiretamente. A temperatura se precipitava fartamente sobre a vegetação subterrânea, mas parecia ainda possível atropelar imagens carcomidas sem que isso atrapalhasse a digestão. Foi então que a erupção mimética de um galo de briga proporcionou uma contundente costura de conotações. Prosseguiu-se sem que a noite bebesse leite, atendendo aos lírios compostos, e não tardou a que fosse cedo pela última vez. A luz passava manteiga na maior parte dos portos entrementes, e os animais precisavam estudar. Era a melhor hora para palitar o cérebro, e o bule saía para trabalhar, aparvalhado, tateando mil impressões fatigadas de governos múltiplos. Que dias eram aqueles em que televisores pediam fórmica na porta da balbúrdia. Nada distinguia os galhos de uma asneira de uma contestação epistemológica das cuecas do niilismo, e todos criam na inevitabilidade do impossível. E mesmo que o chafariz nunca fosse mais o mesmo, bastava a taverna tamborilar faceira que o brandir de curativos purificava o canhão passageiro. Hoje nada é diferente.

Acaba Mundo LXXIX

setembro 17, 2018

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Hoje são dezessete de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Desânimo. Vontade de ir embora. Mesmo acompanhar os debates já cansou. Parece baldado. Imagina então comentar depois. Após as declarações de generais aventando autogolpe ou questionando a legitimidade das eleições, o Messias grava vídeo brandindo a possibilidade de fraude. O monstro segue crescendo, e não apenas em intenções de voto. Eu, que cria que ele batera no teto, não contava com a naturalização de seu discurso. Tolo fui eu, justo eu, que há muito repito que a extrema-direita é o senso comum neste país. Volte aí dez, vinte, quantos anos forem e pergunte opiniões sobre “bandido bom é bandido morto”. Esse pensamento só vem à tona mais explícito, e se estende a um macartismo que absolutamente não havia quando eu era criança e a União Soviética estava de pé. E cá estamos. Jogador de futebol já dedica gol ao candidato, jogadores de vôlei fazem gesto, e a torcida de um clube canta sobre uma “solução final” para homossexuais sob o pretenso líder. Assinalar que Haddad sobe, quem cai, ou conjecturar se o Psol vai terminar com menos votos que seu membro expulso lá no monte, que poderia importar? Se o fascista vence, vencem os milicos, e se o fascista perde, os milicos viram a mesa. Tomara que seja pessimismo. Mas, não importando qualquer votação, boa parte da população se fascistizou. Ouço relatos assustadores, como os motoristas da terceira ponte em Vitória, cobrando o assassinato de um homem que se tentava resgatar de tentativa de suicídio, porque era negro e pobre. Aí está essa colossal manga a ser chupada. Quando dissipa? Ou é ladeira abaixo? Soube que há muito interesse em aprender português na China. Pensando a sério em ir dar aulas por lá. Mas, até aí, fugir de uma ditadura incipiente para morar numa sólida não sei se faz sentido. E o que faz? Acaba mundo!

Café volúvel

setembro 16, 2018

pollock

Preparava café volúvel quando o esgoto tocou. Percorri os milênios como se fosse um adestrador de precipícios, sem me molhar. Esbarrei na leveza, que foi ao chão e entrou em órbita. Quando alcancei a peçaneta, polvilhando sem muito rigor as pausas entre as telhas, pude perceber que o banco dianteiro da quaresmeira balbuciava impropérios ao pároco. Curioso o bastante. Transitei entre a escala lassa que não produziu qualquer dínamo, e deixei entrar toda a clorofila do dia. Ouviam-se frigideiras cantar e um javali patinava no pátio da lanchonete. Recebi as sutilezas pétreas que trazia a enfermeira, ereto. Lambi a soleira em agradecimento, uma vez que àquela altura os cães já não folheavam as mesmas vítimas. Havia aguardado os próximos três meses pela dilatação ambígua do dicionário, e não seria agora que as opções teleológicas poderiam se reproduzir canhestramente. Pois. Praticamente vivo, testava a tese da testa triste que as autoridades condenam, embora o mundo minta. Nem precisava. Foi sempre a safra que o açafrão sofrível temia, não sem olivas, e tudo indica que quanto a tétricas fonéticas que incidem obliquamente, a mesma túnica promove os refrigeradores. Através do brilho, uma orquestra de tatus tatuados tartamudeava em vão. Saciei-me contra o vento, desnudo de artifício e pleno de brevidade. A tarde era apenas um consenso.

Acaba Mundo LXXVIII

setembro 16, 2018

Bolivian-Wiphala-Flag

Hoje são dezesseis de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Nós materializamos o mundo ficcional da literatura cyberpunk. A guerra é travada na virtualidade. Mulheres criaram um grupo de fecesbook contra o Bostossauro, que passou de dois milhões de inscritas. Acabam de hackear a página, que ao que tudo indica deixou de existir. Mais preocupante é saber que o Twitter derrubou a hashtag #elenao aceitando denúncia de spam. Aparentemente num jogo de vôlei houve um gesto pró-Bostossauro. Não sei qual é o gesto, e espero que ele não se dissemine de forma assustadora, mas acho que é bem apropriado porque fascismo nunca prescinde de uma saudação. Que tempos bizarros que eu decidi comentar. Aliás, quem não comenta? Todo mundo comenta sobre tudo hoje. Está se formando uma enorme ilha de comentários descartados no Pacífico. Haddad enfrentou o abatedouro na bancada do JN e se saiu com umas boas, como lembrar que a Globo é investigada. Último Datalhofa o traz empatado com Ciro em segundo. Mas eu mal tenho energia para me estender sobre a campanha eleitoral. Toffoli assume os escombros do STF cantando Legião no karaoke, e com um general por babá. Começa enquadrando promotor que reabriu o caso do aeroporto do Aécio, e tomando uma rasteira de Moro, aquele que paira por sobre toda a hierarquia por algum motivo misterioso. Morte de JK é declarada homicídio por Comissão da Verdade da ALESP. Almagro da OEA brande ameaças de invasão à Venezuela. Antes dele, Mourão já mencionara uma “missão de paz”. Ou seja, daqui a pouco o Brasil declara guerra ao vizinho e eu ainda sou chamado a servir à pátria, já pensou? Começando a me convencer pelo plano B de Bolívia.

Empilhava helicópteros

setembro 16, 2018

saca

Camila empilhava helicópteros displicentemente, sentada sobre a Lua. E cabe a cada planta ilustrar os padecimentos peculiares dos bezerros cósmicos. Pergunte ao cacto. Naquele mesmo ano a aspereza ausente dos torvelinhos supracitados nunca chegou a interromper consonâncias insuspeitas. Então não é o caso de falar de mágica quando os chuveiros assolam até os sapos produzidos em série antes que esfrie. Um carnaval politotêmico tiritava enquanto a tosse da caixa de sapatos prescindiu de outro anúncio, ou mesmo de palíndromos pálidos. Ufa. Não sabia. Que a coisa tenha sido exatamente como foi, e deixado de ser de todas as outras maneiras como poderia ter sido é um tijolo amarrado à estátua e que não encontrou amparo nas taxas de longo prazo. Bulhufas, eu. Nem de modo diverso. Eles estavam aí o tempo todo, empregando o saca-rolhas à vontade em tantas tramas marteladas sobre joelhos régios. E segue, sobe, desce, e explode um dia e envelhece sem pretensão alguma. Dizem que é relativo e eu concordo em absoluto. Nunca ninguém se queixou dos calos dos outros, eu presumo, e o que nunca foi dito volta à tona e derrete lentamente, como o aço. Nunca de novo. Um palito de fósforo partido ao meio podia resolver aquela nuvem, não fosse a falácia de força fulminante. Por diferentes maneiras, é claro, como a noite estrelada mergulhando num poço e nunca perguntando por suas sandálias, por exemplo. Ainda que não se tenha estabelecido um carregamento de detergente condizente com as erupções parasitárias no departamento de geopolítica, é seguro afirmar que os jardineiros apontam que a paçoca é essa.

Triturado uma bola de basquete

setembro 15, 2018
vliet

Don Von Vliet

Eu nunca tinha triturado uma bola de basquete antes. E olha que em cada fresta do frigorífico, pelo menos até anteontem, os indícios eram claros de que algo obscuro ofuscava o fisco. Aonde. Eu tentei evitar que a azáfama hodierna lubrificasse a erosão totêmica a tempo. Não poupei esforços para mastigar o céu, mas lucrei na bolsa escrotal e produzi um rastro de tranquilidade anêmica. Perdi a conta. Sempre soube que ignorava o que sabia, que o noticiário não frita o peixe nem quando a lâmpada acena a cena no cenáculo. Ninguém me disse, e eu confio em ninguém. Pouca coisa. Era jovem ainda quando os olhos do urso cintilavam céleres antes da votação. Então não me passe manteiga em submarinos nucleares sem antes desenhar colmeias de formigas mutantes. Besteira de novo. Se eu balbucio bulbos bubônicos, silvo setas sensatas ou cato o quepe quimérico, que muda? Fico aqui. Quem quiser que coce a alma úmida e incrimine as leis da física pelo malogro do ogro. Para adiante quem sabe, se o rei adoecer, se o feiticeiro for preso, se o amor criar caruncho, o pedinte não ofereça, e o ciclista não voe? Eu não saio daqui.